Os Carnavais Cariocas no Século XIX

Publicado em 13 de fevereiro de 2015 por - História do Brasil

Por Natania Nogueira.

O carnaval pode ser considerado uma das festas mais antigas do mundo. Surgindo na Antiguidade, atravessando a Idade Média e chegando ao continente americano, ele se tornou uma das formas de manifestação cultural mais características do Brasil, cercado de histórias, de mitos, de alegorias e símbolos, que resistiram ao tempo ou se adaptaram às mudanças impostas pela sociedade, em vários sentidos. Falar da origem do carnaval em si não é o objetivo deste artigo, mas sim refletir sobre forma com que essa festa popular foi representada, por meio de imagens, muitas vezes cômicas, caricatas, como o próprio carnaval.

Estas imagens, inicialmente veiculadas por folhetins e periódicos, traduziam, pelo traço de desenhistas, a visão que se tinha do povo, do festejo e dos próprios valores embutidos nas caricaturas, nas charges e nas histórias em quadrinhos. De festa do homem simples e trabalhador, caiu no gosto da elite, em meados do século XIX, quando em salões ricamente decorados desfilavam (e desfilam) fantasias luxuosas e se permitia, ao menos uma vez ao ano, abrir mão de certos pudores. Na festa da carne, é proibido proibir, e as recriminações são abafadas ao som do samba, das marchinhas, das músicas que em cada época marcaram a alegria dos foliões.

O carnaval, no Brasil, mais especificadamente na cidade do Rio de Janeiro, foi por muito tempo um festejo que se fazia pelas ruas, quando populares se reuniam e, aos poucos, se formavam multidões de foliões. Era o entrudo, que tinha origem portuguesa e foi introduzido no Brasil provavelmente entre os séculos XVI e XVII. Consistia em um folguedo alegre, mas violento. Havia entrudos familiares e populares. Nas ruas, os homens de boas famílias se misturavam com populares, em sua maioria negros e mestiços. As senhoras tidas como honestas assistiam de longe, das sacadas das casas, e mais tarde, passaram a participar do corso carnavalesco vespertino, dento de carros, protegidas do contato com os foliões das ruas.

Corso é o nome que os passeios das sociedades carnavalescas do século XIX adquiriram no início do século XX, no Rio de Janeiro, após uma tentativa de se reproduzir no país as batalhas de flores, características dos carnavais mais sofisticados da virada do século. A brincadeira consistia no desfile de carruagens enfeitadas – e, posteriormente, de automóveis sem capota.

Foi na década de 1840 que ocorreu a separação entre a festa da rua, – popular, negra – da festa de salão – branca e segregada. Teria sido uma família de italianos do Rio de Janeiro a primeira a organizar esses bailes, à moda veneziana, com o uso de máscaras. A máscara, marcante até hoje nos carnavais de Veneza, ajudava a preservar o anonimato dos foliões, que se perdiam em meio aos salões. Nas ruas, as máscaras também eram usadas, algumas rústicas, outras improvisadas, mas sempre com o mesmo objetivo de manter o anonimato, pois, afinal, no carnaval as pessoas podiam se despir de certos pudores e cometer alguns excessos. A máscara representava uma segurança para o folião que não desejava ser recriminado durante o restante do ano pelas suas ações durante o carnaval.

A nova modalidade de carnaval – o baile particular – era considerada civilizada, mais “europeia” e menos perigosa e tinha uma peculiaridade: pagava-se para participar. Portanto, era um baile para pessoas com posses.  Já no início do século XX, o carnaval se torna uma festa mais familiar, com os primeiros matinês (bailes infantis) e com festas realizadas em casas. Aparecem também os concursos (de fantasias, tipos exóticos, etc), e cresce o prestígio das primeiras sociedades carnavalescas, que antecederam as escolas de samba. As sociedades eram clubes ou agremiações que, com suas alegorias e sátiras ao governo, encontraram uma forma saudável de competição.

 

Este modelo de carnaval carioca, voltado para as elites, foi copiado em várias partes do Brasil. O carnaval passou a ser comemorado na forma de luxuosos desfiles de Grandes Sociedades Carnavalescas da cidade do Rio de Janeiro, organizados pelos clubes de carnaval, em substituição às manifestações populares como o entrudo. Estas associações de carnavalescos utilizavam os jornais impressos como forma de divulgar suas idéias sobre o carnaval. No final do século XIX, edificava-se uma nova imagem para o carnaval no Brasil.

carnaval 1884 (1)

Entrudo na Rua do Ouvidor – Angelo Agostini (1884).

Fonte: Acervo particular de Gilberto Maringoni Oliveira. A ilustração mostra um entrudo, na Rua do Ouvidor, local onde as famílias podiam assistir, das sacadas, aos foguedos. A partir de 1906, essa prática foi transferida para a nova Avenida Central, onde famílias alugavam sacadas para poder assistir aos desfiles.

Texto adaptado do artigo: Do Império à República: o carnaval visto por meio dos quadrinhos (1869 – 1910). Disponível em: http://www.historiaimagem.com.br/edicao6abril2008/04-carnaval-imagem-hist%F3ria.pdf.

 

 

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