Objetificação feminina: as bundas não têm rosto!

Publicado em 21 de novembro de 2015 por - temas atuais

Salvador dia 16 de novembro: a convite da Rádio Metrópole e do jornalista Mário Kertész fui lançar meu último livro, “Beije-me onde o sol não alcança” e conversar sobre História, na Livraria da Travessa do Shopping Salvador. Mário, é bom que se diga, é dos poucos jornalistas que mergulha fundo nos livros de história e os discute com a atenção de quem leu e gostou!

O carinho e entusiasmo da sala lotada me convidaram a falar de um assunto que muito me impressionou. Estávamos fechando a semana em que milhares de mulheres empunharam bandeiras e saíram às ruas manifestando sua indignação contra a violência, o feminicídio, as proibições que cercam o aborto. O assunto fez as manchetes do país, denunciando o ódio e a violência que alimentam o machismo, o racismo e a homofobia.

Pois, naquele mesmo dia, ao abrir pela manhã, o venerando jornal A Tarde, me deparei com imagens que faço questão de publicar (no final do post). Não à toa, dizem que uma imagem vale mil palavras. Antes de comentá-las, porém, uma breve história deste tradicional diário. O A Tarde é um diário que circula na Bahia desde 15 de outubro de 1912. Fundado por Ernesto Simões Filho, é o mais antigo jornal baiano em circulação e um dos mais antigos do Brasil. Simões Filho, nasceu na cidade de Cachoeira, no Recôncavo, em 1886, e mudou-se para Salvador aos 14 anos, onde produziu seu primeiro jornal, O Carrasco. Em 1907, formou-se em Direito pela então Faculdade Livre de Direito da Bahia, consolidando sua paixão pelo jornalismo com A Tarde, ao qual se dedicou de modo intenso até sua morte, em 1957, com 71 anos.

Ao contrário dos seus contemporâneos baianos, A Tarde não teve seu capital aberto, mas foi montado exclusivamente por Simões Filho. As inovações foram percebidas na edição de lançamento, que trazia, na primeira das quatro páginas, títulos com letras grossas e subtítulos explicativos. A quarta página era toda preenchida por anúncios, que também apareciam entre as notícias na segunda e terceira, porém, cercados por grossas linhas pretas, diferenciando-os dos textos editoriais. Outra inovação? Na seção “Sport“, o texto de abertura trazia a assinatura de Hellenus, pseudônimo de Helena Simões, sua esposa, uma exceção na Bahia da época, onde os jornais dedicados às mulheres eram geralmente escritos por homens, com histórias morais, receitas e folhetins.

Junto às novidades gráficas, A Tarde introduziu a venda do espaço para publicação de informações de interesse privado, chamando tais anúncios de “populares”, precursores dos atuais classificados. A proposta chocou os demais órgãos de imprensa, acostumados à cessão gratuita do espaço a seus anunciantes. O então diretor do jornal Manhã, Antônio Marques dos Reis, durante uma discussão, chamou Simões Filho de “jornalista de balcão” por cobrar pela publicação de informações. Desprezando as ideias de modernização, o proprietário de A Tarde recorreu ao tradicionalismo para resolver a questão. Em seu depoimento à polícia, Simões explicou: “Poderia tê-lo alvejado em lugar mortal. Mas como ele tentava fugir depois de proferir a ofensa, atirei-lhe nas nádegas para que ficasse gravado, como um estigma, na região glútea, o sinete do covarde”.

Lembrança ou não do episódio passado, as “nádegas” ocupam hoje as páginas inteiras de anúncios populares de A Tarde. Imensas, gordurosas, qual quartos de vacas ou garupas de éguas, chocam, pois elas são só isso: um traseiro, uma bunda, um pedaço grotesco de carne! Suas donas não têm rosto. Despersonalizadas, oferecem seus corpos como animais: de costas.

Ora, um rosto é o que faz de cada um de nós alguém singular e insubstituível. Um rosto, dizem os filósofos, é uma via em direção ao invisível. É uma realidade efetiva graças a qual nos reconhecemos. Um rosto se lê, se ouve… Ele é significativo de nossa humanidade. Ele é sentimento. Na vida social, todos estamos num face a face. A negação do ser humano passa pela recusa de lhe acordar a dignidade de um rosto.

Bestializados, os corpos dos anúncios parecem lembrar que há dois Brasis. Aquele em que mulheres buscam respeito e reconhecimento. E outro, em que as mulheres preferem não ter rosto e nem mesmo um corpo. Apenas, “ser uma bunda”. Me pergunto: onde estão as baianas que além de rosto, tem cabeça? As descendentes das Barral, das Catarinas Paraguaçu, das Marias Quitérias e Joanas Angélicas, das Anas Nery, das Helenas e Reginas Simões, e tantas outras que, pioneiramente, nos ensinaram a levantar a cabeça e não curvá-la, como se vê aí. Oxente, gente, vamos reagir!  – Texto de Mary del Priore.

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