Privacidade e higiene nas moradias coloniais

Publicado em 5 de fevereiro de 2014 por - História do Brasil

 E onde se exerciam os rituais de intimidade? Um viajante inglês responde:“As casas têm em geral três ou quatro andares. Internamente, essas residências são muito mal mobiliadas, ainda que muitas delas tenham quartos adornados com bonitas pinturas”. As moradas até podiam ser belas, mas seu interior raramente era limpo. Os aposentos, por vezes, eram varridos com uma espécie de vassouras feita com bambu. Água no chão?  Nunca.

As paredes das casas, dificilmente pintadas uma segunda vez depois da caiação original, tornavam-se amarelas. Os cubículos dos quartos raramente eram abertos a “ação purificadora do ar livre, nem tampouco expostas às camas, embora úmidas de suor. A fim de tornar os quartos toleráveis e deles expulsar os miasmas de que se acham penetrados, costumam se queimar substâncias odoríferas logo antes da hora de se recolher”. Tais odores também mantinham afastados por curto espaço de tempo, os “atacantes invisíveis”: mosquitos, baratas, percevejos e outras imundícies. Os detritos só eram removidos uma vez por semana. Os penicos estavam em toda a parte e seu conteúdo, sempre fresco, jogados nas ruas e praias.

Nas classes populares, a intimidade era um luxo que ninguém tinha. Dormia-se em redes, esteiras ou em raríssimos catres compartilhados por muitos membros da família.  Os cômodos serviam para tudo: ali recebia-se os amigos, realizavam-se os trabalhos manuais, rezava-se, cozinhava-se e dormia-se. A precariedade não dava espaço para o leito conjugal, essa encruzilhada do sono, do amor e da morte. Entre os poderosos, a multiplicação de quartos, nas residências, não significava garantia de privacidade. Todos davam para o mesmo corredor e raramente tinham janelas. Ouvidos indiscretos estavam em toda a parte. Frestas nas paredes permitiam espiar. Chaves eram artefatos caríssimos e as portas, portanto, não se trancavam.

Na alcova podia haver uma cama coberta por mosquiteiro, colchão rijo, travesseiros redondos e chumaço, e “excelentes lençóis”. Elemento de ostentação nas casas ricas, a cama traduzia um nível de vida: a conquista do tempo e da liberdade. Mas para suas intimidades, os casais sentiam-se mais à vontade “pelos matos”, nas praias, nos campos, na relva. Longe dos olhos e ouvidos dos outros.

Nesta época, na Europa, as camas com baldaquino, com as cortinas fechadas, ofereciam a possibilidade de isolamento. Aqui, só chegaram mais tarde, aparecendo nos ex-votos de madeira dos finais do século XVIII. Respeitava-se a regra: ao trocar de roupa, ninguém olhava. Na Europa, graças à criação da sala de banhos e do boudoir, se reuniram as condições de exercício de uma nova forma de erotismo. Entre nós, porém, o penico vigorou até os fins do século XIX, empestando o ambiente. Quanto ao asseio e às regras de civilidade, contudo, havia muito que aprender. Os moradores da Colônia ainda estavam muito próximos de comportamentos julgados selvagens entre os europeus.

O tímido desgosto frente à nudez e ao mau cheiro reforçava, contudo, as normas culturais do início dos tempos modernos. Apesar de a sujeira estar em toda parte, as pessoas apontavam-na com o dedo e começavam a se incomodar. Os maus modos também eram notados. Sobretudo, defecar e urinar em público, expondo as partes íntimas, chocava. Que o diga John Barrow, que em seu relato A Voyage to Conchinchina in the years of 1792 and 1793, registrou o hábito das mulheres urinar “descaradamente” nas ruas do Rio. O certo era fazê-lo contra um muro, cobrindo o sexo, na tentativa de proteger-se dos olhares alheios.

Se a intimidade não era regra para todos, cobrir o sexo era lei. O Renascimento, apesar de seu amor pela beleza física, jamais discutiu a questão da nudez. Deu-lhe apenas outro sentido. Ver uma mulher nua, segundo o filósofo francês Montaigne, esfriava mais o ardor sexual do que incitava à tentação.

– Mary del Priore (baseado em “Histórias Íntimas”).

rjtaunay

Imagem do Rio de Janeiro, de Taunay: a beleza externa das casas em contraste com o aspecto interior.

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2 Comentários

  1. Thiago Fachetti disse:

    Olá,
    sou estudante de Mestrado em Saúde Coletiva pela UFES. Lemos o livro Ordem Médica e Norma Familiar e visitamos um museu em Vitória, Solar Monjardin. Fizemos um trabalho sobre a ordem médica e seu texto caiu como uma luva. Também utilizei o livro História das Mulheres no Brasil.
    Meu Professor também nos apresentou um livro seu sobre a história da Família Real, da trágica história do príncipe maldito.
    Gostaria de parabenizá-la pelo belíssimo trabalho.

  2. Jhon Willer disse:

    Gostei muito do texto, pois que o esgoto era a céu aberto eu já sabia, porem eu desconhecia o fato das pessoas fazer suas necessidades fisiológicas na via publica e de saber que esses dejetos quando feitos em casa eram jogados nas ruas.
    Parabéns pelo blog, é uma grande fonte de informação e de estudo fico muito grato de poder partilhar de um conhecimento desse.

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