O viagra dos nossos avós

Publicado em 22 de novembro de 2013 por - História do Brasil

A impotência masculina foi desde sempre um pesadelo na sociedade patriarcal brasileira. Considerada verdadeira maldição, ela promoveu profundo sofrimento, quando não situações de humilhação entre os homens. Ao longo de séculos não faltaram indicações, na poesia e na literatura, do sonho de ereções permanentes, mostrando que a obrigação da virilidade já estava profundamente arraigada à nossa cultura.

            Para combatê-la, nada melhor do que os afrodisíacos. Mas por quê tanta ansiedade? A potencialização da chamada “obra de Vênus” tinha função explícita: restaurar o arsenal sexual do amante e excitar o apetite viril. Afinal, o “crescei e multiplica-vos” era obrigatório. Estava na Bíblia. Era papel do homem, garantir esta operação. Um breve papal, datado de 1587, definia a impotência masculina como um impedimento público ao sacramento do matrimônio. Os processos contra “maridos frígidos” foram legião na Europa entre os séculos XVI e XVIII e não faltaram julgamentos públicos, nos quais os homens tinham que fazer, semi-nus, “exames de elasticidade” ou ereção.

            Na América portuguesa, as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, impressas em 1720, fonte de regulamentação moral no período colonial, não deixava dúvidas: a impotência era causa de anulação matrimonial. Daí a importância dos chamados “filtros de amor”, poção mágica que levou Isolda aos braços de Tristão e que tinham por objetivo, evitar as falhas.

Portugal foi a porta de entrada desses produtos. O pequeno reino se constituiu na placa giratória que distribuía especiarias de luxo, vindas do Oriente. Perfumes vindos tanto da China quanto do sub-continente asiático, além dos saberes fitoterápicos vindos da América, se uniam para a realização de filtros capazes de resolver casos de impotência. Um dos mais notáveis cronistas a perceber  a importância dos afrodisíacos foi Garcia da Orta, estudioso da farmacopeia oriental. Ele não apenas menciona a cannabis sativa, banguê ou maconha, mas exalta, igualmente, as virtudes do ópio. Fundamentado em sua convivência com os indianos, Orta sabia que o ópio era usado para agilizar a “virtude imaginativa” e a retardar a “virtude expulsiva”, ou seja, controlar o orgasmo e a ejaculação. Além destes dois produtos, Orta menciona o betel, uma piperácea cuja folha se masca em muitas regiões do Oceano Índico, lembrando sobre o seu uso que “a mulher que há de tratar amores nunca fala com o homem sem que o traga mastigado na boca primeiro”.

Nem todas as especiarias conhecidas eram consideradas afrodisíacas. Apenas  o açafrão, o cardamono, a pimenta negra, o gengibre, o gergelim, o pistache e a noz moscada. As outras substâncias com a mesma e poderosa reputação eram o âmbar e o almíscar, produtos até século XVI, de origem desconhecida, na Europa.

Os produtos exóticos descobertos nas novas terras abordadas pelos europeus, incluíam os animais africanos. O rinoceronte, denominado alicorne, proveniente da Guiné, tinha o chifre comercializado devido a sua reputação de afrodisíaco – o que ocorre, aliás, até hoje. Outro animal de uso mágico sexual era a pomba do mato ou yoroti.”: “quando o macho morre, não se torna a fêmea a casar e quando a fêmea morre não se torna o macho a casar […] os negros os dão de comer as suas mulheres para não terem conversação com outro homem”, explicava Garcia da Orta.  O uso analógico de certas plantas ou animais, em que se busca obter suas mesmas virtudes e propriedades, era comum. Animais fiéis ao parceiro, ingeridos, induziam à fidelidade.

O primeiro observador encarregado de fazer um relatório de história natural do Brasil, o holandês Guilherme Piso registrou também, embora mais discretamente, algumas plantas afrodisíacas. Segundo ele, tanto “a bacoba quanto a banana se consideram plantas que excitam o venéreo adormecido”. Sobre o amendoim registrou: “os portugueses as vendem diariamente o ano todo, afirmando que podem tornar o homem mais forte e mais capaz para os deveres conjugais”.

Nas obras publicadas na Europa sobre plantas vindas dos Novos Mundos – Ásia, África e América – aparecem espécimes sob a rubrica “amor, para incitá-lo”. Dentre tantas conhecidas se destacam a hortelã, o alho-poró e a urtiga. Outras, ainda, aparecem sob rubricas como “jogos de amor” ou “para fortificação da semente”, leia-se, do sêmen. Em 1697, um destes livros menciona dezenove substâncias, muitas delas extraídas do reino animal: genital de galo, cérebro de leopardo, formigas voadoras. Entre as substâncias vegetais encontram-se a jaca,  as orquídeas e os pinhões. Já para diminuir os “ardores de Vênus”, deusa do amor, menciona-se do chumbo ao mármore e deste ao pórfiro, cuja frigidez, quando aplicados sobre o períneo ou os testículos, diminuíam o ardor. No sumário de alguns herbários existem entradas que bem mostram os efeitos destas descobertas:  “induzir a fazer amor”, “incitar a jogos de amores”, “fazer perder o apetite para jogos de amores” e “sonhos venéreos quando se polui sonhando”, “substâncias úteis para excitar o jogo do amor ou para as partes vergonhosas”.

No item de receitas próprias para “engendrar e facilitar a ereção e o coito”, as ostras, o chocolate e cebola eram apreciadíssimos, assim como a alcachofra, a pêra, os cogumelos e  as trufas. O médico de D. João V, Francisco da Fonseca Henriques, em seu livro Âncora Medicinal, de 1731, cita ao menos cinco plantas,  – a menta, o rábano, a cenoura, o pinhão, e o cravo – atribuindo-lhes o dom de “provocar atos libidinosos e incitar a natureza para os serviços de Vênus”. Segundo ele, uma dieta casta devia evitar alimentos  quentes, fortes e condimentados, aliando-se a tal cardápio outras terapias tais como banhos frios e aplicações tópicas de metais. O chocolate, anteriormente usado até durante o jejum católico, começou a sofrer a ser condenado por provocar excesso de calor. Em seu lugar, surgiu a louvação anti-erótica do café, cuja adoção reflete um novo espírito casto e produtivista.

Os portugueses estiveram cara a cara com uma ars erótica que usava e abusava de afrodisíacos. Dela, contudo, só levaram para Portugal a possibilidade de ver em tudo, pecado ou doença! Eis porque a partir do século XVIII, se recomendam, cada vez mais, os anafrodisíacos. Definindo-os como “aqueles remédios que ou moderam os ardores venéreos ou mesmo os extinguem, os herbários registram substâncias cuja função era, basicamente, esfriar o desejo. É o caso do agnus castus, ou agno-casto,  a mais eficaz das plantas anti-eróticas que “recebe o seu nome porque ele torna o homem casto como um cordeiro porque ele reprime o desejo de luxúria”. Existiam várias outras substâncias com a mesma reputação de esfriar ou anular o desejo, como a cânfora, por exemplo: “Por sua frieza a cânfora condensa os espíritos e espessando-os, os retém no corpo”. Havia anafrodisíacos que agiam “espessando a semente”, tornando-a, portanto, mais difícil de escorrer. Nessa categoria encontramos as sementes de alface, de melancia, de melão”. Outra categoria era constituída por substâncias que consumiriam “espíritos do corpo e semente” como arruda, cominho e aneto.

            O uso excessivo de afrodisíacos levou ao aparecimento de “doenças” de origem sexual: a erotomania ou melancolia amorosa foi uma delas. Mal moderno, que atingia homens e mulheres preocupados com a impotência, curava-se com sangrias abundantes, nos braços, pés e atrás das orelhas. Dietas eram obrigatórias e nelas se excluía tudo o que fosse “quente”. Provocando inchamento no rosto, batimentos no coração, sufocações, raivas, furores uterinos, satiríases e outros “perniciosos sintomas”, uma tal “febre amorosa” era combatida com banhos gelados ou dormindo sobre tábua dura.

            Por outro lado, os estéreis e frios podiam sofrer de impotência perpétua ou temporária. A crença generalizada que explicava tais bloqueios era a “maldade do demônio”. Demônio capaz de ligar, por arte satânica, as partes sexuais, incapacitando-as para seus movimentos naturais. E neste caso, pouco importava as explicações médicas, mais valendo a simbologia de afrodisíacos de uso tradicional.

            O comer “pegas assadas e cozidas”, ave corvídea também conhecida por pica-pica, como ajudava! “Ir urinar num cemitério pela argola da campa de uma sepultura” era outra recomendação. Untar o membro com “água que cair da boca de qualquer cavalo”, tinha eficácia garantida!

            Tanto em Portugal quanto na América portuguesa vivia-se na crença de poderes demoníacos sobre o corpo e a sexualidade. Eis porque as já citadas Constituições do Arcebispado da Bahia mencionam a “impotência por arte”, referindo-se àquelas do astucioso Satã.. “Inimigo da salvação das criaturas”, o Demônio tinha que ser rechaçado com defumações “das partes vergonhosas com os dentes de uma caveira”, pendurando galhos de Artemísia à porta de casa ou “passando esterco” da pessoa amada no “sapato direito”. Para aqueles que quisessem tão-somente conjurar os riscos do malefício, vivendo em amor pacífico, recomendava-se ao marido “trazer consigo o coração da gralha macho, e à mulher o da gralha fêmea”. E, finalmente, para aqueles que quisessem testar suas sinceras afinidades, uma fórmula que conciliava: pós de andorinhas vivas em uma panela a torrar no forno, dadas a beber em vinho.

            O contato com os índios na América portuguesa levou ao emprego do fogo nos procedimentos de cura. Homens, cuja impotência causava –lhes vergonha e dissabores, untavam o escroto e a região pública com sebo de bode, “sentando-se sobre brasas vivas”. Provavelmente, de tal prática, nasceu a expressão “estar sentado em brasas”. Garrafadas á base de catuaba, largamente utilizadas até os dias de hoje, também decorrem dos empréstimos aos conhecimentos fitoterápicos dos tupis-guaranis.

            Diferentemente de hoje, quando a pílula azul – o Viagra – tornou-se assunto de medicina pública, nosso antepassados encaravam a impotência com profundo temor: medo do maligno, medo de feitiços, além do preconceito em sociedades tradicionais onde o “crescei e multiplica-vos” era lei. Buscava-se, então, toda a sorte de simpatia, remédio analógico ou mezinha milagrosa capaz de combater um mal ameaçador para a capacidade de reprodução de homens e mulheres. Resta saber se no entusiasmo com que se recebeu o Viagra não restam, ainda, traços desta maneira de pensar.

 Mary del Priore

 

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1 Comentário

  1. Osvaldo Guarilha disse:

    Muito divertido este artigo. Sempre gostei dos termos e expressões usados no passado. Lendo há alguns anos o livro “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, diverti-me com a expressão “partes pudendas”. Apesar do acesso à informação e à tecnologia, o homem do século XXI também teme o fantasma da impotência.

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