Reforma do Ensino Médio: um futuro incerto para o ensino da História

Publicado em 19 de fevereiro de 2017 por - artigos

           O horizonte parece sombrio. O ensino da história foi excluída do rol de disciplinas obrigatórias no Ensino Médio, pela Medida Provisória 746/16. Isso significa menos emprego para muitos de nós, que estão se formando. A esse apagamento da disciplina, soma-se, também, a menor – cada vez menor – visibilidade das Ciências Humanas. Afinal, para que serviram, se os grandes debates que atravessaram o século XX não explicaram genocídios e guerras, não impediram a desigualdade, nem a fome ou, nos regimes democráticos, não promoveram a cidadania plena: aquela que agencia educação, saúde e emprego? Sem função aparente, num mundo funcional, elas parecem não ser necessárias.

         Mudanças de conteúdos para o ensino médio têm sido feitas em toda a parte. Nos países que tiveram colônias e que hoje recebem imigrantes, o esforço de explicar os processos de colonização tem por objetivo integrar as populações estrangeiras. Tal agenda fez “cair fora” centenas de especialistas em áreas específicas. A Antiguidade greco-romana, para ficar num exemplo. Até os estudos sobre “alteridade”, que tiveram no recém-falecido Todorov seu ícone, não diminuem a xenofobia e o racismo na “civilizada” União Européia. Termos como “nação” e “fronteiras”, que justificaram barbáries, voltaram ao vocabulário dos políticos. E o que dizer do impacto das comunicações, da tecnologia e da mundialização no contexto da Educação?  Tudo isso joga a História num balaio de interrogações, quando o que buscamos, num horizonte instável, são respostas.

         A nossa disciplina, como tudo, aliás, se transforma. Ela é dinâmica. E penso, que essa talvez seja a hora de meditarmos um pouco sobre a relação entre o “fazer história” ou lecionar história, com o mundo em que vivemos: o “mundo liquido”, como quer Zygmunt Bauman. Ou a “era das incertezas” na expressão de Edgard Morin. Não é fácil.  E, a essa altura, a diminuição do espaço dos historiadores no Ensino Médio parece assustador. Como reagir? O historiador francês, Pierre Nora, já nos definiu como sendo os “profissionais do entusiasmo”. Vamos colocar, então, nosso entusiasmo a favor das mudanças.

        Ora, sabemos que nosso ofício evoluiu, baseado numa lógica de profissionalização cujo objetivo é contribuir ao sucesso educativo do maior número possível de pessoas, usando, para isso, competências e saberes específicos.  Num país grande e desigual, essa evolução não foi a mesma em toda a parte. Mas, correspondeu, sim, a realidades complexas num sistema de ensino que até hoje não se consolidou. E que, inacabado, está “em crise” há tempos. Quem não houve falar em “crise na Educação”?

          Vivemos, simultaneamente, várias crises endógenas. Uma nasce do desequilíbrio provocado pelas dúvidas que emergiram na historiografia, com o fim das certezas do marxismo, as mudanças e questionamentos sobre as narrativas históricas, o papel da memória, a rapidez com que conceitos são criados e abandonados, o relativismo nas interpretações.  Outra se alimenta das dúvidas que a modernidade introduziu por meio de “tecnologias”: arquivos digitalizados, pesquisa através da internet em lugar dos velhos e poeirentos arquivos, infinitas possibilidades de fontes, sobretudo no campo das comunicações: fotografia, cinema, música, ao alcance cada vez mais rápido do pesquisador, submergindo-o. E outra ainda, é proveniente das contradições sociais: alunos desigualmente interessados ou preparados, dependendo do nível de educação que receberam com suas dúvidas, dificuldades e muitas vezes, desinteresse, produto da massificação do ensino. Ora, precisamos dar conta de tantas tensões, não com o objetivo de restaurar uma ordem antiga, idealizada. Mas, tendo em vista uma adaptação às novas realidades, graças à inovação, a renovação e tudo mais que encarne o progresso.

           Sem nenhum cenário pré-definido, acredito que talvez seja esse o momento para pensarmos como sair de rotinas petrificadas, para trilhar um cenário híbrido e rico de contradições que nos obrigará, também, a reconstruir nossa identidade de professores de História do Brasil. Se há uma demanda forte por melhor escolarização em nosso país, vamos colaborar oferecendo um nível de estudos cada vez melhor. Se há aceleração e transformação tanto da sociedade quanto da cultura, façamos o ensino e a produção de História, acompanhá-las. Uma vez que a mudança está aí, nada de nostalgia do passado idealizado, quando a escola distribuía saberes codificados. Aproveitemos para criar mecanismos que combatam a desigualdade, oferecendo aos nossos alunos uma ponte com as novas tecnologias e essa palavra detestada: o mercado. Sim, estou falando em mercado de trabalho, pois é para lá que eles irão.  Como fazer isso? Não tenho receita certa, mas algumas intuições. Teremos que passar por um processo de aprendizado coletivo, sem respostas ou garantias definitivas. Teremos que assumir a incerteza e a ambiguidade diante de um cenário que desconhecemos. Teremos um destino, mas, caminharemos sem mapa ou bússola.

        Todos, porém, que já estivemos ou estamos em sala de aula, acumulamos alguma experiência e aprendemos a desconfiar das derivas autoritárias. Temos um objetivo, e, é em sua direção que iremos caminhar: desenvolver pessoas autônomas e livres. E temos matéria para fazê-lo, respondendo de maneira inventiva às mudanças impostas. Tudo, sem esquecer o otimismo e o bom-humor, inoxidáveis frente às incertezas, ao rancor ou ao pessimismo irracional que tais mudanças costumam criar. Sejamos, sim, em tempos sombrios, os “profissionais do entusiasmo”.

  • Texto de Mary del Priore.

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“Caminhante sobre o mar de névoa”, de Caspar David Friedrich.

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8 Comentários

  1. Joelza Ester Domingues disse:

    A pergunta central, neste momento, é: “que história ensinar?” Sua resposta levará a refletir sobre conteúdo, abordagem, recortes e objetivo. Parece-me que aquele ensino conteudista em que a História ensinada transitava do Paleolítico até a contemporaneidade, passando por todos os continentes e ainda dando conta das novas temáticas (cotidiano, mulheres, camadas populares etc) acabou. Livros didáticos de História com 400 ou 600 páginas para o Ensino Médio pertencem agora aos museus e serão exibidos aos jovens do futuro com o comentário “Veja o que seus avós tinham que estudar de História!” … e também de Biologia, Física, Química, Geografia…

  2. Nilton Francisco de Oliveira disse:

    Olá Márcia, compartilho muito de sua opinião quando diz da formação cultural do jovem, pois o discurso recente que vi de ministros e senadores é a educação básica como preparação para o mercado de trabalho, o que é extremamente importante mas poucas vezes ouço que a educação é também a preparação para cidadania, para a tolerância com a diversidade, para a transformação da sociedade e não somente pra formar trabalhadores.

    Vivemos um governo ditatorial com casca de democrático, o próprio site do senado fez uma consulta pública sobre a reforma do Ensino Médio no qual 4.551 concordam com a reforma e 73.565 não concordaram https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=126992 entre outros movimentos de educadores pelo país mas essa opinião popular não é levada em conta como vimos.Eu acredito que o Ensino Médio deva passar por uma reforma mas não dessa maneira, decisão sem diálogo é decisão ditatorial.

    Me parece que desigualdade na educação tende a aumentar com essa reforma, mas iremos aguardar cenas do próximo capítulo porque muita coisa ainda não esta explicada, como por exemplo os profissionais de ”notório saber” que poderão dar aula.

  3. Bianca Lopes Brites disse:

    Na verdade Márcia, as disciplinas que vc citou não foram mencionadas como obrigatórias na Reforma do Ensino Médio… Ou seja, estão no mesm barco que as Humanas, mas algo está muito difícil de compreender essas mudanças todas pois há a menção que a BNCC irá definir o que será ensinado no novo formato de ensino médio “integral” – se é que esse modelo será de fato contemplado, acho difícil – e sobre os 60% que as disciplinadas CONTEMPLADAS PELA BNCC serão ensinadas, mas não se sabe ao certo que revisões foram realizadas na BNCC e qual será a sua versão final.

    • Márcia disse:

      Sim, você tem razão, a BNCC ainda irá definir com mais clareza o currículo. Realmente, ainda está confuso. Mas, pelo que entendi, Matemática e Biologia (Ciências) continuam como obrigatórias. Acredito que não haverá mudanças quanto a Física e Química, mas posso estar errada. De qualquer forma, o que procurei enfatizar é que o Ensino Médio não deve ser pensado apenas para preparar o jovem para o mercado de trabalho(o que é obviamente importante), mas também se preocupar com uma formação global do estudante, com sua cultura geral, e também em oferecer, inclusive, mais subsídios para que ele escolha sua carreira com segurança. Essa é uma opinião pessoal, uma forma de entender a Educação, entretanto, há pessoas que têm visões diferentes. Por isso, acho que a principal falha do projeto foi a falta de discussão – não é com MP que se muda o ensino de um país. Vamos aguardar mais detalhes, mas é importante debater o assunto. Obrigada!

  4. Pedro de Lima Neto disse:

    Com relação ao “Novo Ensino Médio”, eu concordo com as mudanças. O que escrevo aqui é um depoimento de quem não cursou um segundo grau, hoje ensino médio, tradicional. Fui aluno do curso Técnico em Química, na antiga Escola Técnica Federal do Ceará, hoje Instituto Federal do Ceará. Naquela época, isso já faz 38 anos, eu cursei historia no primeiro semestre e Geografia no segundo semestre do curso. Além disso, cursei um ano de Português e Literatura. Os restante do tempo do curso, que teve duração de três anos e meio, foi dedicado ao estudo de matemática, física e química. Eu estava no paraíso, o meu curso técnico foi maravilhoso, pois só estudei as três disciplinas que realmente me interessavam, pois o meu interesse sempre foi em ciência e tecnologia. Consequentemente, segui uma a carreira profissional na química, tendo feito graduação pós-graduação . Eu sou realizado profissionalmente porque a quase 40 anos vivo para estudar matemática, física e química, para com isso, desenvolver novas tecnologias. O meu sentimento é o aspecto positivo da nova proposta: os alunos farão, com esse “Novo Ensino Médio”, suas escolhas Aqueles que quiserem cursar na Universidade ciência e tecnologia e saúde, certamente escolherão as disciplinas de: matemática, química, biologia e de física, enquanto que aqueles que desejarem cursar, na universidade, cursos das áreas e humanas, certamente escolherão a disciplina de História, Geografia e outras disciplinas afins. Por fim, se para os profissionais que lecionam a disciplina de História, consideram que essa disciplina deveria ser obrigatória para todos, garanto que os profissionais da áreas de: ciência e tecnologia e saúde, gostariam de ver as disciplinas de biologia, física e química obrigatórias para todos os estudantes do ensino médio e nos três anos, como é hoje, pois um gama muito grande de licenciados são formados nas licenciaturas de Biologia, Física e Química a cada semestre nas universidade públicas e particulares.

    • Márcia disse:

      Não entendi bem a sua crítica, pois as disciplinas citadas continuam no rol das obrigatórias. Será que se uma delas se tornasse optativa você também seria a favor da reformulação? Deixando claro, que eu acredito que essas disciplinas devem ser obrigatórias. Na época em que eu cursava o Ensino Médio, com certeza, eu gostaria de estudar apenas as matérias de Humanas – nunca gostei de Física, Química e Matemática (apesar de adorar Biologia), mas hoje vejo que foi importante ter estudado essas matérias, com as quais tive pouquíssimo contato depois. O aluno de Ensino Médio, muitas vezes, ainda não sabe que carreira seguir e, nesse período, ele pode conhecer as mais diferentes áreas. Quantos estudantes mudam de ideia nessa fase? E também acredito que História e Geografia são fundamentais para a formação do indivíduo, desenvolvendo seu senso crítico e sua capacidade de entender o mundo. Acho que deveríamos investir em uma formação sólida para os nossos estudantes, proporcionando-lhes embasamento para, não apenas ingressar na carreira que eles almejam, como também para sua cultura geral. E acredito que tais mudanças irão aumentar ainda mais o abismo entre o ensino público e o privado.

    • gilson de sousa oliveira disse:

      Respeitando seu ponto de vista, acho que sua análise mereceria ser amadurecida e repensada em novas bases. Há, no meu entendimento, uma visão míope de que EM você está falando. O de 34 anos atrás, ou o de agora? Quais jovens você acha que serão “beneficiados” com essa proposta? Por acaso não entendes que tudo não passa de um jogo perverso que tem como objetivo barrar o sonho de muitos jovens ao Ensino Superior? Porque tenho sempre que concordar que os jovens da escola pública precisam adentrar numa atividade laborativa de maneira precoce? Será que esse é o mesmo entendimento para os jovens que estudam na escola particular? Será que o currículo deles será modificado, assim como o currículo da escola pública? Bem, acredito que não! Portanto meu amigo, saia do saudosismo… encare a realidade, pesquise e tente, se possível, compreender os reais objetivos dessa vergonhosa proposta que colocara´no abismo do esquecimento milhões do jovens filhos da classe trabalhadora.
      Quanto ao texto da professora Priore, quero parabenizá-la e dizer que, assim como milhares de professores que não aceitam, adormecidamente, o pensamento único, estou cada dia mais entusiasmado para lutar por uma educação menos dual e que seja o caminho para a emancipação dos sujeitos.

  5. Maria Rosa Dória Ribeiro disse:

    Parabéns pelo Blog. Super bem vindo!
    A reflexão feita no artigo, além de oportuna é mais do que necessária. Vale a pena avançar no questionamento do que tem acontecido com a História como campo do conhecimento. Me refiro a diminuição dos cursos universitários de formação de historiadores e de professores de História. Faço a proposta para que considerem.

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