Por uma História que nos cative e encante…

Publicado em 25 de agosto de 2015 por - História

O poeta Paul Valéry já sublinhara em relação à Academia Francesa: “Num mundo instável, onde o poder político se encadeia ao absurdo e ao imediatismo, além de engajado na luta perpétua por sua própria existência, a resistência à pressa, à confusão, à versatilidade das paixões reais ou simuladas é indispensável. Pensemos numa ilha – a Academia – onde se conservaria o melhor da cultura!”.

Ilha, “insula”, palavra que remete ao isolamento. Mas, no caso seria apenas um empréstimo literário de Valéry, pois as atuais academias, outrora “Societés Savantes”, menos e menos se parecem com suas avós, fundadas entre os séculos XVII e XVIII. Hoje, elas caminham para uma participação maior e melhor na sociedade. A busca de sinergia entre escritores e leitores, o apagamento entre a língua erudita e a popular, o entusiasmo pela palavra, no papel ou na tela, no livro ou no blog, constituem uma agenda nova para todos que desejamos trabalhar por um país letrado.

Integrada a essa proposta, ou seja, a da construção de um Brasil que preze seus escritores, é que me pergunto se o arquipélago não seria uma definição melhor para determinar a multiplicidade de tendências que, atualmente, vemos se consolidar nas variadas academias. E nessa luta pela valorização de individualidades, de singularidades capazes de criar um novo espaço de autores, escritores, pesquisadores, porque não discutir a possibilidade de a história ser uma forma de literatura contemporânea?

Digo isso, pois é preciso conhecer a história da disciplina histórica para saber que literatura e história já andaram de mãos bem dadas, por muito tempo. Sem dúvida fronteiras são necessárias. A história não é, e jamais será ficção, fábula, delírio ou cópia. A distinção que Aristóteles opera entre poesia e história, no capítulo 9 de sua Poética é, deste ponto de vista, fundadora.

Mas esse distanciamento desejado pelo filósofo, não condena o historiador a ser um órfão da poïesis. A sua inventividade nos arquivos, o seu engenho no emprego de métodos e conceitos, a sua criatividade no uso da narrativa ou do léxico têm, em si, um sentido forte.  Ela – a inventividade, na ficção ou no discurso histórico – é um ato criador. E sabemos: o historiador trabalha, conjugando uma produção de conhecimentos, uma poética do saber, mas, também, uma estética. E, portanto, o problema, como sugeriu Jacques Ranciére, não é “saber se o historiador deve ou não fazer literatura. Mas qual literatura ele faz”. Poderíamos dizer a mesma coisa, do escritor em relação às Ciências Sociais: o problema não é saber se ele fala do real. Mas se, por meio de sua escrita, ele oferece condições de compreender a realidade.

Penso que o importante é não ter mais constrangimentos. É ousar. É experimentar coletivamente. É imaginar uma História que cative, que emocione, pois, então, ela será capaz de demonstrar fatos passados e desvelar a vida dos ancestrais de tantos brasileiros que ainda desconhecem suas raízes. Que ignoram sua identidade. Que antipatizam com a vida dos ancestrais. Essa história hibrida existe e é chamada por alguns historiadores de creative-history.

Desde a Antiguidade, se tenta extrair da história as suas bordas literárias. De Heródoto a Tucídides, existem os debates sobre, se o historiador poderia embelezar, idealizar. A história, então, se misturava à poesia, ao mito, ao elogio, à grandiloquência. Veja-se Heródoto, Tácito e Tito Lívio, divididos entre o panegírico e a verdade. Como que antecipando o relativismo em que vivemos, eles intuíam que a verdade absoluta e objetiva não existe. Existe, sim, aquela que é construída subjetivamente pelo discurso de cada um.

Eis porque, para muitos, as formas literárias seriam uma ameaça. A severidade deveria estar presente nas genealogias bíblicas, nos nomes de reis gravados nas acrópoles, nas efemérides dos pontífices. Houve sempre quem discordasse. Cícero por exemplo. Para ele, o simples narrator, não bastava. O exornator – o que adorna – deveria exibir todas as qualidades da sua escrita. Mais tarde, na época clássica, quando surgem os primeiros tratados sobre o que seria a matéria histórica, o pregador e ensaísta Pierre le Moyne no seu De l´histoire anunciava que “era preciso ser poeta para ser historiador”. Na contramão, seu contemporâneo, Jean Bodin, pregava a importância da “historia nuda”: despida, sóbria, simples direta. O debate prosseguia.

Até o século XVII, momento do nascimento das Belles-Lettres, ou da chamada República das Letras, uma comunidade abstrata reunia poetas, filósofos, moralistas, historiadores e até astrônomos. Com a proliferação de salões literários, academias, mecenatos, da imprensa e, sobretudo, da codificação de uma linguagem definindo o que fosse o “homem de letras”, o historiador se tornava, por osmose, também um escritor e vice-versa. Um era o outro. Os romances de Walter Scott demonstram que o mesmo escritor que idealizava cavaleiros e castelos, usava, como qualquer historiador, as informações extraídas das crônicas medievais, conservadas em velhas bibliotecas ou arquivos.

As fontes documentais sempre permitiram ao leitor acreditar que, apesar da distância, os homens do passado eram dotados de vida e habitados por paixões. Torneios, raptos, festas e crimes faziam de duques, princesas e reis, contemporâneos dos leitores, tão bem descritos, vivos ou “ressuscitados” como diria o historiador Jules Michelet. Na universidade de Leipzig, Ranke recusava qualquer linguagem poética e brandia o que denominava “imparcialidade”.

Usando as mesmas linhas cruzadas entre ficção e história, Balzac fez pela França o que nenhum historiador na época conseguiu fazer para a história do Egito ou de Roma: ele pesquisou, registrou, explicou estabeleceu a significação das ações e dos protagonistas. No século XIX, tratou de questões que a historiografia foi buscar apenas, em meados do século XX: a evolução social, suas hierarquias, práticas e tensões entre grupos, as idades da vida, a moradia, os hábitos, o lazer, o sexo, enfim: um programa de história social. Com o agravante de que, aos olhos do leitor, seus romances são mais autênticos, mais demonstrativos, resumindo, mais verdadeiros do que qualquer tese universitária. A Comédia Humana, com seus vários personagens e cenários, tornou mais visível do que nenhuma outra obra, a sociedade pós-revolucionária francesa.

A agenda dos escritores realistas – no Brasil temos o maior representante em Machado de Assis – não era muito diversa de um historiador hoje: vontade de descrever a realidade sem idealizá-la, interesse pela vida do povo e as coisas do cotidiano, evocação dos problemas sociais da época. Mas esse excesso de realidade não seria daninho?  Flaubert em carta a Louise Collet profetizava que “a literatura iria tomar os contornos da ciência” com seu interesse pelo real, pelo vivido ou pelo quase jornalístico. Tinha razão. Para escrever Germinal, Emile Zola assistiu a reuniões sindicais, desceu nas minas de carvão e estudou obras de grandes alienistas para reproduzir os sintomas de doenças profissionais que atingiam os mineiros. Nos Estados Unidos, John Steinbeck visitou e percorreu os campos de imigrantes da Califórnia para escrever As vinhas da ira. As Letras se deixavam impregnar, mais e mais, de Ciências.

A partir de 1870, também os historiadores adotaram “um ponto de vista estritamente científico” – como resumiu um deles, o positivista Gabriel Monod. Mas o problema prosseguia: quando havia literatura demais, a história desaparecia. Quando havia de menos, não sobrava nada. Se, durante o Romantismo, a história vivia em osmose com a literatura, à medida que a disciplina se institucionalizava, nas universidades, nas cátedras, nos concursos, esse convívio, antes visto como benéfico, passou a ser considerado muito narrativo, lírico e até patético – pateticismo do qual foi acusado injustamente, por exemplo, Michelet. A regra, então, foi fazer do historiador uma criatura independente, descolada do homem de letras. Doravante, sem emoção, sem tendências e sem aparatos, a História convergiria para a história-ciência.

O cientificismo e o positivismo, presentes na literatura realista, impunham a objetividade como regra. O importante era buscar o fato. Descrevê-lo como se o historiador estivesse em cena, com lupa e microscópio à mão, e, sobretudo, com linguagem comedida e policiada por métodos e teorias. Enquanto a literatura se libertava, a história se prendia mais e mais às corporações, aos cargos na carreira, aos arquivos, construindo zelosamente as bases da chamada Escola Metódica.

É nesse momento que observamos a ruptura voluntarista e imposta por um determinado grupo de historiadores-funcionários-universitários, entre o historiador – escravo do real, da seriedade, da ciência. E o escritor, senhor da arte da imaginação e da subjetividade.

A partir dos anos 60, o marxismo fez o resto: a camisa de força das “lutas de classe”, do predomínio das interpretações econômicas sobre o cultural ou o social, das dezenas de anexos com dados quantitativos, enterrou definitivamente a possibilidade de uma narrativa sedutora. Eric Hobsbaw, historiador marxista inglês, talvez seja a única exceção a essa maré de textos que se lê com o mesmo cansaço com que se escalam montanhas. O pior era o sentimento de transgressão ou lesa-cientificidade que se tinha ao romper com tais pressupostos.

Ao final dos anos 80, vários historiadores se insurgiram contra a servidão voluntária, a obediência cega aos métodos marxistas e quantitativistas que vicejavam nas universidades. Lawrence Stone, Georges Duby, Nathalie Davies entre outros resolveram dar prazer ao leitor. Resolveram dar prazer, mas, também, ter prazer na redação da pesquisa. O resto? O resto se seguiria com as regras do ofício: rigor, honestidade, ritmo. A moda das biografias, a necessidade das descrições no lugar das explicações, as “artes de contar” esmagaram a obsessão com as estruturas. Historiadores do porte de Michel de Certeau, Paul Veyne, Paul Ricoeur, entre outros, demonstraram, cada qual com seus métodos, que a história tinha necessidade de intrigas, de figuras de estilo, de cenários. Veyne chega a dizer que não há “diferença entre história e ficção” ou que “a história é um romance verdadeiro”.

Mas eles desembocaram numa mudança. E o que interessa, hoje, é discutir melhor o papel e a definição da “não ficção” – pois a história é assim considerada. Ela está num mesmo saco, junto com as reportagens, os guias de viagem, as autobiografias e coletâneas jornalísticas. A história, como os demais textos, tem uma função cognitiva – ela informa, explica, interpreta, ensina, transmite. Mas ela não é só uma coleta de fatos. É, sim, uma forma de educação cidadã. Ela pode atuar na praça pública, pois participou das lutas pela liberdade e pelas verdades, lutas que atravessaram o século XX. Ela serve para combater a indiferença, a intolerância, a amnésia. E para fazer a História avançar no século XXI, não se trata mais de repetir Walter Scott ou Balzac. Não se trata de renunciar a todas as regras do ofício. Não se trata, tampouco, de reconciliar história e literatura, um casal que tenta se divorciar a tempos. Mas, sim, de favorecer o encontro entre método e narrativa.

Como tantos colegas, faço história como se exuma um cemitério. Só que nem sempre achamos os mortos. Ao aprofundar as escavadeiras que arranham o solo duro com suas longas forquilhas de aço, procuramos o passado inacessível. Sabemos que ele está lá, sob a forma de uma substância observável, tangível, cercada de precauções de uso, suscetível de ser trazida a vida. Tal quantidade de passado não é só terra, poeira e ossos.  Pois para dar vida aos mortos, é preciso mais do que identificá-los. É preciso um caminho para encontrar o tom justo, o bom ritmo, a imagem, a cor, a música, a emoção, tanto para trazê-los à superfície, quanto para descrever o seu tempo. É necessário buscar as palavras, achar a visibilidade na invisibilidade, captar o som de passos perdidos, o balanço de uma flor, uma sombra na calçada. Uma sombra que poderia passar despercebida, continuar não nomeada, ninguém a alcançaria, se o historiador não estivesse lá.

Penso que é preciso tentar construir uma história que se queira também literatura, uma história-criativa. Nela, pretendo me exercitar como o mestre chinês que, segundo a tradição, desenhava cotidianamente um leão. Com o objetivo de desenhar, no fim da vida, o leão perfeito. – Texto de Mary del Priore.

S

 

“Por uma história que nos cative”.

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1 Comentário

  1. Clarissa loureiro disse:

    Acredito que a literatura tem uma conversa, de fato, cativante com a história. Seguindo a trilha de António Candido, acredito que na obra literária um dado histórico funciona como um fator interno de construção textual. O importante deve ser o apelo estético dito por Aristóteles. Quando leio romances conheço melhor lugares, épocas porque me seduzem, embora sejam realizados pelo olhar de um autor.

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