Princesas, santas ou p…

Publicado em 29 de novembro de 2014 por - Feminismo

Por Mary del Priore.

Curso de pós graduação: a aluna, jovem professora e mãe de uma adolescente, diagnostica: “as mulheres passaram da liberdade à libertinagem”. Na sala de aula, críticas pipocam sobre os pais das peladonas do Playboy que vão aplaudir as filhas quando do lançamento das revistas. Não… não ensino em escola religiosa. Trata-se, apenas da reação de uma parcela da população feminina frente às mudanças aceleradas que, para muitas, “coisificam” a brasileira. Basta passar debaixo de um dos quiosques que oferecem mulheres-fruta, celebridades e funkeiras em posições ginecológicas para entendermos sua indignação. Mudaram as mulheres, mudou a sociedade.

Nos anos 80, o presidente Figueiredo em rede nacional e horário nobre fez um discurso solene sobre a escalada do obsceno no país. Retorno autoritário da censura? Não. Muitos veículos de comunicação endossaram: com a “abertura”, a pornografia foi despejada aos montes nos lares brasileiros. As revistas que cobriam o Carnaval, exibiam fotos de sexo explícito. As pornográficas, vendidas em sex-shops no exterior, eram grosseiramente expostas em qualquer banca de jornal. Os jornais multiplicavam os anúncios de casas de massagens. Das salas privadas, a pornochanchada tinha migrado para a TV. A carga sexual dos anúncios entrou na mira das autoridades, levando o ministro Abi-Ackel a protestar contra um anúncio de cuecas que exibia protuberâncias! Reação? Em São Paulo, nasceu o primeiro movimento organizado contra o relaxamento dos costumes no vídeo: o das Senhoras de Santana.

Na internet, se multiplicam do blogs no modelo do Cem homens, em que as autoras relatam suas aventuras sexuais com parceiros diferentes. Há anos, a pastora Sarah Sheeva reúne milhares de mulheres, “num complô contra o espírito da cachorrice”. Filha de Baby Consuelo e Pepeu Gomes, ex-ninfomaniaca, Sarah Sheeva prega a castidade e o controle dos desejos carnais entre evangélicas. A “missionária da abstinência” ataca o estilo vulgar das periguetes, cachorras e cia. E não é a única. Ao dizer “não” ao sexo precoce, ao beijo na boca, à roupa colante, pregadores oferecem uma contrapartida para aquelas que não aderiram à coisificação. A ideia é transformar as mulheres em “princesas” garantindo o respeito e a dignidade. E como prêmio, terão o amor. Com a fórmula, o conto de fadas do “felizes para sempre” parece poder se concretizar.

O que está por trás disso? “Dando ou não dando”, a brasileira continua a construir sua identidade através do olhar do homem: do macho ou do príncipe. É ele quem escolhe a liberta ou a libertina. As que transformam o corpo apenas num mecanismo de proezas sexuais têm que lidar com consequências, nem sempre desejadas: gravidez, DSTs, solidão quando o corpo não dá mais. Na outra ponta, como demonstra Sarah Sheeva, a tradição não é opressiva. Para muitas, a liberdade sexual é um fardo e elas têm nostalgia da velha linguagem do amor, feita de prudência, tal como viveram seus avós. A pergunta que fica é: quando vamos ser nós mesmas, sem pensar em como ou quanto os homens nos desejam? Sem ter que escolher entre ser santa ou p…?

 

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Santa Cecília, de Jacques Blanchard. Acima, Valesca Popozuda.

 

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2 Comentários

  1. Evandro disse:

    O que seria o “ser nós mesmas”?

    • marcia disse:

      Oi, Evandro. O texto fala sobre os papéis que são impostos às mulheres- muitas vezes, por elas mesmas. A emancipação feminina não precisa passar necessariamente pela aprovação masculina. Ou seja, ninguém deveria ter que escolher ser santa ou prostituta, cada um deve tomar suas próprias decisões.

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