Ovos de Páscoa: da tradição ao consumismo

Publicado em 12 de abril de 2017 por - artigos

          De onde vem a tradição de presentearmos uns aos outros com ovos de chocolate na Páscoa? Costume relativamente recente no Brasil, que começou na década de 20 do século passado, veio da Europa, em especial da França, trazido pelos brasileiros mais ricos e chics. Conta-nos o folclorista Luís da Câmara Cascudo, :

         “Nas confeitarias surgem os ovos de chocolate e massa doce, e são comprados, oferecidos e saboreados com muito pouca atenção ao que possam significar. Para o interior brasileiro, o ovo da Páscoa não apareceu senão esporadicamente. A origem data pelo menos do século XIII, quando os clercs, os clérigos e os estudantes da Universidade de Paris e rapazes desocupados iam cantar laudes na porta da catedral e, depois, organizados em procissão, faziam colheita de presentes pascoais, ovos especialmente. Distribuíam-nos aos amigos, colegas, parentes, vizinhos, tingidos de azul, verde ou vermelho. Permutavam-se, nessa época, presentes, e o nome popular era ‘dar e receber os ovos da Páscoa’. Com o tempo, os ovos da Páscoa foram sendo pintados e ornados com desenhos caprichosos. O Rei de França distribuía cestas de ovos dourados nessa ocasião. Pelos séculos XII e XIII, os ovos da Páscoa serviram de motivos artísticos e alguns eram verdadeiras obras de arte”.

           Na Inglaterra, o rei Eduardo I também costumava banhar ovos em ouro e presentar seus súditos preferidos. Essas tradições inspiraram o joalheiro russo Peter Carl Fabergé, que criou os famosos e valiosos Ovos Fabergé. Os fidalgos aderiram ao modismo em vários países da Europa. Câmara Cascudo destaca que o costume de dar ovos de Páscoa espalhou-se no Brasil inicialmente nas famílias de classe social mais alta, demorando a conquistar as simpatias  do povo, em geral. “(o hábito) se mantém na sociedade abastada, amiga de imitar e obedecer os hábitos alheios”. E completa: “são atualmente e, na maioria, artificiais, de todos os tamanhos e temas, contendo bombons, joias e lembranças de vários preços”.

                     O significado desse costume está ligado ao simbolismo do ovo, como início da vida. Na cultura judaica, que celebra a saída dos judeus do Egito e a libertação da escravidão na Páscoa, o ovo é usado como símbolo do povo de Israel. Para os cristãos, a Páscoa representa a “a perpetuidade do sacrifício de Cristo e sua vitória sobre a morte”, destaca o folclorista. Cascudo ressalta também que todas as superstições ligadas ao ovo têm relação com a fecundidade e a celebração da vida. O que nos lembra um outro personagem que se tornou fundamental nessa época: o coelho. O animal também está relacionado à fertilidade. Há muitas versões que explicam a escolha do coelho como símbolo da Páscoa, mas no Brasil, a tradição foi trazida pelos imigrantes alemães, inspirada no folclore germânico.

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti
  • referência bibliográfica: “Dicionário do Folclore Brasileiro”, de Luís da Câmara Cascudo. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1962.

 

O czar Alexandre III teria encomendado a Fabergé uma joia para presentear a czarina Maria Feodorovna. Inspirado na Páscoa, ele criou um ovo de ouro e pedras preciosas.

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