Os engenhos do Rio de Janeiro: açúcar e cachaça

Publicado em 16 de abril de 2014 por - História do Brasil

Amanhecia. Na planície apertada entre a Serra do Mar e as praias, manchas verdes, de especial tonalidade se enchiam de sons: cigarras e pássaros acordavam a vizinhança. Eram os canaviais despertando. Comecemos pelo cenário. Engenho significava, até fins do século XIX, uma propriedade rural com cultura de cana e uma sede constituída de edifícios que serviam a fins diversos. O engenho, propriamente dito, ocupava um dos edifícios chamado de moita ou de fábrica. Sob o mesmo, normalmente se moia a cana e se cozinhava seu caldo. Instalado na parte mais baixa do terreno, aproveitava a água como força motriz. Num edifício próximo, a casa de purgar, se processava o branqueamento do açúcar. Ligados à agricultura podia haver mais edifícios destinados a estrebarias, oficinas e depósitos. Para fins habitacionais, havia a casa do proprietário conhecida como casa de vivenda ou casa-grande. Eventualmente existia uma casa do administrador e as casas de escravos, ou senzalas, e quase sempre, uma capela para culto da religião católica.

Houve engenhos em outras regiões, mas os de que falamos se localizavam na capitania do Rio de Janeiro. O início desta história começa, pois, na planície litorânea, espremida entre a acolhedora baía da Guanabara e a muralha da serra do Mar. São Sebastião do Rio de Janeiro começou se expandindo para oeste, em direção às grandes áreas planas da baixada. Junto às praias do Norte, os navios se abrigavam. Trapiches pontilhavam o Valongo, a Saúde e a Gamboa, baldeando a mercadoria para grandes naus. No início do século XVII, já se demarcam propriedades fundiárias com o nome de engenho. As casas de engenho tinham mais ou menos o mesmo aspecto: defendidas, poucas portas e janelas. A família tinha um núcleo com sala central, e diversas alcovas ao seu redor, desprovidas de janelas. Na entrada, ficavam a varanda de um lado e a capela de outro e o quarto de arreios, destinado aos forasteiros e hóspedes de passagem. Esse cômodo não fazia parte do convívio familiar nem tinha abertura para o núcleo da casa.

No século XVIII, a cidade já tinha o seu açúcar, seu algodão e produzia fumo. Em seu entorno, os canaviais iam se multiplicando, numa vaga meia lua pelas terras da várzea. Planas, tais terras da baixada eram desbravadas, se prestando ao trabalho pacato e à vida rotineira das roças. Associava-se de tal maneira o Rio de Janeiro com o açúcar que na falta de moeda na terra, no início de 1614, o governador Constantino Menelau estabelecera que se usasse o produto como moeda legal. Seu valor por arroba era de 1$000 para os brancos, 640 réis para os mascavos e 320 réis para os demais e mesmo os impostos devidos a Coroa eram pagos desta maneira.

Outro domínio dos canaviais foi a fecunda bacia de Campos dos Goitacases. No extremo norte da região, o delta do rio Paraíba se espraiava em lagoas. Ao centro, o São João e o Macaé serpenteavam por entre pantanais. Entre dunas e montanhas se alastravam banhados e alagadiços. O solo era hidratado por rios como o Pavuna, o Guandu, o Miriti, o Iguaçu, o Inhomirim, o Suruí, o Magé e outros. Entre todos, corria o ameaçador Macacu. Funda-se Santo Antônio de Sá em pleno pantanal. Seguem-se São Gonçalo, Santa Ana de Macacu e Itambi. Entre brejos, o gado dos jesuítas pastava tranquilo, em São Lourenço.

Ao sul, a baixada fluminense apresentava uma singularidade: a população circulava de uma vila a outra. Os viajantes que passavam em direção a Minas Gerais, pela antiga Estrada Geral, carregavam consigo o precioso açúcar. Em Bananal e Resende, Mambucaba e Angra se multiplicavam grandes arguadenteiros, pingueiros e rapadureiros . A pinga e a rapadura seguiam no farnel do tropeiro em direção ao sul, aquecendo noites chuvosas e dando energia para o dia longo no lombo da mula.

Ao norte da capitânia, o pastoreio inicial, deu lugar ao canavial. Pero Góes da Silveira trouxera, em 1539, a gramínea de São Paulo direto para a Vila da Rainha, terceiro lugar no Brasil onde a cana foi introduzida. De início, se plantou a caiana, a roxa, a sem pelo, a bois-rouge. A Java, mais resistente, só chegou mais tarde. Aos poucos, articulam-se os engenhos e instalam-se senzalas na região.  Ao longo das lagoas, alastravam-se os canaviais. Vigiando seu crescimento, se erguiam desde solares fidalgos até casas cobertas de folhas de palmeiras, descritas por um historiador como casas de João de barro.

Na região de Campos, São João da Barra, Magé e São Fidélis, a ocupação datava do século XVII e era marcada pela pequena propriedade. Ao final do século XVIII, Macaé já possuía 10 engenhos. Em São João da Barra, o escoamento graças à proximidade com a foz do rio Paraíba faria vicejar, com mais força, a produção. No século XIX, se formaram os grandes latifúndios campistas. Movida à tração animal, tipo trapiche, com produção ainda muito limitada, quase artesanal, com rústicas moendas, caldeiras e casas de purgar, com número reduzido de escravos, esta nascente indústria açucareira já mostrava a sua força.

O século XVIII apresenta dados concretos sobre a atividade açucareira na capitânia. Tendo como base o relatório que o Vice-Rei Lavradio deixou para seu sucessor, ficamos sabendo que, em 1778, havia no Rio de Janeiro, 320 engenhos com 11.735 escravos e uma produção anual de 4.968 caixas o que dá a média de 15, 52 caixas por engenhos. De outro lado, havia 176 engenhocas de aguardente com 1.752 escravos com uma produção anual de 2.477 pipas o que equivale a 1,35 pipas por engenhoca. Durante as crises de preços, os engenhos interrompiam sua produção além de lutar com a falta de mão de obra e de escravos, motivo, muitas vezes, até de paralisação de alguns deles.

Também a falta de bois ou de lenha os prejudicava, uma vez que o desmatamento era violento e muitas vezes, ficavam os engenhos faltos de combustível para fazer girar suas rodas e moinhos. As técnicas e os processos de produção eram as mesmas do século XVI. A produção aumentou sensivelmente a partir do vice-reinado de D. Luís de Almeida Portugal, pois segundo sua própria convicção, devia se promover agricultura. Em sua administração, nenhum navio saia vazio do porto do Rio de Janeiro. Isto, não só pelo aumento dos produtos coloniais, mas também pela abundância de gêneros novos que foram aparecendo. Entre 1769 e 1778 o número de engenhos de açúcar triplicou. Segundo alguns autores, a produção de açúcar aumentou 235% enquanto a aguardente apenas duplicou.  De 1778 a 1783, o crescimento do número de engenhos foi superior a 65%. No entanto, nos quinze anos que se seguiram, o aumento foi de aproximadamente 36%, declinando a partir de 1798 e voltando a crescer entre 1789 e 1801. A fase de 1802 a 1807 sofreu influência das guerras napoleônicas. A média anual do açúcar exportado a partir de 1772 era superior ao que enviava para a Europa a Companhia de Pernambuco e Paraíba, tradicionais centros de produção.

A ninguém que ali chegasse, nos primeiros anos do século XIX, passava desapercebida a pobreza alimentar dos campistas. Convivendo com o luxo e o fausto que lhes propiciava o dinheiro ganho com o açúcar, o cartógrafo Couto Reis, lembra as fomes nas quais mergulhavam as populações, pois, ao final do século XVIII, os canaviais ocupavam os espaços das tradicionais lavouras. John Luccock, outro viajante via, por sua vez, outros males no excesso de canaviais. Ele criticava “a paixão pelo fabrico de açúcar e cachaça, de que abundantemente bebem as classes mais baixas”.  A exportação de aguardente não apresentava a mesma regularidade que a do açúcar, exibindo, ao contrário, flutuações. A aguardente de cana, conhecida como “da terra”, era exportada para o Reino e para a África Atlântica, notadamente, Angola e Benguela. Além da demanda do mercado externo, havia grande consumo da bebida na Colônia.

Ao norte da capitânia a paisagem, segundo Alberto Lamego, era aquática. Líquida. Solto na planície, o Paraíba serpenteava por entre ilhas e coroas. As canoas, em forma de prancha, singravam na água niquelada, cruzando aves de todo o tipo – socós, Martins-pescadores, irerês, garças, mergulhões – e peixes como o mandim e o induiá. As lagoas Feia e a de Jesus, as de Cima ou das Pedras colaboravam para a paisagem xaroposa que faiscava com o bulício dos pássaros. No rio Piabanha, pacas faziam sua morada. As várzeas, por sua vez, eram limpas e vistosas. Hidratados, os canaviais se cobriam de um verde aveludado. Dominando os pântanos, os engenhos pareciam meditar sobre a perenidade das estações. – Mary del Priore.

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“Pequena Moenda de Cana Portátil”, de Jean-Baptiste Debret

 

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