Receita de Casamento

Publicado em 11 de dezembro de 2013 por - História do Brasil

No século XIX, as uniões eram regidas por critérios diferentes. Amor e paixão não eram vistos como essenciais para o sucesso dos casamentos, pelo contrário, esses sentimentos intensos poderiam até atrapalhar. As mulheres deveriam buscar um marido protetor e carinhoso. Fidelidade, para os homens obviamente, era um mero detalhe… 

Entre 1820 e 1840, o médico baiano José Lino Coutinho aconselhava a filha, Cora, por meio da correspondência que mantinha com ela. Segundo ele, que a preparava para o amor e o casamento, o homem e a mulher se constituíam em “metades de um todo” que procuravam se completar a fim de que não se tornassem “absolutamente inúteis”. Existia o amor físico – mero estímulo interno. E o amor-amizade, regulado pelas afeições racionais, em que posteriormente se convertia o primeiro: “O essencial do maior consiste na esperança de gozar, mas este mesmo seu fim, uma vez conseguido, é a origem da sua morte, ou, para melhor dizer, de sua transformação em amizade conjugal, quando se dá entre casados motivos para ele não morrer de todo como são a boa índole, as virtudes e a mútua condescendência de se desculparem de parte a parte”.

A escolha do cônjuge, segundo Coutinho, carecia de conselhos, pois a tal “igualdade de condições”, há séculos, continuava a perdurar. Afinal, era “melindroso negócio”, repetia! A filha deveria se preocupar com o matrimônio, pois “a fraqueza de seus órgãos, e mesmo por certo grau de insuficiência para poder viver por si só e independente, necessita mais desta união e deve procurar casar-se, não tanto para satisfazer o apetite da natureza como para ter um amigo e protetor”. Ou seja, a mulher, ser menor e frágil, só existia amparada pelo homem.

Segundo o médico, o marido ideal devia ser visto sob vários ângulos. Em termos físicos: “Vosso marido deverá ser um indivíduo sadio e esbelto segundo o melhor tipo do seu sexo; de um semblante e porte antes varonil que feminino; porque um ente mesquinho e doentio não só vos incomodará muito com suas continuadas enfermidades e impertinências, mas ainda vos dará filhos caquéticos e fracos, que não vingarão de certo”. Em termos etários: “de dezoito até os vinte e cinco anos, porque antes não terá o devido assento e reflexão para ser bom companheiro e desvelado pai de família e mais tarde, já tendo perdido algum tempo para educar os filhos”. Em termos morais: “procurai saber se foi bom filho e amigo”. Intelectuais: “suposto que não seja ele um sábio, tenha elo menos um espírito ilustrado”. Econômicos: “não vos falo aqui dos bens da fortuna, como talvez se esperasse, porque vale mais, minha filha, um homem de juízo e probo, sem riqueza do que um crasso, estonteado e imoral”.

Quanto à infidelidade do marido: “o homem por sua vida mais livre, vivendo quase sempre fora de casa e mesmo por sua educação é mais facilmente tentado a cometer uma infidelidade conjugal, sem que nela ninguém reflita e sem que por isso grande nódoa se lhe segue”. Quanto à feminina: “o mundo olha com indulgência a traição cometida pelo homem, quando não desculpa de maneira alguma aquela da mulher”

Enfim, a mulher precisava de um protetor. Para isso, devia casar-se. O amor não era essencial para as uniões matrimoniais. Machado de Assis, no romance Iaiá Garcia, resume bem o sentimento que ligava os protagonistas Estela e Luís Garcia. O casamento deles era baseado na estima: “nada de alegrias inefáveis ou de ilusões juvenis. Era um ato simples e grave”. – Mary del Priore

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Fotografias de recém-casados do final do século XIX.

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