PRESERVAÇÃO, MEMÓRIA E SUBJETIVIDADE

Publicado em 13 de junho de 2014 por - História do Brasil

O ato de preservar por vezes se confunde com o simples armazenamento de um bem material que não pode ser perdido, mas que também não é usado. Não é usado porque não faz mais parte da memória coletiva, porque não se identifica com a “atualidade”. Sobre isso li um artigo muito interessante por esses dias, de autoria da pesquisadora Claudia Inês Parellada. Nele, a autora fala sobre a subjetividade que envolve a questão da preservação e da memória e do significado coletivo que um bem cultural, material ou imaterial possui para justificar sua preservação.

Todo patrimônio tem uma função social e possui uma memória. Não se preserva um monumento e se esquece o que ele significa. A memória dá sentido ao ato da preservação. Lendo o artigo, me dei conta de que não é apenas a falta de interesse pelo passado a responsável pela perda gradativa da memória, mas sim o fato de que não reconhecemos a importância da memória em si.

Não sei se era essa a intenção da autora, mas ela me fez repensar alguns conceitos e preconceitos acerca da questão da preservação, do valor que damos ao bem cultural preservado. A frase tão repetida “o povo não tem memória” ganhou um novo sentido para mim. Temos memória sim, mas ela é uma memória plural, é a memória que nós queremos, que nós construímos e reconstruímos a cada dia.

O que acontece, muitas vezes, é que selecionamos essa memória. Queremos lembrar do que é útil, do que traz significado direto à nossa vivência, ao nosso cotidiano. Mesmo as memórias mais particulares são selecionadas. Boas ou ruins, elas precisam ter um significado, um valor nelas embutido para que o ato de rememorar seja significativo. O mesmo se aplica a um corpo maior como uma cidade, uma região, uma nação. O que chamamos então de perda da memória, ou mesmo de esquecimento, tem a ver com valores construídos e atribuídos a fatos, objetos ou monumentos.

A subjetividade, que é parte constituinte da memória, está relacionada também ao ato de preservar, uma vez que precisamos entender, conhecer e dar valor àquilo que necessita ser preservado. Por ser também subjetiva, a memória não pode estar atrelada a um pensamento único, a uma análise única da realidade. O que temos são várias realidades, várias ideias do que é útil, do que pode ajudar a construir um sistema de valores. Embora existam parâmetros nacionais e internacionais acerca do que a humanidade deve preservar, daquilo que deve ser lembrado por todos e registrado na história, é preciso ter em mente que no universo microrregional são cultivados valores distintos.

E aqui faço uma referência direta ao texto de Parellada, quando a autora afirma que se deve definir o patrimônio “em função do significado que possui para população, reconhecendo que o elemento básico na percepção do significado de um bem cultural reside no uso que dele é feito pela sociedade”.  Assim, como a construção da memória, a preservação é uma ação social. A memória é parte constituinte da identidade social. Portando, o ato de preservar, de valorar bens materiais e culturais reforça o sentimento de pertencimento, de fazer parte de algo maior.

Quando trabalhamos memória e conservação do patrimônio em uma sala de aula devemos levar em conta sobre que memória e qual patrimônio estamos falando. Na minha escola pública, que recebe alunos da periferia e da zona rural, quando trabalho a questão da memória e mesmo da história regional eu preciso ter em vista o que para meu aluno tem valor e significado. Com certeza, não vai ser o mesmo para aquele aluno que mora no centro da cidade e que vive numa realidade cultural e material distinta.

É um bom exercício para o professor que deseja trabalhar com educação patrimonial. Ao desvendar aquilo que traz significado às ações pessoais de seu aluno e à comunidade em que ele vive o professor poderá ser capaz de despertar o interesse dos jovens estudantes pela necessidade de preservação. Ele pode a partir daí dar forma, junto com seus alunos, à memória coletiva da comunidade.

Do local para o geral se desperta o interesse e o entusiasmo pelo fazer humano. É um processo de formação, sutil, lento mas que pode encontrar na escola e no professor a base para a construção de uma sociedade que não apenas valorize mas reconheça a memória não como um corpo único, mas como a união das muitas memórias que se escondem em cada localidade do nosso Brasil.
Sugestão de leitura:

PARELLADA, Claudia Inês. Museus e patrimônio histórico. In: Anais do II Encontro Cidades Novas – a construção de políticas patrimoniais: Mostra de Ações Preservacionistas de Londrina, Região Norte do Paraná e Sul do País. Centro Universitário Filadélfia – UniFil. Londrina-PR. 13 a 16 de Outubro de 2009. Disponível em: http://web.unifil.br/docs/semana_educacao/1/completos/03.pdf, acesso em: 26/05/2014.

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Festa de Reis.

link: http://iphansp.wordpress.com/2012/07/20/iphan-realiza-encontro-sobre-patrimonio-imaterial-em-sao-luiz-do-paraitinga/

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