Patrimônio Histórico e Cultural e Educação Patrimonial

Publicado em 21 de março de 2014 por - História do Brasil

Vamos falar sobre a questão da preservação. Por alguns anos fiz parte do Conselho de Patrimônio de Leopoldina. Os conselhos são compostos de representantes do poder público e da sociedade civil. Cabe a ele definir as diretrizes da política local para a proteção do patrimônio cultural e desenvolver atividades para que este fim seja alcançado. Um dos assuntos que mais levanta polêmica nas reuniões era o que deve ser listado como um bem a ser tombado e qual era a prioridade do tombamento. Sempre considerei isso uma tarefa muito difícil e que não deveria ser realizada a quatro paredes.

Apesar do Conselho de Patrimônio representar os interesses da comunidade sempre me perguntei: nós sabemos realmente o que a comunidade quer?  E quando falamos em comunidade não devemos levar em conta que uma cidade, um município, possui várias comunidades, cada uma delas com vivências específicas e interesses próprios? Estão todos eles representados ali?

Com essas inquietações, que nem sempre encontravam eco entre meus pares, fui, no ano de 2012, participar de um evento destinado ao ensino de história, o VIII Encontro Nacional Perspectivas do Ensino de História,  na Unicamp. Lá assisti a uma excelente apresentação, proferida pela professora Maria de Fátima Guimarães (USF). Essa pesquisadora trabalha com Educação Patrimonial. Na palestra ela afirmou que somos condicionados pelo pensamento dominante a acreditar que o que deve ser preservado são os símbolos da prosperidade e do progresso, como se patrimônio fosse apenas aquilo que marca a ação da elite.

A professora usou a expressão “colonização do presente pelo passado” que serve para explicar as formas como a elite local e/ou nacional (ou até mesmo grupos internacionais) escolhe o que deve ser lembrado e preservado. Vem daí o interesse pela grandeza arquitetônica do monumento. O monumento deve remeter a uma era de ouro, período que resguarda a prosperidade local, simboliza o florescimento ou a consolidação de grupos que detêm o poder econômico ou decisório. Tal como aquela história que valoriza os grandes heróis e os grandes feitos, essa forma de enxergar o patrimônio histórico e cultural, a cultura material de uma comunidade fica condicionada a um discurso dominante onde só se dá voz a uma memória que se remete ao monumento.

Assim, quando se promove o tombamento de prédios públicos, palacetes, catedrais e teatros, por exemplo, preserva-se a memória de um grupo e não, necessariamente, a memória de toda uma comunidade.  Os espaços da memória, representados pelo patrimônio histórico e cultural, seja ele material ou imaterial, são muito mais amplos. Eles podem ser encontrados nos campinhos de futebol frequentados por gerações e gerações de crianças; na bica d’água onde as lavadeiras se reuniam durante o dia e cantavam em coro enquanto exerciam seu ofício; na casa de pau-a-pique onde seu o João criou seus filhos e netos, onde a dona Francisca benzeu ao lado de seu fogão de lenha, com galhos de arruda, os filhos dos vizinhos e de pessoas das quais ela mal sabia o primeiro nome.

A memória é uma construção que segue as tendências de quem a construiu. Quem escolhe o que deve ser lembrado? Quem escolhe os nome de ruas, praças, avenidas e escolas? Essa “colonização do passado”, à qual nos referimos início do texto se faz no momento presente, por mais efêmero que ele seja. A partir dela se cria uma memória que age como agente constitutivo de uma identidade comunitária. Uma memória que nos faz valorizar o que está longe de nós, absolver valores em desacordo com o meio em que vivemos, a valorizar monumentos que nenhuma relação tem com a nossa vivência.

É preciso lembrar que o patrimônio material é formado por um conjunto de bens culturais classificados segundo sua natureza: arqueológico, paisagístico e etnográfico; histórico; belas artes; e das artes aplicadas. Eles estão divididos em bens imóveis – núcleos urbanos, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais – e móveis – coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos.

É patrimônio, também, tudo aquilo que remete à identidade, aos usos e aos costumes de um grupo. Todos estes bens, materiais ou imateriais, são depositórios da memória, uma vez que são testemunhos do passado. O reconhecimento e a valorização do património é um direito de todo cidadão, assim como o uso do patrimônio deve estar de acordo com os interesses da sociedade e não uma extensão dos interesses da elite.

Assim, tão importante quanto restaurar e preservar, por exemplo, a casa onde morou um grande poeta como Augusto dos Anjos, é necessário preservar o que restou de uma vila operária ou um tipo de construção rústica que tenha marcado determinado período da nossa história. Esses espaços da memória quando desaparecem levam consigo parte da identidade local, uma parte da cultura material de uma dada comunidade.

Presenciamos aí uma forma de colonização da memória: o que não representa a grandeza, que não marca a prosperidade da cidade e sua elite deve ser apagada. Assim, a memória de inúmeros núcleos urbanos, sejam eles grandes ou pequenos, há eras vem sendo construída a partir de um discurso que silencia boa parte da cultura popular e que nos apresenta uma amostra limitada daquilo que poderia ser o nosso patrimônio histórico e cultural. Devemos levar em conta que o discurso é uma prática social e nele está refletida uma visão específica de mundo determinada, diretamente relacionada a seu autor e à sociedade em que vive.

Temos, entretanto, um espaço onde o silêncio das camadas não privilegiadas pode ser quebrado, onde o discurso pode perder suas amarras e a memória pode ganhar um sentido mais amplo: a escola. Uma escola consciente da necessidade de se preservar nosso patrimônio histórico e nossa memória.

Mesmo que os prédios sejam demolidos a memória pode sobreviver. Por essa razão é preciso implementar nas escolas, no ensino de história em especial, a valorização do conhecimento cotidiano. É preciso falar do passado como algo vivido e que pode permanecer vivo por meio dos relatos escritos, orais, imagéticos. É preciso ensinar que tão importante quanto conhecer a vida de um grande escritor ou um grande político é guardar a memória do seu João e da dona Francisca e romper com este ciclo infindável de colonização do passado. A memória precisa encontrar sua emancipação e este processo deve começar por meio da educação. – Natania Nogueira

9708047 (1)

Casa de pau a pique. Disponível em http://wton71.album.uol.com.br/album-do-wilsonton/9708047, acesso em 17/03/2014

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5 Comentários

  1. Valéria disse:

    Ótimo texto! Bastante esclarecedor! Obrigada!

  2. Natania Nogueira disse:

    Obrigada pelo comentário, Osvaldo! Não conheço Teresópolis (só fiz uma breve passagem pela cidade em 2013), mas gosto muito de Petrópolis. Acho que a preservação, de forma geral, é muito importante e que ela é um investimento tanto na cidade quando na sua população. É claro, não é possível preservar tudo, por conta da própria expansão urbana. No entanto, sempre há uma forma de lembrar, de guardar essa memória. A preservação de uma fachada, de parte de uma parede, uma plaquinha indicativa ou explicativa, tudo isso reforça a memória a história do lugar e de sua gente. Nós precisamos de referências, de memória, para alimentar boas expectativas sobre o futuro.

  3. A sua visão é perfeita, Natania. É revoltante como a elite manipula tudo, incluindo o que deve ou não ser lembrado.
    Moro em Teresópolis mas sou apaixonado por Petrópolis (ambas na região serrana fluminense), justamente pela história e pela memória imperial que esta cidade guarda. No entanto, acho que muito mais poderia ser preservado além do minúsculo centro histórico. Você concorda?

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