Os últimos desejos da velha senhora…

Publicado em 31 de março de 2017 por - artigos

          Ela era rica, solteira, viveu de forma “respeitável” para os padrões do Brasil Império, além de pertencer a uma das famílias tradicionais do Vale do Paraíba. Mesmo assim, D. Inácia não conseguiu que fossem cumpridas suas últimas vontades. Quando morreu, a piedosa senhora quis proteger seus escravos mais queridos, deixando-lhes parte de suas terras e outros cativos como herança. Os desdobramentos dessa história nos mostram as complexas e, muitas vezes, enigmáticas aos nossos olhos, relações sociais da época. Sandra Lauderdale Graham, em “Caetana diz não” (Companhia das Letras, 2002) faz um minucioso trabalho de pesquisa para ajudar o leitor a desvendar parte dessa fascinante trama.

       Comecemos pelas aparentes contradições. D. Inácia era de uma família abastada e, entre os bens citados no inventário de sua fazenda contava uma vasta biblioteca. Mesmo assim, ela era analfabeta. Teve que ditar seu testamento ao tabelião, que depois o repetiu em voz alta. Há registros de que um filho de uma das suas escravas copiava documentos e escrevia com letra “clara e elegante”. Como diz a autora:  “O analfabetismo de Inácia era característico não somente de sua época, mas de seu gênero. Por ser menina, jamais fora escolarizada(…)Mais do que raça, condição ou classe, o gênero determinava as chances de uma pessoa aprender a ler e a escrever”.

       E o fato de não saber ler, escrever ou fazer contas acarretou complicações na hora de seu testamento ser cumprido. Sempre protegida pelos homens da família, D. Inácia não podia ter a dimensão dos custos que sua bondade traria àqueles que tentara proteger. Da forma como foi colocado o testamento, o legado se transformou em dívida, com a qual a família de sua escrava preferida, Bernardina, não tinha condições de arcar. Bernardina ganhou a liberdade com a morte de sua senhora, mas seus cinco filhos ficaram em situação ambígua, já que Inácia deixou as instruções sobre a libertação deles com o pároco, sem se preocupar em documentar tal decisão. Filhos de mãe escrava eram, pela lei, escravos também.

      Outra questão que não se pode perder de vista é a importância dos testamentos na época. Esses documentos eram parte de uma série de atitudes piedosas, que contribuía de forma fundamental para a salvação da alma. O testador aproveitava a oportunidade para fazer caridade, ajudar a Igreja,  fazer justiça a parentes, escravos e filhos ilegítimos, acertar dívidas, enfim, deixar tudo resolvido para um maior descanso de sua alma. Havia também recomendações de como deveria ser o funeral _ quem acompanharia o corpo, o número de religiosos e de pobres, a mortalha, o lugar onde o corpo seria enterrado, o número de missas e onde deveriam ser celebradas _ em alguns casos o detalhamento era minucioso ao extremo.

      As missas ajudavam o indivíduo a passar do mundo dos vivos para o mundo dos mortos. Elas podiam abreviar a permanência da alma no Purgatório ou então facilitar a entrada no Paraíso. Obviamente, os mais ricos poderiam encomendar um maior número de missas, demonstrando mais uma vez a desigualdade da sociedade, que tratava até os mortos de forma diferente. D. Inácia deixou tudo detalhadamente explicitado em seu testamento. O que poderia dar errado e impedir que suas últimas vontades fossem cumpridas?

        “O espólio não tinha como pagar tudo que devia”, explica a autora. E as dívidas passavam a ser dos herdeiros. O testamenteiro, o poderoso Barão do Pati do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck. A obra nos mostra um pouco da personalidade desse homem, que frustrou as esperançasde uma vida melhor para a família de Bernardina: com um senso de hierarquia muito forte, honesto, prático e com “pouca paciência com o liberalismo que agitava sua região”. Werneck acreditava em um mundo onde todos deveriam saber o seu lugar. Não era um senhor de escravos cruel ou sádico, mas era implacável com rebeliões e rebeldias individuais.

      Estaria ele descontente como fato de D. Inácia ter tentado impor suas vontades após a morte? A velha senhora, que morreu aos 86 anos, teria desafiado a autoridade dos homens da família com tais “bondades” em relação aos escravos? Ou Werneck achava que a família de Bernardina não sabia mais “o seu lugar” na sociedade e, portanto, não merecia receber a herança? São perguntas que ficam em nossas mentes após a leitura dessa intrincada – cheia de significados – história.

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.   

Debretmatronas

Mulheres na fazenda, Jean-Baptiste Debret.

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