Piratas aterrorizam Santos

Publicado em 26 de janeiro de 2014 por - História do Brasil

            Em 26 de janeiro de 1839, Santos passou à categoria de cidade. A sua fundação, contudo, remonta aos primórdios da colonização. Não se sabe exatamente quando começou o povoamento da área, mas Brás Cubas, que chegou de Portugal em 1532 com Martin Afonso de Souza, é considerado o seu fundador. Em 1546, Santos foi elevado a vila. Para homenagear a cidade, vamos relembrar um episódio bastante curioso: no Natal de 1591, o pirata inglês Thomas Cavendish tomou de assalto a vila e permaneceu por lá por dois meses, causando muito medo aos moradores. Alguns disseram, na época, que Brás Cubas teria morrido de desgosto ao ver a invasão dos ingleses…

Cavendish foi o terceiro europeu a realizar uma viagem de circum-navegação. A esquadra composta por cinco embarcações tinha o objetivo de passar o estreito de Magalhães, seguir pelo Pacífico e inaugurar uma rota comercial com Filipinas, Japão e China. Com poucos suprimentos, os tripulantes dos navios logo enfrentaram a fome. A solução foram os saques a povoações e a outras embarcações. Capturaram um navio português em cabo Frio, arrasaram Santos e incendiaram São Vicente. As péssimas condições climáticas os impediram de atravessar o estreito de Magalhães e a esquadra foi obrigada a voltar para a costa brasileira. Os ingleses não puderam desembarcar em São Vicente e seguiram para Vitória. Com alguns víveres a bordo, o capitão abandonou os feridos e doentes no Brasil e retornou à Inglaterra. Vejamos alguns testemunhos da época:

Na véspera de Natal, às 10 horas da noite, os botes puseram-se prontos para seguir em direção à praia. (…). Permanecemos dois meses em santos, o que acabou por ser a ruína de nossa viagem(…). Encontramos muito ouro armazenado na cidade, trazido pelos índios de um lugar chamado Maetinga, onde os portugueses mantinham algumas minas. (…) Os homens de nossa tripulação caminharam de Santos a uma povoação vizinha, de nome São Vicente. Pelo caminho, queimaram cinco engenhos e moendas de açúcar. A indisciplina reinava entre eles“. (Anthony Knivet, marujo inglês, 3 de fevereiro de 1592).

“Mestre Cavendish precisava tomar a cidade, pois tinha grande necessidade de suprimentos. (…) No dia seguinte, depois de termos dominado a cidade, nossos prisioneiros foram todos postos em liberdade. Para que nossas exigências fossem atendidas, somente quatro pobres homens velhos foram mantidos como reféns. Em três dias, a cidade, que a princípio poderia fornecer a qualquer navio todo tipo de víveres, foi ficando totalmente vazia diante de nós, sem gente e sem provisões. (…) A bem da verdade, zarpamos com mais necessidades que ancoramos“. (John Davies, marujo, 3 de fevereiro de 1592).

O jesuíta P. Tolosa afirmaria em uma carta de 1592 que as vilas tiveram um prejuízo de 100 mil cruzados com a “visita” da esquadra de Cavendish, e que os piratas haviam roubado as dependências do Colégio da Companhia de Jesus. A maior perda, na opinião do religiosos, havia sido a cabeça das “Onze Mil Virgens que, como estava bem-ornada, apanharam-na e nunca mais se soube dela. Imaginamos que aqueles malditos ingleses a atiraram ao mar“, desabafou Tolosa.

(Documentos extraídos de “A construção do Brasil na literatura de viagem dos séculos XVI, XVII e XVIII”, Antologia de textos !591-1808), de Jean Marcel de Carvalho França). Abaixo uma imagem de Cavendish e um mapa de navegação da época: 

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3 Comentários

  1. Martin Ziemmer Neto disse:

    Sou descendente de Henry Barwell (14º avô), um dos marujos abandonados por Cavendish. Se não me engado estava a bordo do Galeão Dudley e foi aprisionado na ilha de São Sebastião.

  2. Cavendish…
    Está explicada a veia pirata do melhor amigo do Governador Cabral…

    • Cristiano Cavendish disse:

      Eu também sou Cavendish e em meu sangue corre um pouco desta tendencia, não de piratas e sim de olhar a vida social de uma forma mais descomprometida com tantas ordens ,não concordando tanto com tantas regras estabelecidas

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