Obra do século XVIII relata o estado de saúde dos escravos em Minas Gerais

Publicado em 16 de outubro de 2015 por - História do Brasil

Primeira obra a retratar com detalhes e críticas as condições de saúde dos escravos no Brasil, o manual de medicina prática Erário mineral, de 1735, escrito por Luís Gomes Ferreira, é o tema do artigo publicado por Alisson Eugênio, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Alfenas, MG, em HCS-Manguinhos (vol.22, n.3, jul./set. 2015). O historiador analisa os relatos do cirurgião português sobre as doenças mais comuns no cativeiro dos escravos.

Inicialmente, Gomes Ferreira, que chegou ao Brasil em 1707, recém-formado no Hospital Real de Todos os Santos, serviu como oficial da arte cirúrgica e medicina prática nos navios lusitanos que cruzavam os oceanos entre os diversos pontos do Império português. Após residir por três anos em Salvador, estabeleceu-se em Minas Gerais, atraído pelas descobertas de metais preciosos. Lá, atuou em diversas localidades, principalmente em Sabará, Mariana e Ouro Preto, permanecendo na Capitania por cerca de 22 anos. Neste período, atendeu gente de todas as cores e condições sociais.

Em Minas Gerais, a demanda por escravos foi abundante. Entre o início da década de 1720 e meados da década de 1730, foram arrastados para o interior do país mais de 50 mil africanos. Somente em Vila Rica, o contingente de cativos saltou de 6.721 em 1716 para 20.863 em 1735. As condições de vida dessa população eram, de modo geral, muito duras. Sua jornada de trabalho era longa, árdua e frequentemente perigosa, sua moradia era precária, desconfortável e insalubre, e sua vestimenta insuficiente, inadequada e imunda. Por isso, sua vida era geralmente breve.

Os senhores não esperavam conseguir em média mais que 12 anos de trabalho dos escravos comprados ainda jovens. Era mais barato repô-los pelo comércio negreiro e extrair o máximo de sua produção com o menor custo possível do que investir nas suas condições de vida e saúde. Vila Rica registrava nos fins do século XVIII entre 50 e 66 mortes de cativos por mil habitantes – mais que o dobro da taxa de mortalidade de toda a Capitania na década de 1810, de 23,4 por mil habitantes.

Segundo Gomes Ferreira, “as enfermidades que mais comumente sucedem nestas Minas, principalmente aos pretos, são pontadas, enchimento do estômago, lombrigas e obstruções”. Explica o autor do artigo que esses quatro problemas de saúde podem ser classificados como pulmonares (pontadas pleurísticas), gástricos (enchimentos), parasitoses (lombrigas) e hepáticos (obstruções). Outros três tipos de enfermidades citados no manual são fraturas e feridas, doenças sexualmente transmissíveis e alcoolismo.

Em 1733, de volta ao Reino, o médico produziu o Erário mineral, uma coletânea de 12 tratados de cirurgia e medicina prática que sintetizam esses atendimentos e seu aprendizado em Lisboa, nos navios, no além-mar, nos contatos com sertanistas, com outros profissionais da saúde, nas obras médicas e cirúrgicas mais em voga e, finalmente, no seu estudo empírico das propriedades terapêuticas de plantas, animais e minerais por ele descobertas ou de que conheceu nos sertões mineiros. Os tratados expressam também a capacidade de seu autor de combinar a tradição médica ocidental com saberes populares para cura, construindo uma medicina marcada pela fusão de culturas terapêuticas de povos e comunidades diferentes.

No artigo Relatos de Luís Gomes Ferreira sobre a saúde dos escravos na obra Erário mineral (1735), Alisson Eugênio também destaca as críticas do cirurgião português às relações sociais escravistas, ao fazer advertências aos senhores que descuidavam da saúde dos seus escravos fundamentadas na moral religiosa católica e no ideário jesuítico.

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Leia em HCS-Manguinhos:

Relatos de Luís Gomes Ferreira sobre a saúde dos escravos na obra Erário mineral (1735)artigo de Alisson Eugênio (vol.22, n.3, jul./set. 2015)

Suplemento Saúde e Escravidão (vol.19  supl.1 dez. 2012)
Treze artigos do suplemento temático revelam como viviam, adoeciam, eram curados ou morriam os escravos e libertos no Brasil.

Sobre escravos e genes: “origens” e “processos” nos estudos da genética sobre a população brasileira. Artigo de Elena Calvo-González (vol.21, no.4, dez 2014)

FONTE: “Obra de 1735 revela mazelas dos escravos em Minas Gerais”. Blog de História, Ciências, Saúde – Manguinhos. [viewed 13 October 2015].

Veja o material completo em: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/obra-de-1735-revela-mazelas-dos-escravos-em-minas-gerais/

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Acervo: Museu da Justiça.

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