QUILOMBOS E QUILOMBOLAS

Publicado em 19 de novembro de 2014 por - História do Brasil

Palmares foi o maior quilombo colonial, nascido no bojo das guerras do
açúcar; e antes dele, contudo, movimentos de resistência já tinham se
esboçado na própria África. Entre 1568 e 1573, por exemplo, a
conhecida como Longa Marcha dos Jaga, que reuniu milhares de
guerreiros, homens e mulheres, para lutar contra o invasor português,
teve como pontos de apoio acampamentos fortificados denominados
kilombos. Deles emanava uma forte organização política, religiosa e
militar, capaz de agir em vastas regiões. Ao longo de suas expedições,
invadiram e devastaram o Congo; seu objetivo era a destruição dos
reinos aliados dos europeus. Na Guiné, atuaram com o mesmo propósito,
os bijagós. Na América do Norte, Central e do Sul, os revoltosos
intitulavam-se palenques, mambises, cumbes, saramakas, cimarrones,
mocambolas ou quilombolas.

No Nordeste, desde os fins do século XVI, foram registradas fugas
de escravos. Sabia-se, então, que os fugitivos se concentravam na área
que se estendia entre o norte do curso inferior do rio São Francisco, em
Alagoas, às vizinhanças do cabo São Agostinho, em Pernambuco.
Tratava-se de uma região acidentada, coberta de mata tropical onde
abundava a palmeira pindoba, daí o nome: Palmares. Em 1602, a
primeira expedição punitiva, comandada por Bartolomeu Bezerra, tentou
pôr um fim a esses ajuntamentos de fugidos. Em vão, pois, a partir de
1630, a desarticulação dos engenhos, graças às guerras do açúcar,
acelerou o crescimento do quilombo. Nessa mesma década, na Bahia, os
ajuntamentos de negros fugidos, localizados no Rio Vermelho e Itapicuru,
também cresciam. Durante o tempo dos flamengos, quilombos menos
importantes do que Palmares formaram-se também na Paraíba.
Reunidos em Craúnas e Cumbe, os negros provocavam desordens,
invadindo e queimando casas, incitando a fuga de outros cativos.
Entre 1644 e 1645, os holandeses, sob o comando de Rodolfo Baro
e João Blaer, atacaram Palmares. Em 1671, o governador de
Pernambuco, Fernão de Souza Coutinho, chegou a escrever para
Portugal afirmando que os negros eram muito mais temidos do que os
holandeses porque os moradores, “nas suas mesmas casas e engenhos,
têm inimigos que podem os conquistar”. Como se vê, a percepção das
tensões entre os grupos livres e escravos era evidente!

Gaspar Barléu, cronista e amigo de Nassau, deixou uma detalhada
descrição da sociedade palmariana: “Há dois desses quilombos” –
explica –,“o Palmares Grande e o Palmares Pequeno. Este (Palmares
Pequeno) é escondido no meio das matas, às margens do rio Gungouí,
afluente do célebre Paraíba. Distam da Alagoas vinte léguas, e da
Paraíba, para o norte, seis. Conforme se diz, contam 6 mil habitantes,
vivendo em choças numerosas, mas de construção ligeira, feitas de
ramos de capim. Por trás dessas habitações há hortas e palmares.
Imitam a religião dos portugueses, assim como seu modo de governar:
àquela presidem os seus sacerdotes, e ao governo, os seus juízes.
Qualquer escravo que leva de outro lugar um negro cativo fica alforriado;
mas consideram-se emancipados todos quanto espontaneamente querem
ser recebidos na sociedade. As produções da terra são os frutos das
palmeiras, feijões, batatas-doces, mandioca, milho, cana-de-açúcar. Por
outro lado, o rio setentrional das Alagoas fornece peixes com fartura.
Deleitam-se os negros com carne de animais silvestres, por não terem a
dos domésticos. Duas vezes por ano, faz-se o plantio e a colheita do milho […] O Palmares Grande, à raiz da serra Behé (serra da Barriga), dista trinta léguas de Santo Amaro. São habitados por cerca de 5 mil negros que se estabeleceram nos vales. Moram em casas esparsas, por eles construídas nas próprias entradas
das matas, onde há portas escusas que, em casos duvidosos, lhes dão
caminho, cortado através das brenhas, para fugirem e se esconderem.
Cautos, examinam por vigias se o inimigo se aproxima”.

Na época em que Barléu fez sua descrição, os holandeses tramavam
a invasão do quilombo. Chegaram a introduzir em Palmares Pequeno
Bartolomeu Lintz, encarregado de conhecer seu modo de vida e, depois,
atraiçoar os antigos companheiros. Sua aceitação entre os quilombolas
significa que estes estavam acostumados com a convivência com outros
grupos étnicos. Problemas de ordem política retardaram o ataque, só
realizado em 1644. Tendo à frente Rodolfo Baro, a expedição reunia cem
tapuias bem armados. Palmares Grande foi parcialmente destruído, a
ferro e fogo, mas se recompôs com rapidez. Em 1675, contava com
cerca de 10 mil habitantes, tendo sofrido, depois da expulsão dos
holandeses, apenas escaramuças com bandos armados enviados por
senhores de engenho.

Por essa época, as autoridades portuguesas puseram em
funcionamento um plano de destruição sistemática de Palmares.
Expedições anuais às aldeias e missões de reconhecimento visavam não
apenas combater os rebeldes, como também impedir os contatos entre
os negros fugidos e os colonos que os abasteciam de comida e armas.
Entre 1670 e 1678, o quilombo foi governado por Ganga Zumba, ou o
Grande Senhor, que vivia na cerca real do Macaco, erguida em 1642.
Contra ele bateram-se Antônio Bezerra, Cristóvão Lins e Manoel Lopes.
No ataque desfechado por este último, em 1675, a resistência fora
organizada com grande brilho pelo sobrinho de Ganga Zumba, Zumbi.
Seu nome em banto, nzumbi, referia-se ao seu provável papel de
guerreiro e líder espiritual na comunidade. Em 1676 e 1677, novas
expedições encontraram pela frente aldeias fortificadas que tinham sido
queimadas e abandonadas, técnica, aliás, largamente empregada pelos
rebeldes. Na última, chefiada por Fernão Carrilho, foram feitos
prisioneiros dois filhos de Ganga Zumba. Logo após esse episódio,
representantes de Palmares e portugueses se encontraram em Recife
para celebrar a paz. Em troca da legalização das terras como sesmarias,
Ganga Zumba prometeu devolver às autoridades os membros da
comunidade que não houvessem nascido no quilombo. O desfecho,
contudo, não agradou a alguns líderes quilombolas, entre os quais Zumbi,
que foi, então, proclamado “rei”, ao passo que seu tio e ex-líder foi, em
1680, assassinado por envenenamento. Os quinze anos seguintes
caracterizaram-se por combates violentos, enquanto inúmeros capitães
tentavam, sem sucesso, dobrar os negros fugidos e seus aliados índios,
brancos, cafuzos e mulatos. Ao explicar por que tinham conseguido
expulsar os holandeses, fracassando, todavia, diante dos aquilombados,
Carrilho dizia: “na guerra contra os flamengos pelejava-se contra
homens”. Em Palmares, a luta era contra “o sofrimento”, “a fome do
sertão”, “o inacessível dos montes”, “o impenetrável dos bosques” e “os
brutos que os habitam”. Ele descrevia Palmares como “um bosque de tão
excessiva grandeza […] maior do que Portugal”, no interior do qual se
podia viver seguro, sem “domicílio certo” para não ser descoberto.
Ganhava aí a guerra do mato. A mesma que vencera os flamengos. Em
1685, o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho pedia autorização
para conquistar os indígenas da capitania de Pernambuco. Em vez de
usá-lo contra os bugres, as autoridades decidiram lançá-lo contra
Palmares. Afinal, dizia-se dos paulistas, na época, ser “gente bárbara e
indômita que vive do que rouba”. Seriam bárbaros contra bárbaros;
ladrões contra ladrões. Um acordo sobre o destino dos cativos e das
terras palmarinas foi selado entre o governador João da Cunha Souto
Maior e o bandeirante. O alvo era a destruição do quilombo que resistia
havia cem anos. Como prêmio, Velho podia reivindicar os prisioneiros de
guerra, fazendo jus à tradição da guerra justa (possuía-se o que se
conquistasse em batalhas militares). Em fevereiro de 1694, depois de 42
dias sitiado, a cerca real do Macaco caiu. Milhares de quilombolas
morreram, outros tantos foram capturados e vendidos para fora da
capitania. Zumbi, que conseguira escapar, foi capturado no dia 20 de
novembro de 1695; executado, teve a cabeça exposta em praça pública.
Era uma advertência: escravos deviam obedecer, e não desafiar o
sistema escravista.

Os invasores encontraram casas, ruas, capelas, estátuas, estábulos
e até toscas construções, denominadas “palácios”; além das plantações
mencionadas pelo cronista holandês, encontraram também fundições e
oficinas. Os conhecimentos que os índios detinham sobre o fabrico de
cerâmicas e redes, o processamento da mandioca e técnicas de pesca
foram muito importantes para dar autonomia ao quilombo. Mas Palmares
não foi único. Tampouco Zumbi.
Na época em que Palmares sucumbia, descobria-se ouro em Minas
Gerais. A drenagem sistemática de escravos para trabalhar nas lavras
provocou o mesmo tipo de resistência, e os quilombos começaram a se
multiplicar na região. A reação das autoridades, familiarizadas com o
problema, foi instantânea: multiplicação de alvarás, bandos e proibições
combatiam esses perigosos ajuntamentos, assim como estimulavam a
criação de uma tropa especializada, os capitães do mato, encarregados
de perseguir os fugitivos. Os primeiros eram remunerados mediante a
apresentação de provas: o quilombola recuperado ou sua cabeça
decepada. Seu pagamento chamava-se tomadia. Uma prática comum
nessa função foi a utilização de ex-escravos, pois eram conhecedores
dos hábitos e dos comportamentos dos fugitivos. Por isso mesmo, tais
agentes repressores nunca gozavam totalmente da confiança das
autoridades. Houve capitães do mato que preferiam usar escravos
capturados para ganho e uso próprio ou apresentar a cabeça de
escravos que não eram fugitivos. Outros, mais bem-sucedidos, como o
renomado mestre de campo Inácio Correia Pamplona, saíam-se bem na
destruição de quilombos mineiros, ganhando por isso direitos sobre
terras doadas pelas autoridades e sobre os escravos capturados. A
recompensa pela caça ao negro fugido era a sesmaria.
Tal como em Palmares, esses quilombos tinham chefias. A
correspondência dos governadores revela a existência de mocambos de
“negros alevantados com reis que os governam” ou menciona “mulatos
intitulados reis” com concubinas e filhos. Havia rainhas a quem também
era rendida obediência. Muitos deixaram seu nome nos documentos de
época: Bateiro, Cascalho ou Beiçudo. Os quilombos que comandavam
podiam ser imensos, considerados “quase um reino”, caso do Ambrósio –
próximo ao atual Triângulo Mineiro –, com mil negros adultos, além de
mulheres e crianças. Os ajuntamentos de cativos fujões também podiam
ser pequenos, anônimos, capazes de se desfazer antes da chegada de
seus perseguidores. Era o caso daqueles que cresciam nas serras em
torno da capital, Vila Rica. Outros tantos se espalhavam por Pitangui,
Pedra Bonita, serra do Caraça, Campo Grande, etc. Os moradores
reagiam com pavor à presença dos quilombolas: temiam saques,
assaltos e depredações que, com o passar do tempo, poderiam se
tornar corriqueiros. Petições eram encaminhadas às câmaras, alertando
para a fuga de cativos e, sobretudo, para o fato de que os fugidos
andavam armados, “ameaçando brancos e matando escravos destes que
iam apanhar lenha e capim”. Temendo pelas vidas em perigo,
autoridades tentavam controlar a situação brandindo punições – cortar a
mão ou o tendão de Aquiles de quilombolas –, assim como sancionando
proibições: venda de chumbo e pólvora a negros e mestiços. O controle
sobre a ação dos quilombolas era tão ineficiente, que houve episódios em
que eles, armados de mosquetes, pistolas e facas, bloquearam o tráfego
de mercadorias em estradas importantes, encarecendo produtos ou
fazendo-os desaparecer dos mercados. Mas por que uma ação tão sem
barreiras? Em Minas Gerais do século XVIII, percebe-se com nitidez uma
característica que se encontra em outras regiões do Brasil: a inserção
dos quilombos na vida comunitária. Apesar das violências cometidas, os
escravos fugidos costumavam conviver pacificamente com certos grupos
sociais, prestando serviços, comprando suprimentos e fazendo escambo;
no caso mineiro, diamantes e ouro contra alimentos e bens variados.
Taberneiros e estalajadeiros, nas imediações de vilas e arraiais,
aproveitavam para fornecer-lhes armas, e suas vendas eram os lugares
ideais para informações sobre assaltos e roubos. O fruto era dividido
entre uns e outros. Usando, enfim, dos mais variados expedientes,
quilombolas tentavam ampliar sua rede de relações sociais e
econômicas: negociavam, trocavam, vendiam, fazendo qualquer coisa
para garantir sua autonomia e liberdade. Isso os colocava ao lado de
outros tantos homens e mulheres destituídos de posses que, aos
milhares, lutavam na Colônia contra as duras condições de vida que lhes
eram impostas pela Metrópole.

Em Mato Grosso, onde se achou ouro em 1719, às margens do rio
Coxipó, não faltaram escravos e, consequentemente, quilombos.
Utilizados nos serviços da mineração, agricultura e pecuária, esses
cativos também trabalhavam duro na construção de obras públicas. Os
que se encontravam em regiões de fronteira, como Guaporé, eram
estimulados pelas autoridades espanholas a fugir, pois, do outro lado da
linha demarcatória, encontrariam a liberdade. Outra característica da
resistência negra nessa região foi a aliança com os indígenas. Os
quilombos de Quariterê, Sepotuba e Rio Manso abrigavam índios, negros
e mestiços – os caburés – vivendo em harmonia. Entre os negros, havia
libertos convivendo com fugidos. Como em toda parte, os quilombolas
desenvolviam agricultura de subsistência, plantando milho, feijão,
mandioca, amendoim, cará, banana e ananases. Decorrente de sua
forma de organização, a produtividade alimentar dessas comunidades
contrastava com a penúria de cidades importantes como Cuiabá, onde as
crises de abastecimento eram frequentes. O elevado número de negros
livres nessas regiões de fronteira dificultava a identificação de
quilombolas. Em cidades como Crixás, Pilar, Tocantins ou Arraias, em
cujos arredores instalaram-se quilombos, aproximadamente 70% da
população era constituída por “pretos”. Somavam-se a tudo isso as
características naturais de Goiás e o atual Tocantins, marcadas pela
presença de densa malha fluvial – o Araguaia, o Tocantins e o Paranaíba
do Sul e seus afluentes – que permitia não se deixar rastros das fugas
em canoa. Chapadas e montanhas multiplicavam esconderijos, e a
vegetação de cerrado complicava as buscas dos capitães do mato.
No Rio Grande do Sul também foram registrados quilombos. Nessa
região, escravos contrabandeados da província espanhola de
Sacramento faziam funcionar estâncias e charqueadas. Em época de
abate de gado, o trabalho era estafante, mantendo-se os cativos
ocupados graças ao rebenque do capataz e goles de aguardente.
Topônimos como arroio do Quilombo ou ilha do Mocambo atestam a
resistência a um regime que, nos finais do século XVIII, começa a dar
mostras de impaciência com fugas e deserções. Multiplicam-se, então,
editais para a contratação de capitães do mato capazes de deter “a
multidão de escravos fugidos metidos em quilombos”.

Na primeira metade do século XIX, a situação era de pânico.
Não faltaram informes de autoridades sobre o terror em que viviam as
populações: “dia a dia se aumentam os roubos, incêndios, assassinatos
perpetrados pelos quilombolas, que ousada e astuciosamente têm
aterrado os pacíficos moradores da serra dos Tapes e feito abandonar
casas e lavouras, tendo-se perdido muitas colheitas de milho e feijão, que
infalivelmente farão falta considerável no consumo da população desse
município”. A queixa procedia, pois ataques a propriedades, ranchos e
chácaras, lutas entre quilombolas e escravos, além de sequestros de
mulheres, tinham se tornado correntes. Mesmo os pequenos proprietários negros não eram poupados.

No Rio de Janeiro, a situação não era diferente. Rios, como o Iguaçu
e o Sarapuí, no recôncavo carioca, hidratavam engenhocas e engenhos,
além de escoarem considerável produção agrícola voltada para o
abastecimento da capital carioca. O encaminhamento de tais produtos
fazia-se por essas verdadeiras estradas fluviais, cruzadas por barqueiros
escravos, sob o comando de comerciantes. Pântanos, afluentes e
meandros consistiam, por sua vez, numa segunda estrada, por onde
hortaliças frescas e lenha abasteciam a cidade. E conduziam para a
liberdade. Liberdade nos quilombos que infestavam a região de Iguaçu e
que aparecem na documentação do início do século XIX sob várias
denominações: do Iguassu, do Pilar, da Barra do Rio Sarapuí, do Bomba,
da Estrela e do Gabriel. Nessa região, os aquilombados desenvolviam um
ativo comércio de lenha e, graças aos serviços prestados e trocados
com vendeiros, escravos remadores, libertos donos de embarcações,
pequenos lavradores, fazendeiros e cativos de propriedades, mantinham
sua autonomia. De suas roças de feijão, banana, batata-doce e cana
enviavam, através dessa rede de contatos, produtos para abastecer
pequenos mercados ou a mesa do grande proprietário de terras.
Adquiriam, em troca, sal, pólvora para caçadas, aguardente e roupas. Os
beneditinos, que mantinham um engenho em terras iguaçuanas, por
exemplo, fechavam os olhos para as comunicações entre seus escravos
e os aquilombados. A pesca abundante nos rios garantia-lhes ainda mais
do que comer, vender e viver. O comércio era tão lucrativo que tornava
os pequenos comerciantes e barqueiros seus aliados. A complexidade
dessas organizações se evidencia no caso do quilombo do rio Moquim,
no norte fluminense: cerca de trezentas pessoas mantinham enormes
lavouras de milho, mandioca e feijão, criavam galinhas e porcos,
possuíam uma ferraria para a construção de ferramentas de trabalho,
além de oratórios e um cemitério. Seus moradores habitavam “senzalas
arruadas” e as crianças ali nascidas eram batizadas por um padre pardo,
foragido da justiça mineira.

Na Paraíba, destacaram-se as comunidades de negros fugidos
denominadas Craúnas e Cumbe. Na Bahia, tais agrupamentos também
não foram raros. Inseridos nas franjas dos centros urbanos, esses
quilombos viviam um cotidiano marcado por negociações e conflitos.
Como o do Orobó, o do Andaraí e o do Oitizeiro, instalados nas
cercanias de Barra do Rio de Contas, e que deram algum trabalho às
autoridades. Em fins do século XVII, também existiam mocambos
instalados em Camamu, Cairu e Ilhéus, localizando-se numa área de
mangues pouco policiada e despovoada; atacados por tropas de índios
cariris – o hábito de atacar quilombos com índios mantinha-se desde o
início de Palmares –, esses agrupamentos, nas vésperas de 1700, dispersaram-se.
E na distante Amazônia? Lá o escravo negro foi fortemente
substituído pela escravidão e trabalho compulsório do indígena. As mais
diversas leis, cartas régias ou bulas papais não evitaram a compra e
venda clandestina de índios, comércio, diga-se, que beneficiava vários
grupos. Transformados em trabalhadores de segunda classe, esses
índios eram convertidos à força ao cristianismo, brutalmente explorados e
“pagos” com cachaça ou quinquilharias. Os “salários” raramente
chegavam às suas mãos. Agrupados em corporações, estavam sujeitos a
castigos caso fugissem ou faltassem ao trabalho. À medida que se
expandia tal regime, cresciam as formas de resistência. As fugas eram
espetaculares: escapavam grupos de até oitenta indivíduos entre
homens, mulheres e crianças. No século XVIII, a denominação
amocambado começava a aparecer insistentemente nos documentos
oficiais, que registram, para o período, gastos com soldados para a
captura de fugitivos. Muitos moradores davam-lhes abrigo para poder,
posteriormente, usá-los em próprio benefício ou fazê-los parceiros na luta
pela sobrevivência. O roubo de canoas, instrumento de fuga mais
comum, era constante.

Conforme podemos notar, várias regiões da Colônia conviveram com
quilombos. Isolados como Palmares ou inseridos nas periferias das vilas
e cidades, agressivos ou pacíficos, reunindo gente de diferentes etnias,
cor e credo. O que lhes importava era resistir, e, para isso, a presença
de laços de solidariedade ou de parentesco, assim como a vivência de
práticas religiosas, foram muito importantes. Inúmeras pesquisas dão
conta da presença de mulheres e crianças quilombolas, atestando assim
a existência de ligações estáveis dentro da instabilidade que significava
viver fugido. Brigas de faca, castigos exemplares, surras em mulheres
infiéis comprovam a existência de regras e de valores no seio dessas
comunidades. Fugas temporárias alimentavam os encontros entre os que
viviam dentro e os que viviam fora do quilombo. Fugas transitórias
permitiam aos cativos negociar com os senhores melhores condições de
vida dentro do cativeiro. Laços de amizade ligavam comerciantes e
aquilombados, permitindo aos últimos ter acesso a armas e alimentos ou
a informações capazes de garantir-lhes a sobrevivência ante seus
perseguidores. Como bem lembrou um historiador, embora em menor
número, as mulheres quilombolas destacaram-se na manutenção material
de suas comunidades, zelando pelo suprimento de alimentos,
confeccionando roupas e utensílios para uso doméstico. Cabia-
-lhes cuidar de roças e de animais domésticos, assim como preparar a
comida. Seu papel nas funções religiosas era preponderante: através de
rituais ancestrais, fortaleciam o espírito combativo dos homens.
Preparavam-lhes amuletos e banhos de ervas, ofereciam sacrifícios
rituais e dominavam as propriedades das plantas medicinais capazes de
debelar doenças e curar ferimentos. Acompanhavam os quilombolas em
caçadas ou enfrentamentos com os temidos capitães do mato e, então,
exerciam função de apoio ao conduzir pólvora e armamentos, assim
como levando e trazendo recados.

“Uma Breve História do Brasil”, de Mary del Priore e renato Venâncio.

quilombos_maior

 

O temido capitão-do-mato, de Rugendas.

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