#PrimeiroAssédio: está na hora de romper o silêncio

Publicado em 30 de outubro de 2015 por - temas atuais

Depois da estreia do MasterChef Júnior e a enxurrada de mensagens pedófilas dirigidas a uma das participantes do programa (Valentina, 12 anos), o @ThinkOlga, um think thank que discute questões feministas, lançou a hashtag #PrimeiroAssédio. Milhares de mulheres e homens relataram publicamente a primeira vez em que sofreram assédio sexual. E ouvimos muitas histórias assustadoras e revoltantes de pessoas conhecidas ou não sobre o tema. Carícias inadequadas, exibição, encoxadas, apalpadas, beijos forçados e estupros. Muitas mulheres nunca tiveram coragem de contar isso para ninguém. Tiveram medo, culpa ou vergonha. Muitas sabem seriam julgadas ou questionadas sobre a veracidade dos fatos. Fomos ensinadas a acreditar que se ocorre algo desse tipo, alguma culpa nós temos.

Tenho muitas amigas com filhas pequenas ou adolescentes, e o que mais ouço é “Quem tem filha, nunca tem sossego, com esses monstros que existem por aí”. Isso me fez lembrar de minha infância. Minha mãe era extremamente cuidadosa com esse tipo de coisa. Ela estava sempre vigilante, me ensinou a nunca ir sozinha ao banheiro público ou andar desacompanhada pela escola, instruía meu irmão a ficar de olho em mim. Sim, ela tinha as suas razões e achava que era a melhor forma de me proteger. Entretanto, sempre achei injusto que meu irmão tivesse mais liberdade que eu. E realmente era. Fico pensando na dificuldade que mães e pais devem ter para educar suas filhas nessa sociedade que vê a mulher como objeto sexual. Um grande dilema…

Por isso, a importância de uma ação como essa, que encoraja as mulheres (e os homens) a falar abertamente sobre seu primeiro assédio. É preciso que entendamos que não temos culpa por sermos assediadas. E também que esse tipo de situação não é engraçado (tem quem ache), nem corriqueiro. O abuso pode marcar nossas vidas para sempre e certamente vai influenciar a forma com que nos relacionamos com o mundo. E não são apenas crianças que sofrem com isso: mulheres adultas são assediadas todos os dias no trabalho, nas ruas, nas faculdades, no transporte público. Pode ser um abraço ou um afago inconveniente do chefe, uma piada constrangedora, uma proposta ou uma investida concreta.

Quando contamos o ocorrido, as pessoas tendem a minimizar a situação. Esquece isso. Não foi nada. Homem é assim mesmo. Tem certeza que você não está exagerando? Você não entendeu mal? E nos calamos ou mudamos de emprego ou de escola. Uma vez, um homem desconhecido me seguiu quando eu voltava do trabalho à noite (umas nove horas), disse que estava armado e que iria me matar porque eu o havia desprezado. Eu nunca o tinha visto antes. Foi assustador. Obviamente, fiquei com medo de voltar do trabalho a pé. Contei para meus colegas e comecei a pegar carona com o pessoal, mesmo morando muito perto. O que mais me magoou é que algumas pessoas insinuaram que eu estava inventando a história para “me valorizar”! Desde quando ser ameaçada é elogio?! Na nossa sociedade doente e machista, é assim.

E não é de hoje que somos desacreditadas. Podemos encontrar registros de reclamações de assédio e maus tratos por parte de mulheres, durante as visitações do Santo Ofício ao Brasil. Os comissários anotavam as queixas, faziam algumas perguntas, mas raramente tomavam providências. Eram casos de padres que se aproveitavam de sua posição para seduzir ou atacar suas paroquianas. Ou de maridos que obrigavam as mulheres a práticas sexuais que as constrangessem ou incomodassem. A sodomia, por exemplo, era tolerada dentro do casamento, mesmo quando a mulher fazia a queixa e alegava ter sido forçada a ter esse tipo de relação sexual pelo companheiro. A Inquisição fazia vista grossa. Ninguém acreditava nas mulheres, que eram consideradas seres diabolicamente sedutores, enganadores ou fracos. A culpa quase sempre era delas…

E hoje parece que muita gente ainda pensa assim. Sempre que uma mulher faz uma queixa de assédio ou estupro, a sua palavra é questionada, posta em dúvida. Ela precisa, primeiramente, provar que é inocente e, depois, que o agressor é culpado. Por isso, tantas ainda se calam. Será que conseguiremos mudar essa triste realidade? – Texto de Márcia Pinna Raspanti.

 

criançapombopicass

“Criança com pombo”, de Picasso.

 

 

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