República: a desilusão do jovem príncipe

Publicado em 15 de novembro de 2015 por - História do Brasil

Pedro Augusto era jovem, belo, culto, inteligente. Um verdadeiro príncipe. Seu poder de simpatia o fazia estimado em todas as partes da corte. E fora dela, também. Por isso mesmo ele já sabia. Muitos o sabiam. Comentara sobre o assunto, aliás, com os amigos que o visitaram em sua residência na rua Duque de Saxe, na noite anterior. Há algum tempo circulavam denúncias de que oficiais do Exército conspiravam contra a monarquia. Eram avisos anônimos. Pior, avisos sem provas. Difíceis de punir. No mês de novembro, enquanto se festejava a presença de oficiais chilenos na capital, reuniões deixavam vazar o mal estar dos militares. Na noite do baile da Ilha Fiscal, alguns deles se agruparam no Clube dos Oficiais. O príncipe soube, também, que o marechal Floriano Peixoto, pessoa da mais alta confiança do governo imperial, teria rabiscado um bilhete a Ouro Preto dizendo: “Há esta hora deve V. Exa. Ter conhecimento de que tramam algo por aí; não dê importância…confie na lealdade dos chefes que já estão alertas”. Tudo isto, argumentavam os monarquistas, eram “balelas da oposição”. Mas os amigos que frequentavam sua casa afirmavam que neste ambiente de conjuração, seu nome poderia ser a única saída. Se havia modificações a fazer na sucessão do Imperador D.Pedro II era para colocá-lo no trono.

Afinal, a ambição de sua tia em tornar-se imperatriz estava longe de ter sustento. Sim. A princesa Isabel, era respeitada por suas qualidades pessoais: piedosa, boa mãe, esposa dedicada, filha extremada. Mas politicamente? Apenas tolerada. Não era sem repulsa que os políticos – e por que não, os homens de maneira geral – a viam exercer as funções que lhe atribuía a Constituição. Durante a Regência, quando ele estivera fora com o avô, Deus! Quantos conflitos pequeninos ela não criara com Cotegipe, então chefe do gabinete de ministros! Não insultara a Guarda Nacional chamando seus membros de “coronéis de bobagem”? Não sentara um padre estrangeiro, o Núncio do Papa, a seu lado na carruagem, enquanto fazia os brasileiros andarem sempre sentados à frente, como qualquer camarista? Não se negara a assinar a pena de morte de um escravo criminoso, sob alegação de que “ao coração de mulher repugnam certas coisas”? Não sabia dar ordens. Pouco sabia dos negócios públicos e quase nada conhecia da administração. Inadmissível vê-la intrometer-se na formação de Câmaras e gabinetes, nas eleições, na balança dos partidos que ora tinham que pender para um lado, ora para o outro, deixando tudo na mesma. A estratégia era usada com eficiência pelo avô, para ódio de seus detratores. Não havia dúvidas: a má vontade com o governo de uma mulher era explícita. As intrigas e confusões em torno dos moradores do Palácio Isabel se multiplicavam.

Beata. Carola: chegara a ponto de varrer o chão de uma igreja de Petrópolis, diziam alguns. Submissa. O “Francês”, ou seja, o conde D´Eu, é quem dava as ordens, mesmo contra a política de senadores e dos grandes do Império, reclamavam outros. Ah! O “Francês”: detestado também por alugar cortiços. Detestado por falar cheio de rr e em tom de choro. Detestado por viver despenteado, os cabelos arrepiados, as botinas sujas, as casacas cheias de dobras, as cartolas amassadas. Ridicularizado por vestir casaca com a grande ordem do Cruzeiro, trazendo as calças arregaçadas até os tornozelos. Não zelava por sua imagem. Recentemente, não lhe ocorrera predizer futuro sombrio ao fonógrafo recém-inventado nos Estados Unidos, pois julgava que o caráter misterioso da voz gravada tinha sabor de alma do outro mundo? Quanto atraso! Em Petrópolis, ia com os filhos às aulas de ginástica e não se contentava em olhar. Acompanhava os movimentos infantis com gestual “esquipáticos e desgracioso”, segundo contavam. Era visto depois, pelas ruas da pequena cidade, seguindo um carrinho puxado por carneiros aonde iam os meninos, “O que de certo não concorria para seu prestigio”, rematava o visconde de Taunay, frequentador da casa do príncipe. Era tão carola quanto a mulher. E o príncipe se deleitava com as imagens que diminuíam seus concorrentes.

Há dois anos, quando o avô, D. Pedro II, estivera para morrer, começaram a circular as primeiras notícias sobre a outra sucessão. A sua. Um ofício do ministro austríaco foi um dos primeiros sinais de que ele, Príncipe, já tinha apoio crescente. Enquanto isso, o ministro da França notificava ao seu governo sobre os primeiros sinais da conspiração, que já circulava no sangue da família imperial. Não queriam nem a princesa, nem seu filho. Quanto a Pedro Augusto, tinha até a compreensão dos ingleses. Seus “méritos” eram bem aceitos. Colocavam-no ao lado de Isabel como candidato ao trono e o corpo diplomático aproveitava para censurar as tendências clericais da princesa e a influência do marido, um estrangeiro, nos negócios do estado, em detrimento da independência do Brasil.

A avó Teresa Cristina se queixava: “Plantaram a discórdia na família”. Mas, agora…quando subiria ao trono? – se perguntava o Príncipe num apurado trote elevado, enquanto saudava um passante com um movimento de cabeça. Foram longos anos de espera a um preço terrível. Ele engolira todos os sapos e fizera todos os esforços. Tinha, até esta manhã ensolarada, a convicção íntima de que a data estava próxima. Não tinha planos muito claros para o império, mas tinha amigos que lhe dariam idéias. Deixou-se levar pelo ritmo do exercício e por seus sonhos de coroação.

Quando voltaram, o homem e o cavalo, suados, ao Palácio Leopoldina, o mordomo aguardava à porta principal. Parecia ansioso em falar com Sua Alteza. Enquanto o cocheiro recolhia o animal, o criado se precipitou escada abaixo. Com a cabeça baixa e alguns passos de distância do príncipe, começou a cuspir as informações que recebera logo cedo por gente que vira a coisa acontecer. Tudo começou ao clarear do dia, explicava o serviçal que era de toda a confiança de Pedro Augusto. O som das botas e das rodas dos dezesseis canhões krupp quebraram a monotonia do Campo de Santana. Quem olhasse pela janela de um alto sobrado na rua do Conde da Gávea, vizinha do quartel-general, descortinaria uma cena insólita. Eram quinhentos homens a marchar. E não pertenciam à Guarda Nacional que aí costumava fazer seus exercícios aos domingos. Era a 2ª. Brigada do Exército, dois Regimentos de Cavalaria, mais cerca de sessenta alunos da Escola Superior de Guerra, inaugurada no ano anterior. Todos armados dirigiam-se ao dito quartel, vindos de São Cristóvão. À frente o comandante do Primeiro de Cavalaria. Cavalgando, a seu lado, o rosto fino, os bigodes fartos e em ponta, o pince-nez do professor da Escola Militar, tenente–coronel Benjamim Constant. No caminho, o oficial que portava o pavilhão imperial jogou-o longe, com desprezo. A bandeira aterrissou no quintal de uma das casas ao longo da rua. Uma carruagem contornou a praça e depositou Deodoro da Fonseca diante do grupo. Embora fragilizado, magro e arfante, Deodoro tomou a montaria de um subordinado, assumindo a coluna de rebeldes. Era homem imponente, por trás da barba crespa e branca. A ele se juntou o único civil integrado às forças atacantes: o jornalista republicano Quintino Bocaiúva.

O quartel – continuava a contar o mordomo, já no frescor do salão enquanto servia ao príncipe um copo de limonada – se achava rodeado por destacamentos do Exército, da Armada, da Polícia da Corte e dos Bombeiros, convocados para sua defesa.  Desde a véspera corria a notícia de um movimento sedicioso. O gabinete Ouro Preto lutava para contê-lo. Ordens dos ministérios da Guerra e da Marinha mobilizara uma brigada mista de cerca de mil homens supostamente leais ao governo imperial. Supostamente. Postados ao lado da Estação da Estrada de Ferros, os homens enchiam também o pátio do quartel-general cujos portões estavam fechados.

Por sugestão do ministro da Guerra, Enéas Fonseca Galvão, Visconde de Maracajú, o gabinete liberal que governava o país se reunira no quartel general para “animar a resistência” e enfrentar o golpe. Um grupo, portanto, sabia que o Império corria riscos. O marechal de campo Floriano Peixoto ocupava seu posto junto ao governo. Tanto ele como o ministro da Guerra tinham dado garantias a Ouro Preto, de que a situação estava sob controle. Falsos! Nenhuma iniciativa contra os golpistas tinha sido tomada. Nenhuma barricada erguida, nenhuma boca de rua guarnecida, nenhuma casa vizinha ocupada para conter os insurgentes que logo iam mostrar a cara. Muitos dos homens do governo acreditavam piamente em que não haveria grandes surpresas. Outros como Floriano, passava ordens em voz baixa para os oficiais. A qualquer aproximação de Ouro Preto, agiam com dubiedade. Por precaução, as tropas mantinham-se apenas com as armas ensarilhadas. Todos pareciam assustados. O 10º. Batalhão de Infantaria, unidade de maior confiança do governo imperial, fora mandado interceptar a Escola Militar que também se rebelara e marchava, vindo de suas instalações na Praia Vermelha.

Um piquete de cavalaria sublevada chegou em missão de reconhecimento, até os muros do quartel-general. Surpresa: não provocou nenhuma reação dos militares presentes. Dentro do prédio, Ouro Preto, irado, reclamava um contra-ataque. Queria a captura dos oficiais, mas esbarrava na inércia silenciosa dos homens com os quais deveria contar. Um exemplo: um oficial, designado para o comando das tropas aparentemente fiéis, circulava pelos corredores do quartel. Instado a assumir as funções para as quais havia sido designado, e interpelado por Ouro Preto se “ – iria cumprir seu dever”, respondeu, com singular expressão: “ – seguramente irei cumprir meu dever”. Mas a dúvida ficou no ar: cumprir em relação a quem?

E o mordomo prosseguia diante do rosto impassível do príncipe, o cerco em torno do quartel se fechou. Ombro a ombro, os militares das mais diversas patentes cerravam fileiras em torno de dezesseis canhões que apontavam para a fachada do quartel. A Brigada Mista formada por fuzileiros, encarregada de resistir contra as tropas revoltadas, cedeu quando seu comandante obedeceu à ordens de Deodoro da Fonseca de se alinhar com eles. Enquanto isso, o 10º. Batalhão de Infantaria que marchava para fazer frente aos cadetes da Escola Militar, abortou sua missão. As unidades se confraternizaram.

No Campo de Santana, um mensageiro se destacou das fileiras – seguia relatando o mordomo. Trazia uma mensagem de Deodoro da Fonseca para Floriano Peixoto. Ouro Preto recusou-lhe a entrada: no seu entender, uma força armada revoltada tinha que ser repelida à força. E sem diálogo! Mas aconteceu o pior, dramatizava o narrador. Nesse momento, chegou ao quartel general o ministro da Marinha, Almirante Barão de Ladário. Era um homem entrado em anos. Uma vasta barba e bigodes brancos lhe cobriam as faces e comendas e honrarias militares se acumulavam sobre a farda. Um ajudante-de-ordem de Deodoro deu-lhe voz de prisão. Ladário não teve dúvidas. Desceu da carruagem que o conduzira até o Campo, sacou da pistola, atirou sobre o oficial. A seguir mirou sobre Deodoro. Errou os dois tiros. A reação foi imediata. Um piquete de homens caiu sobre ele, agredindo-o com tiros e coronhadas. Foi salvo por Deodoro que teria gritado: “Não matem o Barão!”. Muito ferido, foi recolhido a uma farmácia e depois levado para casa. A ideia de que os revoltosos atiravam para matar impressionou o príncipe.

O que o príncipe Pedro Augusto não soube é que, dentro do quartel-general, as ordens de Ouro Preto para resistir eram esvaziadas. Ninguém parecia ouvi-las. Floriano alertava para a carnificina que a artilharia, assestada sobre o quartel, poderia provocar. Ouro Preto insistia, argumentando com o marechal que durante a Guerra do Paraguai fora possível neutralizar a ação dos canhões a pouca distância. E teve que ouvir em resposta: “ – Sim, mas, lá tínhamos pela frente inimigos e aqui somos todos brasileiros”. Ao mesmo tempo, outros oficiais demonstravam, eles, também preocupação com o matadouro em que iria se transformar o campo de Santana. Lamentável, mas, não era possível qualquer reação, como desejaria o primeiro-ministro. Diante do fato consumado, enviou-se um telegrama ao Imperador: o texto dizia que o Ministério estava sitiado, que um ministro fora ferido e que não havia como resistir. Ouro Preto pedia demissão de seu cargo de presidente dos ministros e encerrava o texto com uma frase definitiva: “A tropa acaba de fraternizar com o Marechal Deodoro, abrindo-lhe as portas”.

E de fato, obedecendo às ordens de Deodoro e conhecedores dos rumores que circulavam dentro do quartel sobre as reticências a respeito de qualquer reação, os soldados abriram os portões. Velho e doente, o marechal Deodoro, entrou no pátio, aos gritos de “ – tirem esses trambolhos daqui”, referindo-se às metralhadoras armadas nos seus tripés. As armas desabaram por terra. A tropa presente respeitosamente o saudou, em continência! Ao ouvir um “ –Viva a República”, mandou calar! Ao som da banda e do tinir das armas que lhe iam sendo sucessivamente apresentadas, Deodoro subiu ao salão onde se achava, acuado, o ministério. Ao cruzar com o ministro da Guerra, Maracaju, lhe teria dito secamente, “- Adeus, primo Rufino”. Decretava, com a seca despedida, o fim do ministério.

Com Ouro Preto, foi direto ao ponto: pusera-se à frente do Exército para vingar gravíssimas injustiças e ofensas que esta corporação recebera do governo. Enquanto o Exército se dedicava à defesa da pátria, os políticos só o maltratavam e cuidavam dos próprios interesses pessoais. Aludiu aos seus sofrimentos, pois estava gravemente doente, sem contar os outros problemas, nascidos nos campos de batalha do Paraguai. Mas Ouro Preto não perdeu tempo em responder: “Não é só nos campos de batalha que se serve à pátria e por ela fazem-se sacrifícios. Estar aqui ouvindo o general neste momento não é somenos do que passar alguns dias e noites num pantanal”. Encerrou-se a conversa com voz de prisão a Ouro Preto. Estava deposto e preso. Sem mais.

A seguir, e depois de uma salva de vinte e um tiros, Deodoro saiu à frente das tropas do exército, Armada, Polícia e Bombeiros, desfilando pelo centro da cidade, ouvindo pelo caminho aclamações e discursos patrióticos. Terminou seu trajeto em frente ao Arsenal da Marinha. Aí, novamente, os portões se abriram e foi recebido pelo contra-almirante Eduardo Wandenkolk, líder dos republicanos na Marinha, além de convidado do príncipe Pedro Augusto, alguns dias antes.

Depois de dispersas as tropas que haviam tomado parte no movimento, Deodoro se recolheu. Até este momento não houvera proclamação de república alguma. Tão somente se anunciava mais uma queda de ministério. Procurava-se um substituto para Ouro Preto e havia mesmo quem tivesse ouvido Deodoro gritar para as tropas, “ –Viva Sua Majestade, o Imperador”. Apesar do aparato, nada se decidira. Inconformados, alguns republicanos, militares e civis, liderados por José do Patrocínio, se reuniram no edifício da Câmara Municipal onde foi hasteada a primeira bandeira da república: uma imitação da americana, com listras amarelas e verdes. De lá, o grupo marchou até à casa do velho marechal, do outro lado do campo de Santana. Adoentado e com falta de ar, depois de tanto esforço, Deodoro já se encontrava deitado. Benjamim Constant veio até a sacada de onde ouviu Patrocínio discursar apaixonadamente sobre como o povo havia proclamado a República. A resposta vinda da janela decepcionou a todos: “ – o voto do povo seria tomado em consideração”. Uma ducha fria. A dispersão se fez em silêncio.

O príncipe Pedro Augusto ouvira cada palavra dita pelo mordomo com atenção. Estava atônito. Bem informado como era, por quê não foi avisado com antecedência? Afinal tinha amigos entre os republicanos. Fizera alianças para garantir seu futuro Reinado. O plano estava bem encaminhado e seus partidários da Marinha – ou aqueles que ele achava que o apoiariam – não lhe deram nenhum sinal desta mudança. Faltava pouco para o aniversário do avô, data, em que os fatos tomariam novos rumos políticos. Em que o futuro do Brasil estaria nas mãos de um jovem brilhante, bonito e gentil. Enfim, nas suas mãos!  Um aperto no coração indicou que as coisas podiam não transcorrer como ele havia previsto. A manhã, antes azul, agora lhe parecia sombria. Não estando bem certo do que aquilo significava, mandou um espia para a casa dos tios. Que se infiltrasse entre os empregados. Que abrisse bem os ouvidos. Era importante saber o que lá ia acontecendo.

– Trecho do livro “O Príncipe Maldito”, de Mary del Priore. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2007.

pedroaugustoprince

 

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