Preservar, de quem é a responsabilidade?

Publicado em 30 de maio de 2014 por - História do Brasil

Por Natania Nogueira.

Falamos anteriormente sobre a importância da educação patrimonial para a nossa sociedade. Hoje, vamos tirar alguns momentos para pensar em uma coisa que deve vir junto com a conscientização: a responsabilidade.

Ser consciente do meu dever nem sempre implica ser responsável pelas minhas ações ou mesmo pelas minhas omissões. E todos nós, em algum momento, fomos omissos, pois infelizmente, o agir é algo pouco trabalhado em nossa formação. No dia a dia, nos acostumamos a ignorar aquilo que não está correto, que fere princípios legais e/ou morais. E isso acontece em todas as esferas que envolvem relações humanas.

A ação demanda comprometimento. É desse comprometimento que nossa prática cidadã carece enormemente. E daí eu retomo a pergunta que é tema deste texto: Preservar, de quem é a responsabilidade?

Se nos voltarmos para as leis, iremos encontrar uma resposta jurídica para isso. Segundo a nossa atual Carta Constituinte, promulgada em 1988, em seu art. 216, o “Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação”.

Pois bem, segundo a Constituição preservar é uma tarefa de todos, sociedade civil e poder público, portanto, a ação e o comprometimento devem vir de ambas as partes. E como isso deve acontecer? A meu ver, o poder público deve ser lembrado e cobrado da sua responsabilidade para com o patrimônio histórico, cultural e natural. Por outro lado, a comunidade deve fazer sua parte, ajudando na preservação, denunciando o vandalismo e o mal uso do patrimônio público, por exemplo.

Teoricamente, tudo muito bonito. Entretanto, sabemos que vários fatores colaboram para que nosso patrimônio esteja constantemente em perigo. E ao falar de patrimônio aqui, não estou me referindo a monumentos ou museus. Estou me referindo a todo o patrimônio que é público.

Vou usar um exemplo que pode servir para todos. O lixo nas ruas da cidade. Não importa se vivemos em uma cidade pequena ou grande, cada dia que passa as ruas, principais ou periféricas, têm se tornado depósitos de lixo. Ainda são poucas as ações com relação à coleta seletiva. E, embora se faça campanhas nas escolas, as pessoas ainda continuam jogando lixo onde bem entendem: nos rios, nas calçadas, nos jardins das praças, na porta de casas e estabelecimentos comerciais.

Caminhava de manhã cedo em direção à escola onde trabalho num outro dia e fui observando desde palitos de picolé jogados na calçada até uma latinha de refrigerante em cima de uma caixa de correio. Não há gari que dê conta de tanta imundice. Tudo bem, há uma boa parcela de responsabilidade do poder público. Coleta de lixo tem que ser administrada de forma racional e eficiente e definitivamente, não se poder economizar com a limpeza urbana. Mas jogar lixo na rua porque uma pessoa vai limpar depois, me perdoem a grosseria, é muita falta de vergonha.

Aí, a gente tem dois problemas: por um lado o poder público ineficiente, de outro uma sociedade que supostamente estaria mais esclarecida, que não colabora. Nessa brincadeira vamos vendo o lixo se acumulando nas ruas, praças e áreas de lazer sujas e mal conservadas. Ora, cada um tem que fazer a sua parte!

A raiz do problema está na falta de ação. Nós brasileiros fomos acostumados a esperar pela solução e não a buscá-la. A comunidade precisa aprender a agir e a exigir mudanças não a aguardar comodamente que as autoridades tomem iniciativa.

Além disse, coisas simples do dia a dia fazem diferença. Ensinar o filho a não jogar lixo no chão, e cobrar dele uma ação positiva com relação ao espaço público e às pessoas que dele se utilizam. Participar sempre que possível de sessões do legislativo é importante. Estar sempre buscando saber o que tem sido feito e o que precisa ser feito para que a cidade seja um lugar melhor para se morar. Cuidar da natureza, cobrar a fiscalização de reservas naturais, ensinar os jovens a preservar e respeitar a natureza e o meio ambiente. A pressão da comunidade tem um efeito bem maior do que nos fazem acreditar.

Posso falar de leis, posso citar episódios da história ou mesmo evocar a importância da memória mas a maior e melhor forma de se educar é pela ação. Podemos trabalhar educação patrimonial na escola, mas é em casa que começa a se formar o cidadão responsável, participativo e comprometido.

lixo

Lixo acumulado nos fundos da Antiga Estação da Estrada de Ferro Leopoldina no distrito de Ribeiro Junqueira, município de Leopoldina.

 

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2 Comentários

  1. Claudia Conte disse:

    Muito bom Natania!
    Acredito que este sentimento tem incomodado muitos de nós. Mas há o problema que você pontua no seu texto: a ação, ou seja, o movimento que precisamos fazer do incômodo à ação.
    Hoje em Leopoldina estamos a ponto de assumir que um de nossos símbolos é o “lixo”, pois ele está tomando conta da cidade e o pior, acredito que as pessoas estão se acostumando com ele.
    Mas quando vemos lugares que deveriam ser referência do Patrimônio Histórico e Artístico virando depósito de lixo, o que mais me angustia é a sensação de que na verdade esses lugares não são realmente referência para uma grande maioria de pessoas. E aí, fica a indagação: Como esse “Patrimônio” é pensado e percebido pelas pessoas? O que ele realmente representa?

    • Natania disse:

      Arrisco a afirmar que o lixo está tomando conta do mundo e não pq está apenas se multiplicando, mas pq as pessoas, apesar de mais informadas, se recusam a fazer coisas simples como jogar o lixo no lixo e reciclar. Nem podem alegar ignorância. Quem não respeita a rua em que mora vai respeitar o patrimônio histórico? O mesmo podemos dizer da administração pública na maior parte das cidades brasileiras. Afinal, o governo é reflexo do próprio povo, não é o que dizem? Mas sempre se pode mudar, só espero que a mudança venha rápido.

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