PATRIMÔNIO INDUSTRIAL E MEMÓRIA SOCIAL (PARTE II)

Publicado em 5 de setembro de 2014 por - História do Brasil

Por Natania Nogueira.

Podemos encontrar na lista de bens inscritos pelo Comitê do Patrimônio Mundial na Lista do Patrimônio Mundial, da UNESCO, complexos industriais como a Paisagem Industrial de Blaenavon, na Grã-Bretanha, as Antigas Instalações Industriais de Tequila, no México, ou o Complexo Industrial da Mina Carvoeira de Zollverein, na Alemanha. São bens que representam o patrimônio industrial cujo valor foi reconhecido. Nada de castelos ou palácios, nem ruínas de civilizações antigas, mas o espaço de trabalho por onde passaram centenas, milhares de operários.

No Brasil, temos casos de preservação local desse patrimônio industrial como, por exemplo, as ruínas a Fábrica de Tecidos Cometa e sua vila operária, em Petrópolis (RJ), tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), na década de 1980, datada do início do século XX. Temos ainda  vila operária de Galópoles, em Caxias do Sul (RS), nascida em função da cooperativa de lanifício ou têxtil implantada, também, no início do século XIX. Esta última se destaca pela singularidade das construção, com casas de tijolo que remetem a vilas operárias europeias do século XIX, complexo considerado patrimônio histórico local.

Embora muitas pessoas talvez não consigam enxergar a beleza nesses espaços, nem nada que neles se assemelhe à ideia que temos sobre monumento, é bom ressaltar que não precisamos lembrar, registrar na memória, apenas aquilo que trouxe glória ou orgulho.

Se você fizer uma viagem à Itália poderá se deparar com o que restou das paredes de uma casa que foi metralhada durante a II Guerra Mundial. Na Alemanha, antigos campos de concentração nazistas são mantidos e abertos para visitação, como forma de lembrar dos horrores do holocausto. No Brasil, senzalas são preservadas para que não esqueçamos do flagelo da escravidão.

Uma vila operária que faz parte de um complexo industrial não é preservada pelo valor ou originalidade da sua arquitetura, embora isso possa acontecer, mas por ser um modo de conscientizar acerca dos efeitos no passado e no presente da industrialização. Lembrar como o ambiente fabril pode ser regulador e opressor. De como o trabalhador pode ser vítima do tão exaltado progresso.

Essa arquitetura industrial conta a história do trabalhador urbano, do imigrante que vai para as fábricas, de negros e mulatos, agora livres, que endossam a grande massa de trabalhadores, tanto nos pequenos quanto nos grandes centros urbanos. Como interesse de preservação patrimonial ela deve ser, também, objeto de educação patrimonial.

Muitas cidades possuem vilas operárias, hoje bairros que se confundem com tantos outros, onde se escondem histórias e memórias que ultrapassam o bem material. Todo esse conjunto de informações são indispensáveis não apenas para despertar o interesse pelo passado quanto para chamar atenção para o presente, para um patrimônio cultural e material das classes trabalhadoras.

Esses bairros operários, independente das motivações ou justificativas para sua construção, são espaços urbanos que preservam a memória e a história de uma classe trabalhadora que não pode ser esquecida. Cabe ao poder público determinar e garantir sua preservação. Mas para isso é preciso que a sociedade civil também se mobilize por meio de pesquisas e ações que apoiem solicitações de tombamento. A história se faz por todos os grupos, todas as classes e toda a história merece ser lembrada e contada.

 

SUGESTÕES DE LEITURA:

Carta de Nizhny Tagil sobre o património industrial. Disponível em: http://ticcih.org/wp-content/uploads/2013/04/NTagilPortuguese.pdf,  acesso em 21 de ago. de 2014.

Lista do Patrimônio Mundial em Português. Disponível em: http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/culture/world-heritage/list-of-world-heritage-in-portuguese/, acesso em 21 de ago. de 2014.

JUCA, Ana Lúcia Almeida de Oliveira, LOPES, Arzelinda Maria. A vida numa uma vila operária. Disponível em:  http://www.arquiamigos.org.br/info/info19/i-educativo.htm, acesso em 21 de ago. de 2014.

MOREIRA, Daniele Couto. Arquitetura Ferroviária e industrial: o caso das cidades de São João Del Rei e Juiz de Fora (1875-1930). Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/18/18142/tde-10092007-133334/pt-br.php, acesso em 21 de ago. de 2014.

VALE, Vanda Arantes. Arquitetura Latino-Americana da Industrialização: Juiz de Fora: 1880-1930. Disponível em <http://locus.ufjf.emnuvens.com.br/locus/article/view/2220>

 

 

VILA OPERÁRIA DE GALÓPOLES

 

Casas da vila operária de Galópolis foram construídas no estilo inglês. Disponível em: http://www.panoramio.com/photo/96361028, acesso em 21 de ago. de 2014.

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