“Pela carne sem osso…

Publicado em 20 de março de 2017 por - artigos

…e a farinha sem caroço”

Carne: preços altos, qualidade ruim. Não é de hoje que os brasileiros reclamam dessa situação. A operação “Carne Fraca” deflagrada pela Polícia Federal, na última sexta-feira, deixou a população assustada com as denúncias relativas às péssimas condições do produto. Em 1858, o problema gerou até uma revolta popular:

 

         Algumas regiões do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e, principalmente, Minas Gerais conseguiam produzir alimentos suficientes para a própria população e até mesmo para abastecer outras províncias brasileiras. Noutras áreas, contudo, as próprias fazendas garantiam a autossubsistência. Em São Paulo, por exemplo, as hortas rurais dispunham regularmente de “couve, juquiri, serralha, chicória, chicorião, almeirão, agrião-d’água, mostarda, caruru, cenoura, quibebe, repolho, alface, abobrinha, chuchu, maxixe, cambuquira, batata-doce, mandioca, giló, inhame, cará e palmito”. Entretanto, a inserção desses produtos nos circuitos comerciais era precária ou nula. Tratava-se, na maior parte dos casos, de uma produção voltada para o próprio consumo, situação também registrada em relação à carne. Além daquelas provenientes de gado e de aves domésticas, havia as originárias da caça de “codornas, perdizes, mutuns, coatis, cutias, pacas, veados, antas, capivaras, catetos, porcos-do-mato, macacos, tatus, lontras, ariranhas” etc.; ou então de pesca de “cascudos, piracanjubas, dourados, bagres e lambaris”, como explica a historiadora Rosane Meneses Carvalho

       A situação se complicava nas cidades. Na segunda metade do século XIX, floresciam os primeiros grandes centros urbanos brasileiros. Para mencionarmos dois exemplos, basta lembrar que a capital carioca, entre 1872 e 1920, aumentou sua população urbana de 228 mil para 790 mil habitantes, segundo Maurício Abreu. A capital paulista registrou, no mesmo período, um crescimento ainda mais vertiginoso, indo de 23 mil habitantes para cerca de quatrocentos mil! Nem sempre as linhas de abastecimento interno acompanharam o ritmo desse crescimento, gerando o que na época se denominava carestia – o aumento generalizado nos preços dos alimentos.

        As revoltas frente a essa situação eram antigas. Elas ocorreram no período colonial e atravessaram o império. Durante a noite de 28 de fevereiro de 1858, Salvador, na Bahia, foi palco de uma delas. Uma multidão saiu às ruas protestando contra a alta dos preços dos alimentos. Aos gritos de “queremos carne sem osso e farinha sem caroço”, os rebeldes ocuparam a praça principal, enquanto outros grupos invadiram o Paço da Câmara e apedrejaram o Palácio do Governo. A repressão foi violenta, registrando-se “elevado número de feridos, na sua maioria atropelados pelos companheiros em fuga”. O movimento foi batizado pelos jornais da época como Revolução dos Chinelos, pois, ao “que dizem, naquela noite e na manhã seguinte, a praça e adjacências estavam coalhadas de chinelos”, como conta Manuel Pinto de Aguiar. Embora irônicas, as matérias jornalísticas alertavam para o fato de a urbanização tornara potencialmente mais ameaçadoras as revoltas contra a carestia.

  • Texto de Mary del Priore (introdução: Márcia Pinna Raspanti).
  • Referência bibliográfica: “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, da Editora Leya, 2016.

 

Revolta-em-1858

Desenho anônimo retrata o motim.

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