Os Anos Dourados: pudor e hipocrisia

Publicado em 30 de julho de 2014 por - História do Brasil

O Brasil dos anos 50 viveu um período de ascensão da classe média. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o país assistiu otimista ao crescimento urbano e a industrialização sem precedentes que conduziram ao aumento das possibilidades educacionais e profissionais. As distinções entre os papéis femininos e masculinos, entretanto, continuamente nítidas; a moral sexual diferenciada permanecia forte e o trabalho da mulher, ainda que cada vez mais comum, era cercado de preconceitos e visto como subsidiário ao trabalho do “chefe da casa”. Se o país acompanhou, à sua maneira, as tendências internacionais de modernização e emancipação feminina – impulsionadas com a participação das mulheres no esforço de guerra e reforçadas pelo desenvolvimento econômico – também foi influenciado por campanhas estrangeiras que, com o fim da guerra, passaram a pregar a volta das mulheres ao lar e aos valores tradicionais da sociedade.

Na família, os homens tinham autoridade e poder sobre as mulheres e eram responsáveis pelo sustento da esposa e dos filhos. A mulher ideal era definida a partir dos modelos femininos tradicionais – ocupações domésticas e o cuidado dos filhos e do marido – e das características próprias da “feminilidade”, como instinto materno, pureza, resignação e doçura. Na prática, a moralidade favorecia as experiências sexuais masculinas enquanto procurava restringir a sexualidade feminina aos parâmetros do casamento convencional. Neste cenário, moviam-se moças de família versus levianas, galinhas versus moças para casar vassourinhas e maçanetas. “Dar-se ao respeito” era uma palavra de ordem. “Não casar” era sinônimo de fracasso e interromper carreira, na chegada do primeiro filho, considerado normal. As esposas dos “anos dourados” era valorizada por sua capacidade de responsabilizar-se pela felicidade doméstica, “conquistando o homem pelo coração, mas, conservando-o pelo estômago”. Os casais viviam o dia a dia em mundos diferentes, partilhando poucos interesses comuns fora do âmbito familiar. Mulheres inteligentes e cultas eram incentivadas a ajudar os maridos, sem que este se sentisse humilhado. Em 1957, conselhos das revistas femininas preveniam:

“Não se precipite para abraçá-lo no momento em que começa a ler jornal”, “Não lhe peça para ir ao cinema quando estiver cansado”, “Não telefone para o escritório para discutir frivolidades”! As aventuras extraconjugais eram severamente punidas. Como a honra do marido dependia do comportamento da esposa, se ela a manchasse era colocada de lado. Já a infidelidade masculina era explicada pelo comportamento “naturalmente poligâmico” do homem. Em casa, a paz conjugal deveria ser mantida a qualquer preço e as “aventuras” consideradas como passageiras.

Os hábitos cotidianos tinham sua contrapartida no imaginário. No cinema e nas revistas, multiplicavam-se as fotos de artistas, olhos nos olhos, perdidos de “paixão”. Nas telas, os beijos eram sinônimo de happy end. Beijos se tornam mais demorados, uma verdadeira arte da sucção bucal se instala e todos a imitam. O de Regis Toomey e Jane Wyman em “You are in the army now”, de 1941, demorou 3 minutos e 5 segundos: um recorde. Beijar também passa a ser sinônimo de namorar. O carro tornou-se um substituto para os hotéis onde um casal só entrava exibindo atestado matrimonial. Mas mesmo nos círculos mais modernos, permaneciam algumas diferenças: a do namoro sério, para casar, e o outro, onde à satisfação imediata era o objetivo. Há mudanças? Sim. As pessoas começam a beijar-se, a tocar-se e a acariciar-se por cima das roupas. A anágua e a combinação, por exemplo? Obrigatórias. Mas tudo o que parecia por um fim à sexualidade culpada convivia com conveniências hipócritas, com a vergonha do próprio corpo. Nessa época, “amar” ainda era sinônimo de “casar”.

O cinema também ajudou a construir uma mitologia sobre o nu feminino nas telas.  Em Hollywood, apesar do reino da censura, Cecil B. deMille contrariou os códigos do puritanismo em “Enganar e perdoar”, em 1915 ou em “O barqueiro do Volga” de 1926. Eric Stroheim ostentou orgias em “A marcha nupcial”, de 1925 e abordou a questão do fetichismo, com a exibição da calcinha de Glória Swanson. O produtor de filmes americano, Howard Hughes criou um longa metragem para que a fogosa atriz Jane Russel pudesse exibir suas formas. O filme “O proscrito” rodado em 1941, mas cuja exibição foi retardada pela censura até 1948, foi pretexto para uma observação minuciosa da atriz. O script, em cada cena, trazia indicações precisas sobre as roupas ou lingeries que ela deveria usar. Embora não trouxesse nenhuma cena de nudez, o filme tornou-se uma referência para ilustrar a obsessão masculina pelo corpo feminino. Enquanto isso, na Europa dos anos 30, Marlene Dietrich exibia sua sensualidade sem complexos, em “O anjo azul” e o diretor tcheco Machatý, despia totalmente Hedy Lamar e mostrava-a atingindo o “êxtase”.

A partir dos anos 30, os filmes produzidos no exterior entravam no Brasil sem pagar impostos. Em 1942, dos 409 exibidos, apenas um era brasileiro. Apesar do esforço dos diretores da Cinédia, Brasil Vita Filmes ou Vera Cruz, com chanchadas, musicais românticos e dramas, as imagens que alimentavam o imaginário erótico, eram estrangeiras.

Exceção a regra foi a dançarina e naturalista Luz de Fuego ou Dora Vivacqua. Nos anos 30, ela já desfilava nos carnavais da pequena cidade de Cachoeiro de Itapemirim com fantasias mínimas e transparentes, ou biquínis improvisados com lenços. Chegou ao auge da carreira apresentando-se nua, enrolada em cobras. Na década de 50, era a atração maior do Carnaval carioca, escandalizando a sociedade por aparecer desnuda, na praia de Copacabana, em cima de um carro de sorvete. Em 1956, fundou uma colônia de nudismo, o Clube Naturalista Brasileiro, na Ilha do Sol, na baía de Guanabara. Pioneiro na América do Sul, em sua fase áurea ele chegou a ter 240 sócios, apesar dos protestos da Igreja católica. – Mary del Priore.

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Luz de Fuego: nudez escandalizando a sociedade brasileira. 

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