Quando “ser solteiro” é uma escolha…

Publicado em 30 de dezembro de 2014 por - temas atuais

A revista Vox Objetiva publicou uma reportagem sobre a escolha de ser solteiro nos dias de hoje. Contribuímos com a perspectiva histórica da questão. Confira no link abaixo:

http://www.voxobjetiva.com.br/noticia/835/por-opcao

Para quem se interessa pelo assunto, segue outro artigo sobre o tema:

As mulheres sozinhas sofrem com o preconceito e a discriminação desde os tempos coloniais. O papel da mulher era bem definido na sociedade que se formava: esposa e mãe, de preferência com uma prole bem extensa. Quem não se adequasse a este modelo era mal vista. A promiscuidade sexual era tão condenada quanto o celibato.  Uma mulher que não usufruísse de uma vida sexual regrada – dentro do casamento obviamente- poderia ser acometida por doenças terríveis: melancolia, histeria, ninfomania, febres e achaques. Frágeis, as mulheres, diferentemente do sexo oposto, tinham a necessidade física de procriar. Já os homens, podiam viver sem uma companheira tranquilamente, sem que isso afetasse sua saúde física ou mental.

Uso a expressão “mulher sozinha” porque, é bom destacar, ser solteira tinha um significado bem diferente naqueles tempos. A solteira era aquela que não tinha marido, nem família que a defendesse. Era a mulher pública, que podia ser seduzida, abandonada ou mesmo violada. A carga pejorativa do termo já existia na península ibérica desde o século XV, de acordo com Ronaldo Vainfas, em “Trópico dos Pecados”.

Mary del Priore, em “ Ao Sul do Corpo”, destaca que as “solteiras do mundo, vítimas ou metáfora para o desregramento, viviam no avesso das mulheres que alegavam honra, recato e honestidade, como faziam as boas e virtuosas mulheres.  As santas e honestas distinguiam-se daquelas que eram públicas amancebadas”. Se as mulheres dadas à luxúria eram mal vistas, as “direitas” que não se casavam não tinham melhor sorte. Gregório de Matos, poeta baiano do século XVII, as descrevia de forma cruel, como “donzelas embiocadas, maltrajadas e malcomidas”.

Não havia muitas alternativas, como vemos. Se não fosse casada e honrada, a mulher seria classificada como prostituta ou como solteirona enrustida. As amancebadas, caso adotassem um comportamento devotado ao marido e à família, podiam gozar de um status semelhante ao das casadas. Lembremo-nos de que o concubinato era muito comum na Colônia, mesmo porque devido às grandes despesas envolvidas, a população mais pobre não tinha condições de casar-se da forma que a Igreja exigia.

A situação não muda muito no século XIX e nem no início do XX. Em uma época em que havia mais homens que mulheres, aquelas que não conseguiam um companheiro eram vistas com desconfiança. Deveria haver algo de errado com elas…”Numa sociedade em que as mulheres, nasciam, cresciam e casavam, para ter filhos, a donzelona era aquela que não cumpria as regras. Que se colocava fora do lugar certo. Que falhara. E tudo isso, com tanta discrição, que era como se não existisse. Quanto mais idade, pior. Uma mulher de trinta anos era considerada ‘moça velha’ e, portanto, não mais ‘amável’. Não sendo capaz de inspirar um casamento, ela também não impunha respeito”, conta Mary del Priore, em “Matar para não morrer”.  A partir dos 22 anos, quem não casava era estigmatizada como “moça-velha”.

A sociedade era cruel com essas mulheres: elas se tornavam alvo de zombarias e desprezo. Os médicos acreditavam que o celibato era uma das causas principais da histeria, uma grave doença que atingia o sexo feminino. Nesse período, surge uma opção de trabalho “honesto” para aquelas que não se casavam: o magistério. A caricatura da professora solteirona, séria e amarga, se torna popular. Jornais a retratavam assim, como uma mulher pouco atraente que, sem ter os próprios filhos, dedicava-se a tomar conta dos filhos dos outros.

Nas primeiras décadas da República, com o surgimento das primeiras feministas, estas passaram a ser associadas ao celibato. O feminismo, por sua vez, era ligado a feiura e masculinização. A imprensa, mais uma vez, ajudava a estigmatizar essas mulheres, retratando-as como mal amadas e sem atrativos, cuja única vingança possível contra a sociedade que as desprezava era lutar pela emancipação feminina.  Se tivessem filhos e marido para cuidar, certamente não se preocupariam com essas coisas, acreditava-se. Na verdade, a mulher instruída, culta e que lutasse por seus direitos assustava a sociedade de então.

A mulher brasileira só iria atingir a tão sonhada liberdade com a revolução sexual dos anos 70 e a conquista do mercado de trabalho. A independência financeira abriu uma série de possibilidades antes impensáveis, como, por exemplo, ser sozinha por opção. As mulheres podiam se divorciar, abrindo mão de um casamento que não lhes trouxesse felicidade. Ou simplesmente não se casar ou não ter filhos, em nome da sua liberdade ou mesmo da carreira.

Mesmo assim, até hoje, conheço mulheres, de diferentes idades e profissões, incluindo muitas leitoras do nosso blog, que se queixam da grande pressão que existe para que elas se casem e tenham filhos. Ainda existe preconceito contra quem decide ser sozinha ou não quer constituir uma família. Há mulheres maravilhosas, instruídas, bem sucedidas, que ainda se sentem inferiorizadas por não serem casadas ou não terem um relacionamento “sério”. A cobrança ainda é forte. Já o homem solteiro, em muitos casos, é visto com inveja por não ter sido “fisgado”. Enfim, a História é feita de mudanças e permanências…

Márcia Pinna Raspanti.

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Casamento de princesa Isabel e conde D’Eu; fotos de casamentos, no final do século XIX e início do XX.

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1 Comentário

  1. Isabella Araujo disse:

    Eu tenho 22 anos, sou solteira e já me sinto cobrada. “E aí já arrumou um namorado?” sempre escuto isso, de amigos e parentes, é como se eu tivesse a obrigação de estar namorando. Ter um emprego fixo, “seguro” e estar fazendo faculdade em nada se compara a ter um namorado. Infelizmente a mulher solteira, sozinha e vista como incompleta. Mas enfim, estamos conseguindo mudar essa realidade de pensamento, devagar mas estamos.

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