Patrimônio: quando a opinião pública faz a diferença

Publicado em 6 de novembro de 2015 por - História do Brasil

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 Casa do artista plástico Henrique Bernadelli, Guapimirim (RJ). Disponível em: http://visiteguapimirim.com.br/casa-bernadelli/, acesso em 06 nov. 2015.

Por Natania Nogueira.

É muito comum alguém dizer que reclamar não leva a nada. Não é bem assim. Quando uma comunidade se mobiliza e exige do poder público uma ação efetiva, há uma boa possibilidade de que ela seja atendida. A opinião pública tem muito mais força do que muita gente imagina. Não subestimem as pequenas associações de bairro ou mesmo os comentários deixados no site de um jornal ou de uma revista.

A opinião de uma pessoa pode encontrar eco na insatisfação de muitas outras que talvez estivessem esperando apenas que alguém lhe desse voz.  E há muitos casos assim pelo Brasil, alguns com maior, outros com menor notoriedade. Boa parte das conquistas que temos hoje foi justamente resultado da mobilização de sujeitos anônimos, inconformados com a falta de iniciativa e de ação do poder público. A população deve se fazer ouvir, deve reivindicar e deixar clara quais são as suas demandas.

Acreditem ou não, o Brasil possui uma história repleta de pequenos e grandes movimentos sociais que, de alguma forma, fizeram nossos dirigentes repensarem muitas de suas ações. No que diz respeito à preservação do nosso patrimônio, a mobilização da comunidade foi e ainda é fundamental para a preservação da nossa memória e da nossa cultura. E muitos são os exemplos.

Recendentemente, tivemos uma mobilização organizada pela Associação Amigos da Casa A Elétrica, Porto Alegre, no dia 31 de outubro. A Casa Elétrica é antiga fábrica de discos e gramofones onde, entre outras coisas, foi gravado e prensado o primeiro disco de tango da América Latina, do músico argentino Francisco Canaro, também conhecido como “Pirincho” . A associação denunciou o abandono do imóvel, que já é tombado, e reivindica não apenas a reforma, mas, também, que a Casa Elétrica seja posteriormente transformada em um centro cultural.

A pressão de associações é necessária, pois muitas prefeituras, após o tombamento de imóveis, fazem tão somente a fiscalização, sendo muitas vezes necessário um grande movimento da opinião pública para garantir ações mais efetivas para preservação. Embora os governos municipais não estejam necessariamente descumprindo a lei, eles precisam ser cobrados, precisam ser lembrados de seu compromisso com as necessidades da comunidade. Não raramente, demandas populares estão na pauta de muitas gestões, que não gostam de ter seu nome associado a ações negativas ou impopulares.

A Associação de Moradores e Amigos da Barreira (AMBAR), de Guapimirim (RJ), também vem se articulando a fim de garantir a preservação de um patrimônio histórico da cidade: a casa do artista plástico Henrique Bernadelli (1858-1936). A ideia era restaurar o imóvel e transformá-lo em um centro cultural. A proposta começou a ser debatida em fevereiro e, em julho de 2015, o imóvel foi desapropriado e transformado em patrimônio público.

Por fim, darei um exemplo da minha cidade. Há cerca de dois anos, a comunidade reivindica o revigoramento do centro da cidade de Leopoldina (MG), a começar pela reforma da praça central, Praça Félix Martins, que se encontra em quase total abandono. A pressão da opinião pública resultou em um projeto de restauração que teve início nos primeiros dias de novembro do ano corrente e pretende entregar à comunidade a praça restaurada em seu formato original, que remonta o início do século XX.

Reclamar é importante, sim. E é um direito. Nossos gestores possuem seus projetos, mas precisam conhecer as demandas da população. As associações, sejam elas formadas por amigos de museus ou por moradores de um bairro, podem fazer a diferença. Podem ajudar a determinar quais devem ser as prioridades do pode público. Muitas vezes são ações de indivíduos anônimos, mas conscientes do seu papel como cidadãos, que vão garantir, por exemplo, a existência de uma praça para onde os pais possam levar seus filhos para brincar, onde um estudante possa ler um livro à sombra de uma árvore ou todos possam se reunir, numa noite quente, para ouvir a apresentação de uma banda ou a exibição de um filme.

Portanto, não se cale, reivindique, dê sua opinião. Você pode se surpreender com a quantidade de pessoas que, provavelmente, pensam como você.

 Sugestão:

Conheça a Federação de amigos de Museus  dos Amigos dos Museus do Brasil: http://www.feambra.org/detalhe.php?secao=15

 

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