Os “perigos” do banho: das palpitações às sensações pecaminosas…

Publicado em 7 de abril de 2017 por - artigos

       A chegada da água em algumas casas transformou rapidamente a vida de todos os seus moradores, dando leveza a um fardo secular. Para toda uma geração, o progresso rompia com a parcimônia, ao mesmo tempo em que as velhas tradições ditavam uma desconfiança contra os malfeitos da água e os excessos de seu consumo. Banhar-se em alguns rios, com o corpo suado, fazia adoecer – rezava a lenda. Caso, por exemplo, do Rio das Velhas, em Minas.

       As pessoas se banhavam? Em viagem à Bahia, D. Pedro II registrou em diário no dia 8 de outubro de 1853: “Vou tomar meio banho, ler e dormir”. O que era o meio-banho? O resultado se pode adivinhar: quando a educadora alemã Ina Von Binzer chegou, em 1882, ficou impressionada com o pescoço e as orelhas imundas dos brasileiros. Para essa breve limpeza eram usados jarros e bacias em prata ou pó de pedra. Sim, pois nossos antepassados tinham medo, insisto, medo do banho. Em seu lugar, o hábito de “limpar a seco”, com um pano úmido, estava disseminado em todas as classes sociais.

      Para o asseio, usavam-se receitas transmitidas pela tradição oral: o sabão feito com cinzas, por exemplo, lavava os cabelos. O uso do vinagre afastava moscas e evitava mau cheiro. Carvão e álcool clareavam os dentes. Banhos de assento com folhas medicinais resolviam problemas uterinos. Mas, atenção: higiene diária das partes íntimas podia abalar a virtude ou despertar sentimentos imperdoáveis numa mulher honrada!

        Nos anos 60 surgiram as primeiras casas de banho nas capitais. Numa delas, a Casa de Banhos Pharoux, na Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, os clientes eram interpelados por um anúncio revelador: “Venha tomar banho na Pharoux, que é do que o senhor precisa”! Em São Paulo, “A Sereia Paulista” oferecia serviços a uma clientela ainda muito desconfiada dos benefícios de uma banheira. Afinal, elas não se pareciam a “caixões de pedra e cal” onde as pessoas podiam se afogar?!  Além disso, pagar por um bem natural, a água, parecia aos possíveis frequentadores, bem esquisito.

       Temores de ordem moral rondavam igualmente as casas ou quartos de banho – nome que se dava ao banheiro. Afinal, o enlanguecimento provocado pela água quente, a nudez, o olhar para si e a masturbação eram riscos que corriam os que se banhavam com assiduidade. Daí o emprego de camisolas para senhoras e de paninhos atoalhados com os quais elas evitavam se tocar diretamente.

      Em 1867, o médico francês Merry Delabost, inventou a ducha moderna. O achado que servia originalmente para a higiene dos prisioneiros agrupados no presídio de Bonne Nouvelle, em Paris, foi exportado para cá. Quanta desconfiança despertava uma simples ducha, naquela época! Denominados “Banhos de chuva” ou “Banhos de regador”, temia-se que o jato d´água sobre a cabeça causasse palpitações. Não faltava quem, ao recebê-lo gritasse, crispando mãos e pés. Apesar dos sustos, as duchas eram consideradas um santo remédio para doenças as mais variadas. D. Pedro II, por exemplo, não passava sem as suas, tomadas no estabelecimento elegante de um francês, Antoine Court, o Imperial Estabelecimento Hidroterápico, em Petrópolis.

        Pouco acostumados a tais luxos, muitos clientes eram orientados a se comportar adequadamente em tais casas de banhos. No famoso Hotel Moreau, na Tijuca, Rio de Janeiro, um letreiro, frente à piscina, explicava: “É expressamente proibido tomar banho sem calças, no banho usar sabão, pós de dentes ou outros ingredientes”. Por isso mesmo, nos jornais da década de 70, anúncios apregoavam ter chegado de Paris, “interessantes costumes do último gosto para homens e senhoras que desejarem tomar banhos salgados, além de sólidas fazendas para resistir à água salgada”. E um adendo: a elegância dos trajos nada deixava a desejar.

        Ficar inteiramente nu era mal aceito. A partir de 1870, os banhos de rio “em trajes de Adão” passam a ser proibidos por posturas municipais. E a mentalidade austera convidava a gente brasileira a pensar a falta de banhos completos por outro prisma. “Banhos de gato”, esfregações com vinagre, lavar as mãos antes das refeições, roupas brancas limpas e perfumadas, cômodos defumados, asseguravam a autoestima e a sensação de se “estar limpo”. Ia caindo em desuso considerar-se o cheiro corporal como algo “natural”. O chuveiro se tornava, pouco a pouco e em toda a parte, uma instituição.

A cabeça, contudo, raramente merecia cuidados ficando a cargo das mulheres catar os tradicionais piolhos. Os longos cabelos femininos eram cantados em prosa e verso por poetas e dispostos em tranças ou outros penteados. Quem não possuía uma cabeça bem composta, comprava as tranças vendidas em bandejas pelas ruas. Os homens derramavam sobre os seus o perfumado óleo de Macassá.

  • Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, Editora LeYa, 2016.

 

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“Deixando o banho”, de Edgar Degas (1895).

 

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