Quando o magistério passa a ser penoso para o professor

Publicado em 26 de junho de 2015 por - Educação

Por Natania Nogueira.

         O professor ou professora passa por fases como qualquer outra pessoa que exerce uma profissão. O que diferencia essas etapas é a motivação, a razão pela qual permanece no magistério. Embora eu ainda ouça alguém dizer que gosta muito do que faz e se sente constantemente realizado, este tipo de afirmação tem sido cada vez mais raro entre profissionais que já atuam no ramo há mais de 15 anos.

         A busca por realização, aquele sentimento de bem estar, é constante. Há quem deseja, ao menos, ser bem sucedido profissionalmente. Mas isso nem sempre depende apenas do desejo de cada um. Há muitos fatores que vão determinar o nível de “felicidade” que se alcança em uma profissão. Eu, por exemplo, sei de casos de profissionais supostamente bem sucedidos que sonham em trocar de área, mas não o fazem por conta de compromissos familiares assumidos. Conheço um engenheiro que quer ser filósofo, o que pra ele significaria ser feliz.

       Nós professores temos que enfrentar, em um contexto geral, más condições de trabalho, falta de material e desrespeito de nossos empregadores. Estes nos olham como meros operários que precisam cumprir cotas de produção e que podem ser substituídos facilmente. Por vezes, parece que se emprega na escola o fordismo como método de trabalho, como se nossos alunos fossem meros objetos que desfilam à nossa frente em esteiras, como peças de uma linha de montagem.

      Entretanto, a indústria ainda tem preocupação com a qualidade do seu produto final. Nosso atual sistema de ensino tornou a qualidade uma palavra vazia e sem sentido. Como haver qualidade sem que haja motivação, sem que haja investimento? E quando falo de investimento não estou sendo simplista e me limitando à questão salarial, que todos estamos cansados de saber que é uma vergonha para o Brasil, país que se quer no primeiro mundo, mas que não investe em saúde e educação.

       Estou falando de um investimento amplo, no ser humano, no profissional, de uma valorização verdadeira do professor e do aluno. Foram se formando ao longo do tempo estereótipos negativos com relação ao professor, o mesmo acontece com relação aos estudantes. Este discurso negativo é constantemente reeditado e acabamos comprando-o e tornando uma representação da realidade. É quando o professor ou professora, mergulhado no estresse diário de uma ou várias salas de aula, começa simplesmente a ser um reprodutor, um autômato que entra, fala e sai, sem interagir, sem tempo para poder conhecer o aluno.

Dentro deste contexto, que escola e que professor nós vamos ter?

      Posso responder esta pergunta: teremos um professor sem motivação, que não consegue mais enxergar seus alunos não como jovens aprendizes, portadores de potencialidades, mas como problemas, como obstáculos. Quando esta situação ocorre o estudante também reage, vendo o professor como um inimigo, como alguém que está ali para obrigá-lo a estudar, para cobrar, para exigir o interesse que o próprio professor já perdeu.

       Submeta um profissional do ensino a uma jornada de 40 a 60 aulas semanais, em duas ou três escolas durante uma ou duas décadas. Exija que ele que seja pontual, que entregue notas nos dias certo, que desenvolva projetos pré-elaborados por outras instituições, que ofereça bons resultados, mas sem lhe oferecer o mínimo de condições. Exija que ele esteja atualizado, mas dê faltas se ele tiver que fazer um curso de extensão ou dificulte ao máximo para que ele consiga uma licença para fazer uma pós-graduação.

    Pois é, estamos de volta à linha de montagem da fábrica chamada escola, com uma jornada de trabalho que pode chegar a 15 horas diárias, um salário pequeno e quase nenhuma qualidade de vida. É assim a vida de quem ingressa na carreira do magistério.

     Apoio para tentar mudar esta realidade, quase nenhum. Em muitos casos, nem mesmo vindo dos colegas, já completamente entregues ao desânimo. A família esta está cada vez menos comprometida com a educação dos filhos, e menos ainda, com a escola.  Mas o que dói mesmo é o desrespeito que vem de cima, de representantes do governo, que na mesma frase consegue dizer que o professor é um profissional que precisa ser valorizado e, em seguida, sugerem que é dele a culpa pela falta de qualidade do ensino.

      Ainda assim alguns tentam reagir. Mas a cada ano que passa este número diminui, pois falta o principal elemento que dignifica o professor: o respeito ao profissional e à carreira.

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2 Comentários

  1. ROSA BORGES DE ANDRADE GOMES NITERóI disse:

    Quando li seu comentário, vi-me nele.
    Me sinto a pior das criaturas na face da terra… aquele “tesão” que eu tinha em entrar numa sala de aula, aquela emoção constante, foi-se… o sistema fordista venceu-me pelo cansaço. Cansaço no não reconhecimento, cansaço dos alunos que me xingam, cansaço da supervisão que nos cobra números e esquecem que lidamos com pessoas. Com Joôes, Josés, e eles estão sendo mal formados, sem conscientização política, sem conceito básico de cidadania. Cada vez mais e mais violentos, cada vez menos e menos aprendizado ou questionamentos.
    Se saímos da sala e vamos à biblioteca ou ao vídeo, não damos aula, porque para eles, aula é quadro e giz (pilot? não há verbas!). Quando tentamos inovar novamente introduzindo imagens para que o aprendizado fique mais prazeroso, eles perguntam por quê???
    Somos culpados pelo mau aprendizado? Todos nós, juntos, conseguimos fazer essa educação ficar do jeito que está? Me pergunto onde anda a família, onde andam as responsabilidades, onde andam as perguntas e respostas que fazíamos quando éramos estudantes ( e eu sempre estudei em escola pública!).
    Cada vez menos universitários escolhem licenciatura, e os que chegam à faculdade, vêm com falhas educativas enormes, fruto de um currículo doutrinatório, amordaçante! Tento sobreviver neste barco, mas juro que anseio pela aposentadoria, porque meu limite já se foi.

    • Natania disse:

      Entendo vc, Rosa! Precisamos encontrar um caminho que não seja tão desgastante para os professores e para os alunos. Que faça as pessoas (e governos) olharem de forma positiva para o magistério, para a escola; que faça com que a tarefa de ensinar seja revigorante e não desgastante para todos nós. Mas a gente vai tentando melhorar, a cada ano, levantando a cada tombo.

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