Paixão, sexo e morte

Publicado em 26 de julho de 2014 por - História

O neoplatonismo do Renascimento teria sido para as elites cultas um meio de esquecer e empurrar para baixo do tapete a repressão sexual a qual elas deviam se habituar. Não se casar jamais por prazer e não casar jamais sem o consentimento daqueles a quem se devia obediência, era lei nas casas aristocráticas. O casamento era um negócio de longa duração que não podia começar sem a opinião de parentes e amigos. A bem dizer, atrás da concepção cristã do casamento, há a hebraica. Ambas preocupadas em eliminar o amor-paixão do casamento e a impor à mulher sua obediência ao marido. O marido não estava lá para fazer amor, mas para comandar. A maior parte das esposas tinha um marido que nem sempre foi desejado. Um marido que lhes era imposto, sem consulta. Um marido que era chefe e mestre, a quem mais se elas se sujeitavam do que ao seu pai e irmãos. O lugar do amor ficava sendo, portanto, a literatura. Literatura onde, ao contrário, a mulher reinava e era adorada, distribuía ou recusava favores livremente. Mas sempre dentro de um cenário onde se bifurcavam dois amores: o de fora e o de dentro do matrimônio. E o de fora, levando, invariavelmente, a dolorosas dificuldades.

No teatro elisabetano, por exemplo, quando se apresenta a ideia de um poderoso amor, ao mesmo tempo carnal e espiritual, ele se liga diretamente ao tema da paixão e da morte. Lembram-se de Romeu e Julieta? A maior parte dos autores dos Tempos Modernos, dos poetas de corte aos moralistas populares, todos bordaram, com preciosismo ou realismo, variações sobre estes pontos. Até fundindo-os. Mas há uma tônica quase permanente: o poder do amor, a atração mútua dos corpos ou o perigo representado pelos charmes femininos, e, “last, but not least”, o castigo final.

Existem, sem dúvida,  exceções. Lope de Vega, que domina o teatro do século de Ouro espanhol, dá um lugar ao amor em suas múltiplas comédias. Ele figura ao lado da busca pelo prazer, característica de seu tempo. É o prazer o elemento que permite o triunfo do casal sobre todos os obstáculos jurídicos ou humanos que se oponham ao seu desabrochar. Mas a maioria dos escritores fica com Cervantes que em suas Novelas exemplares, de 1613, prefere celebrar os amores honestos e pudicos,  mesmo os de uma pequena cigana ou de uma servente de albergue, às paixões sem freios.

Os progressos da repressão sexual tiveram algumas consequências interessantes. Uma delas foi a de levar a sociedade ocidental, em princípio condenada a respeitar a decência e o pudor, a uma obsessão erótica ligada, muitas vezes, ao culto clandestino da pornografia. O início do Renascimento expõe, sem disfarces, as virtudes do sexo assim como o charme de seus preparativos. E o faz sem cerimônias. Os aspectos carnais do amor se exprimem com franqueza radical; os poetas que buscam  sem falso pudor as alegrias do leito ou do beijo e confessam preferi-los às carantonhas de devoção  parecem, na sua sinceridade, escandalosos. Aproveitando-se da revalorização da Antiguidade, artistas variados tentavam unir a inconstância do apetite erótico com a filosofia de que era preciso viver o momento presente.

As diversas etapas do amor sensual ou do desespero amoroso, nunca foram tão bem cantadas como o fizeram, por exemplo, Ronsard e Shakespeare. São autores que celebram o êxtase nascido da satisfação do desejo. O Renascimento italiano, por sua vez, inaugurou o culto alegre e realista da licença amorosa. Em suas rimas voluptuosas, a beleza que se venera com toda a liberdade é a do Paraíso antes do pecado: “Eu te saúdo, oh, fenda rósea/ que entre estes flancos, vivamente fulguras/ eu te saúdo, ó venturosa abertura/ que torna a minha vida tão contente e feliz”. Mas a ordem moral burguesa que então se instalava, empurrava para baixo do tapete  o domínio dos escritos proibidos, o quadro de nudez e de corpos enlaçados. Enquanto a Vênus de Botticelli se despia na tela, nos quartos, os corpos se cobriam.

O paradoxo da Reforma católica foi o de coincidir, na Europa aristocrática, com os desenvolvimentos da civilização renascentista. Misticismo e pecado, normas e desregramento coabitavam na prática e nas representações. Sermões tenebrosos sobre o Juízo Final conviviam com uma literatura erótica cuja especialidade era o gênero pastoral, caro às cortes que se deliciavam em ouvir ou ler sobre amores de pastores e pastoras. Eles convidavam os espectadores e leitores a gozar o melhor de sua juventude, a viver plenamente, a beber, a comer, a folgar.  Entre céu e inferno, a aproveitar cada dia, antes que a morte os levasse. Sua mensagem era direta: terapia de alegria e de contentamento pessoal, o bom uso do sexo não dependia senão da disposição física dos parceiros.

Mas os séculos ditos “modernos”, do Renascimento não foram tão modernos, assim. Um fosso era então cavado: de um lado os sentimentos, e do outro, a sexualidade. Mulheres jovens de elite eram vendidas, como qualquer animal, nos mercados matrimoniais.  Excluía-se o amor destas transações. Proíbiam-se as relações sexuais antes do casamento. Instituíram-se camisolas de dormir para ambos os sexos. O ascetismo tornava-se o valor supremo. Idolatrava-se a pureza feminina na figura da Virgem Maria. Retomam-se os princípios tristes de santo Agostinho. Para as igrejas cristãs, toda a relação sexual que não tivesse por fim imediato à procriação se confundia com prostituição. Em toda a Europa, as autoridades religiosas têm sucesso em transformar o ato sexual e qualquer atrativo feminino, em tentação diabólica. Na Itália, para ficar num exemplo, se condenava a morte os homens que beijassem uma mulher casada e na Inglaterra, decapitavam-se as adúlteras, em Portugal, queimavam-se, em praça pública, os sodomitas.

Durante o século XVII, autores como Descartes, filósofo francês, tentam explicar a natureza exata do amor como fruto de uma emoção da alma, emoção diversa da agitação do desejo. O amor: oblação, dedicação e abandono de si. O desejo: posse, narcisismo, egoísmo. Opor a amizade terna aos prestígios da sensualidade torna-se uma obrigação. O erotismo é visto como ruinoso e não foram poucos os que tentaram sublinhar a que ponto uma paixão podia ser fatal. – Mary del Priore.

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“A Grande Odalisca”, de Jean-Auguste Dominique Ingres.

 

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