Obesidade, ócio e saúde

Publicado em 10 de dezembro de 2015 por - História do Brasil

Vivemos em uma época em que o horror à gordura, principalmente feminina, é um imperativo. Saúde, beleza e magreza são vistos quase como sinônimos. Há poucos meses uma atriz veterana declarou não gostar de mulheres gordas e que elas lhe provocariam “repulsa”. Houve repercussão negativa, é claro, mas muita gente elogiou a “sinceridade” da celebridade. A gordura está associada a uma série de características negativas: preguiça, gula, desleixo, falta de amor próprio e de força de vontade. Infelizmente, o preconceito com as pessoas obesas vem de longa data. Já no século XIX, surgiam os cruéis julgamentos. 

 

A obesidade, fantasma do final do século XX, já provocava, no XIX, interjeições negativas. Sobre as baianas, “os maiores espécimes da raça humana” dizia um estarrecido viajante, essas pesavam mais de 200 libras e andavam  “sacudindo suas carnes na rua, e a grossa circunferência de seus braços”. As mulheres brancas eram descritas como possuidores de um corpo negligenciado, corpulento e pesado, emoldurado por um rosto precocemente envelhecido. As causas, explica Quintaneiro, eram várias: a indolência, os banhos quentes, o amor à comodidade, o ócio excessivo desfrutado numa sociedade escravista ou recém-saída desse sistema, o matrimônio e a maternidade precoces, as formas de lazer e de sociabilidade que não estimulavam o exercício físico, o confinamento ao lar impregnado de apatia onde prevalecia o hábito de “desfrutar de uma sesta, ou cochilo depois do jantar”, como explicava James Henderson em 1821.

Apesar do declarado horror à obesidade, os viajantes reconheciam que o modelo “cheio”, arredondado, correspondia ao ideal de beleza dos brasileiros, o que explicavam pela decorrência do gosto de seus ancestrais. Gorda e bela eram qualidades sinônimas para a raça latina meridional, incluídos ai os brasileiros, e para explicar essa queda pela exuberância, era invocada a influência do sangue mourisco. Dizia-se que  maior elogio que se podia fazer a uma dama no país era estar a cada dia “mais gorda e mais bonita”, “coisa – segundo o inglês Richard Burton, em 1893 – que cedo acontece à maioria delas”. Gordas quando mocinhas, ao chegarem aos trinta anos já eram corpulentas, incapazes de seduzir o olhar dos estrangeiros. A que em jovem possuíra formas longilínias, breve seria volumosa e pesada senhora. “O leitor pode notar, nessas moças vestidas de preto da cintura para cima, um contraste com a gorda matrona que a segue”, queixava-se Daniel Kidder.

Alguns viajantes, atribuíam a palidez e o desmazelo das moças à severidade com que eram tratadas pelos pais e maridos, sendo mantidas muito segregadas da vida social – situação ainda mais grave no interior onde passavam às vezes meses e meses encerradas entre quatro paredes sem aparecer às janelas. A sujeira e o desleixo que diziam testemunhar provocavam, segundo eles, violentas deformações físicas. As mulheres brancas, ainda que em geral bem tratadas, levavam “uma vida estúpida, fechadas para o mundo em seus quartos escuros” e por esse motivo, pareciam, também descoradas e doentes, queixava-se Herbert Smith em 1879. Mesmo mulheres mais jovens não deixavam de exibir no rosto uma tonalidade amarelada, desagradável e enfermiça. Um certo Gaston, em 1867, queixava-se que “existia uma marcada deficiência de beleza” por parte daquelas que estiveram sob sua observação. Seu diagnóstico, depois de assistir a uma missa em Paranapanema era de que a “grande maioria era absolutamente feia”! A pá de cal veio, na mesma época, de um certo Ulick Burke. Para ele, beleza física feminina era coisa inexistente no Brasil!

No início do século XX, regime e musculação começavam a modelar as compleições longilínias e móveis que passam a caracterizar a mulher moderna, desembaraçada do espartilho e ao mesmo tempo, de sua gordura decorativa.  As pesadas matronas de Renoir foram substituídas pelas sílfides de Degas. Insidiosamente, a norma estética, afirma Philippe Perrot, emagrece, endurece, masculiniza o corpo feminino, deixando a “ampulheta” para trás.Não se associava mais o redondo das formas, – as “cheinhas” – à saúde, ao prazer, á pacífica prosperidade burguesa que lhes permitia comer muito, do bom e do melhor.

A obesidade começava a torna-se um critério determinante de feiura, representando o universo do vulgar, em oposição ao elegante, fino e raro. Curiosamente, esbeltez e juventude se sobrepõem. Velhice e gordura, idem. “É feio, é triste mesmo ver-se uma pessoa obesa, principalmente se se tratar de uma senhora; toca às vezes as raias da repugnância” advertia a Revista Feminina, em 1923. A gordura opunha-se aos novos tempos que exigiam corpos ágeis e rápidos. A magreza tinha mesmo algo de libertário: leves, as mulheres moviam-se mais e mais rapidamente, cobriam-se menos com vestidos mais curtos e estreitos, estavam nas ruas.

– Texto de Mary del Priore. 

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“A Banhista”, de Degas; e as ágeis bailarinas de Renoir.

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