Preservação e Memória: pequenas vitórias, grandes avanços

Publicado em 5 de dezembro de 2014 por - Educação

Por Natania Nogueira.

Gostaria de começar o texto de hoje com uma boa notícia: O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural decidiu, em reunião realizada no dia 3 de dezembro, que o Maracatu Nação, Maracatu Baque Solto e o Cavalo Marinho, manifestações da cultura popular pernambucana, são os novos patrimônios culturais de natureza imaterial. É reconhecimento da importância de atividades culturais que são fruto de relações comunitárias, são formas de compartilhar memórias, reforçar vínculos entre passado e presente, reafirmando a identidade cultural simplesmente por meio de práticas cujo aprendizado praticamente é oral.

Mais do que festas, do que danças, representam a religiosidade, a história de um grupo cujas tradições culturais se renovam a cada geração. Sim, cultura é renovação, memória significa aceitar a mudança, incorporar o novo ao antigo, acumular conhecimento por meio de práticas compartilhadas um ou vários grupos. É o conhecimento em sua representação mais pura.

A preservação de manifestações culturais, da cultura imaterial, tem superado a ideia de que o patrimônio se resume unicamente ao monumento, ao que remete à grandiosidade arquitetônica, ao poder das elites. O monumento está sendo superado pelo sentimento. Pelo sentimento de pertencimento presente em uma festa popular, em um espaço de memória, em uma manifestação simples como a confecção de um carroça ou mesmo a preparação de um doce.

Em um dos primeiros textos que publiquei aqui no blog falei justamente sobre isso, sobre a colonização da memória. Embora ainda estejamos longe de superar a atração pelo monumento, tem se ampliado no Brasil a noção de patrimônio. A memória tem sido reconhecida como um elemento formador, presente nos mais diversos espaços. Estamos descobrindo novos significados para elementos do nosso cotidiano, que antes pareciam simplórios ou simplesmente passavam despercebidos.

Tudo isso, e muito mais, é parte da educação patrimonial que se faz nas escolas, claro, mas que também acontece quando assistimos a um documentário ou quando tomamos conhecimento de um texto em uma revista ou mesmo na internet. A sociedade é um organismo dinâmico em constante mudança. Como parte dela, nós mudamos também. Compartilhamos experiência, trocamos informações e acumulamos conhecimento.

É um processo tão natural que passa quase que despercebido. Mas é real e palpável. Se por muitas vezes temos falado e refletido sobre a importância da preservação em um sentido mais amplo, por outro temos também ampliando nosso conhecimento acerca daquilo que está sendo realizado nesse sentido. Há alguns anos, talvez o tema girasse simplesmente em torno do que está sendo perdido. Hoje, estamos refletindo acerca do que está sendo preservado.

Multiplicam-se cartilhas, livros, TCCs, dissertações e teses. Multiplica-se, também, o interesse de órgãos públicos, de municípios em investir no patrimônio histórico e cultural de uma região. Estamos dando um passo de cada vez, ampliando nossas redes, perdendo, mas também ganhando batalhas. Termino texto como comecei: comemorando uma vitória da cultura popular brasileira. Saúdo os pernambucanos, que estão reconhecendo e protegendo suas tradições. Ao mesmo tempo convido todos a lutarem pelo mesmo em suas cidades, em seus Estados. O tombamento ou reconhecimento de um bem cultural só é possível quando ele ocupa um lugar na formação de um grupo. Quando isso acontece, estamos ganhando muito mais do que a proteção de um bem, mas estamos fortalecendo a nossa identidade.

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Maracatu Baque Solto: patrimônio cultural.

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