Paternidade: a dor de enterrar um filho

Publicado em 13 de agosto de 2017 por - artigos

      Como os pais lidavam com a morte dos filhos, no passado? Há vários registros dessa dolorosa experiência que nos mostram as diferentes maneiras de como nossos antepassados encaravam a perda. Em seu diário, o barão de Goicana, Sebastião Antônio Acióli Lins, usineiro e político do Segundo Império, deixou páginas eloquentes sobre o fim de seu filho caçula. João Batista era epilético. As páginas anotaram cuidadosamente a reincidência dos ataques, suas fases de prostração e depois, a recuperação: o menino vestia o pequeno paletó escuro para tocar piano ou conversar com a gente do engenho. Em vão o pai percorreu o gabinete de especialistas recifenses. E recorreu a todos os medicamentos em voga. Entre eles, a homeopatia. Usou, ainda, as velhas receitas avoengas: clister de pimenta, água de flor de laranjeira ou pílulas de jalapa.

      O mesmo faz o barão de Penedo, Francisco Inácio de Carvalho Moreira em carta ao barão de Cotegipe, João Maurício Wanderley, sobre o triste fim do seu filho que viu definhar nas mãos dos grandes cirurgiões europeus. O rapaz era carinhosamente chamado pelo diminutivo, Chico e encontrava-se no Brasil, enquanto o pai estava na Europa:

       “Recebi cartas dele, e a opinião dos médicos que lá o examinaram. Ela coincide perfeitamente (talvez com um pouco para mais) com a dos principais daqui; e confesso-te que não me tranquiliza – o que eles dizem, ao contrário. […]. Se porem visses como todos o fomos embarcar em Southampton deixando-nos cheios de cuidados e de tristeza, com febre contínua, tosse, transpirações copiosas etc. – outra seria a tua impressão. Ainda bem, que tão acertada foi a ideia da viagem de mar. Enfim! Esperemos, e rezar é a nossa consolação”.

E algumas semanas depois:

Não pode estar mais gravemente doente – assim me diz o médico, que o viu partir para o Brasil. A viagem de mar deu-lhe certo vigor, como em tais casos sempre acontece; mas a sua fraqueza é espantosa e tudo nos faz recear o pior! … Enfim, Deus fará o que lhe aprouver. Já vês, pois, como devo ter o espírito neste momento”.

            Em desespero, o pai traz o filho de volta, em busca de melhor tratamento. Para tudo terminar no início de janeiro de 1877: “Acabo de receber de Menton um telegrama da minha mulher chamando-me a toda pressa para junto do meu pobre filho, que está muito mal! Parto imediatamente para lá, e nesta aflição não tenho cabeça nem tempo para escrever-te”. E concluindo a dolorosa via-crúcis: “Aqui estamos, tua comadre Arthur e eu, depois de todas as nossas desgraças e concluídas as últimas cerimônias fúnebres para com o meu pobre Chico; Fomos a Marselha levar o corpo a bordo do vapor “Savoie” o qual partiu ontem para o Rio da Prata, devendo tocar no Rio de Janeiro somente na volta o que será por 25 ou 26 de março, quando o corpo desembarcará”.

        Os funerais de crianças são relatados de forma igualmente triste. Segundo Câmara Cascudo, no Nordeste até o meado do século XX, a criança morta, o anjinho, era posto no seu caixão, coberto de flores e ficava sobre uma mesa, não numa alcova, mas na sala principal onde os amigos da família permaneciam até a hora do enterro. Durante a “guarda”, ocorria um debate poético entre violeiros e cantadores, glosando ao divino a passagem do menino para a coorte dos anjos de Deus: “Por isso cantando eu louvo, o anjinho que fugiu, deste vale só de prantos, onde a dor talvez sentiu[…] Enfeitado de bonina, o anjo para o céu subiu, um adeus dizendo ao mundo, quando a morrer se sorriu”. Vez por outra, estrondeava a roqueira no terreiro. E gritava-se: “Viva o anjo! ”. Circulavam bebidas de fabricação doméstica, o aluá de milho ou de abacaxi, o vinho de caju ou de jenipapo, a cachaça com casaca de laranja, o café bem forte. As comidas eram secas, especialmente os doces tradicionais. Nada de garfo e faca. Era refeição fúnebre, rápida, silenciosa, contrita.

            Pais choravam a morte de seus filhos. Ao perder João Carlos, seu primeiro varão, durante os conflitos que tiveram lugar na Corte em fevereiro de 1822, D. Pedro escreveu ao pai, D. João VI: “No meio da tristeza, cercado de horrores”, informava o “golpe que minha alma e meu coração dilacerado sofreram”. E, acrescentava rancoroso, “A Legião (de soldados lusos) matou o neto de Vossa Majestade”. Ele, que pouco esteve ao lado da esposa, a imperatriz Leopoldina, por conta dos tumultos que iam a curso para a expulsão do exército português do Rio de Janeiro, “chorando muito, deu o último beijo, deitou-lhe a derradeira benção paterna”, vendo-o exalar o último suspiro. A José Bonifácio solicitou que dispusesse sobre o caixão do “querido filho” um epitáfio de seu próprio punho: “emende-o se não estiver bem”, pedia.

Antes de se casar com Leopoldina, D. Pedro engravidou uma dançarina francesa. Em Recife, a moça deu à luz um prematuro natimorto. Dizia-se que o corpo embalsamado da criança foi guardado numa caixa e entregue a D. Pedro, que a mantinha no próprio gabinete. Seu filho, D. Pedro II, também teria que lidar com a perda. Em 1847, morria seu primogênito, o príncipe imperial D. Afonso Pedro, de convulsões. E em janeiro de 1850, o seu outro filho homem, D. Pedro Afonso, também falecia, terminando “sua preciosa existência na Imperial fazenda de Santa Cruz”. Nem imperadores e príncipes escapavam da dor.

          Festejar nascimentos, enterrar os filhos, mas, sobretudo encaminhá-los, essa se tornou a tarefa maior dos pais. Tal como nos séculos anteriores, cabia ao pai à transmissão de conhecimentos que iriam garantir o futuro do filho. A educação era uma obrigação paterna sublinhada permanentemente pela Igreja, retomada em outra ótica pelo filósofo Rousseau, traduzido para o português em 1822: “Como a verdadeira nutriz é a mãe, o educador é o pai”. Ele dizia que mais valia o zelo do que o talento. Que cabia ao pai transmitir deveres, não aos professores. Nunca delegar, dizia Rousseau. Delegar seria renunciar.

             Não se sabe se o barão de Goiacana lia Rousseau ou, se, somente, seguia o bom senso. Mas fazia todos os seus filhos acompanharem a administração do banguê, dirigir a roça e o plantio da cana. Na outra ponta, o pai escravo ou o lavrador ensinava ao filho a lavrar a terra apoiado nas lições que recebeu de seus ancestrais. Além disso, valorizava-se mais e mais a educação como um mecanismo de ascensão social ou de preservação do seu lugar na sociedade. O barão do Rio Branco, a serviço do Brasil na Europa, escolheu pessoalmente a escola em que os filhos iam estudar. Conta Raul do Rio Branco na biografia de seu pai: “esses pormenores podem dar ideia da maneira pela qual meu pai olhava para a questão, a seus olhos tão grave, do que deve constituir a educação dos filhos”. A Inglaterra, onde começou a carreira e que lhe inspirava a maior admiração por sua política e sociedade ficou em segundo plano. Rio Branco não aprovava “a prática de esportes” que, segundo ele, ocupava “um lugar preponderante no preparo da mocidade britânica”. Mas, não descurava de certa higiene do corpo.

                 Muita coisa tinha mudado, na segunda metade do século XIX. A 23 de outubro de 1875, o barão de Penedo, escrevia ao barão de Cotegipe mostrando que as escolhas dos filhos não cabiam mais aos pais: “Agora tenho que anunciar-te a partida de meu filho Alfredo para o Rio pelo próximo paquete de Southampton, a nove de novembro. Depois de tanto deliberar, foi afinal decidido que ele entrasse na Marinha; ele deseja essa carreira. Anda que não é de grande perspectiva não me oponho, antes acoroçoo o rapaz a que a siga. Ele é bravo, sadio, e não pode senão fazer-lhe bem a disciplina da Escola de Marinha”

         Escolhas eram possíveis, sobretudo, entre as elites, pois na mesma época, crianças eram empurradas pelos genitores para o trabalho fabril. Agora, não se tratava mais da transmissão de um ofício ou de um saber, mas do controle sobre a força de trabalho de meninos e jovens, frente às transformações das implicações sociais da industrialização selvagem. Pai e patrão se confundiam, entre os mais pobres. A família biológica tinha que ser também a família econômica. A absorção de crianças no processo de industrialização das últimas décadas do século XIX atingiu cifras elevadas. E a despeito de medidas legislativas de proteção ao menor, que proibia o emprego de menores de doze anos nas fábricas, ou o regulamento do Serviço sanitário de 1911, que proibia o trabalho noturno de menores, poucos industriais respeitaram essas disposições. Essa desobediência era corroborada por vários pais que preferiam e empurravam suas crias, para o trabalho. Os pequenos salários colaboravam para aumentar os magros proventos da família.

  • Baseado em “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, de Mary del Priore. Editora LeYa, 2016.

Cortejo fúnebre, de Debret.

 

 

 

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