Pecados de confessionários

Publicado em 15 de maio de 2014 por - História do Brasil

Marciana Evangelha, moça solteira de 29 anos, no Maranhão, denunciara o jesuíta José Cardoso ao Comissário do Santo Ofício em outubro de 1753. Ela o acusara de pedir-lhe “seu sêmen”, de dizer que “a desejava ver nua” e ainda de lhe pegar “nos peitos no confessionário”. Sobre as relações do padre e a moça, sabia-se, por exemplo – e é o Comissário quem anota – que “o trazia doido e fora de si e que por ela perdia muitas vezes o sono da noite, o que nunca lhe sucedera com outra mulher alguma” e, ainda, que “por amor dela havia de sair fora da religião”. Seduzida por declarações ardentes e promessas, a moça atrapalhava-se nos depoimentos. Tanto que, passados mais dois dias, voltou novamente à presença do Comissário para declarar que o padre lhe garantira que, “se consentisse com ele lhe daria remédio para que ficando corrupta parecesse virgem e que para não conceber lhe daria também remédio”.

Românticos não eram raros. E tinham alguns como o Pe. Francisco Xavier Tavares, capaz de uma súplica cavalheiresca a Maria Joaquina da Assunção, mulher casada: “se queria ter com ele uns amores e se consentia que ele fosse a sua casa”. Outros confessores chegavam a requintes galantes, ofertando flores às suas escolhidas em pleno confessionário ou fazendo como Pe. Custódio Bernardo Fernandes que, no Recolhimento das Macaúbas, em Minas Gerais dissera a Catarina Vitória de Jesus que lhe queria bem. Mais, perguntando se ela era sua, meteu na boca um raminho, pedindo a ela que o puxasse com seus dentes.

Mas tinha, também, o avesso da história. O confessionário era tido como espaço ideal para abordagem de mulheres diabolicamente sedutoras. Na Bahia, ao receber “um escrito” amoroso da parda Violante Maria, o pároco João Ferreira Ribeiro, mandou-lhe um recado “por um mulato seu confidente” para que fosse à igreja de Santo Antonio e, acabada a missa, fosse ter com ele no confessionário. Marcaram então um encontro no caminho que ia para o lago e “lá entraram ambos no mato e teve ele acesso carnal a ela”. É dela que parte a iniciativa da conquista.

Essas atitudes parecem surpreendentes, sobretudo por virem de indivíduos que deveriam atuar como agentes de reforma católica dos costumes. Chocante? Não. As pesquisas têm demonstrado que as ideias reformadoras de católicos e protestantes só lentamente traduziram-se em efetivas mudanças de comportamento por parte da população cristã. O processo variou em seu ritmo conforme as regiões atingidas, mesmo se considerarmos apenas o continente europeu.

A exportação da Reforma Católica, para o além-mar multiplicou as dificuldades normalmente impostas a uma tarefa dessa natureza. Basta lembrar das grandes distâncias, a falta de clérigos, a precária estrutura paroquial frente a um imenso território de ocupação populacional dispersa; as peculiaridades culturais de uma sociedade híbrida, onde, despejavam-se continuamente, através do degredo, elementos desviantes da metrópole; os vícios inerentes à escravidão e ao desmedido poder local concedido aos senhores. Isso tudo atrasou a efetivação da Reforma – entendida como projeto da aculturação – na colônia. Tudo isto retardou a possibilidade dos padres serem homens acima de qualquer suspeita. Como tantos, eram feitos de carne e osso. Mais carne, até. – Mary del Priore.

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“Adão e Eva”, de Rubens.

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