O velho imperador e a Proclamação da República

Publicado em 15 de novembro de 2015 por - História do Brasil

Manhã de 15 de novembro, Petrópolis: a serra se despia da neblina. Tudo era frescor, calma e tranquilidade. A temporada de verão, com seus bailes de caridade e leilões de prendas beneficentes no Palácio de Cristal, não começara ainda. As hortênsias cresciam no parque do palácio sob os olhos do homem que um diplomata descreveu como: “alto, um tanto grosso, de barba longa e basta, já branca, passos lentos, finas maneiras… trajava habitualmente, desde as primeiras horas da manhã, casaca preta. Na lapela, brilhava o “Tosão de Ouro”, condecoração excepcional ligada às Cruzadas contra os mouros, e da qual dizia-se ter pertencido ao imperador Carlos V. Bem cedo, ele deixara as salas mobiliadas modestamente, com paredes caiadas e móveis de assento de palhinha. Saía para suas duchas matinais, no estabelecimento fundado por um francês na rua Nassau. Era o remédio ideal para a artrite que o dobrava de dor. Mas não só. Banhos eram sinônimos de limpeza exemplar. Limpeza com a finalidade, segundo os médicos, de reforçar os recursos orgânicos. Limpeza legitimada pela ciência: era preciso se lavar para melhor se defender. O resultado não só o deixava mais limpo, mas, era moralmente eficaz. A ducha afastava micróbios não vistos a olho nu. Ao acelerar a oxigenação, ela favorecia a destruição dos males. Ao facilitar a combustão, agilizava as imunidades, caçando, como um perdigueiro, as bactérias nocivas. Necessário tonificar o organismo, trabalhar os músculos, acelerar a circulação do sangue, ativando energias. Afinal a pele respirava participando da defesa química do corpo. A água lavava e levava também os maus pensamentos. Assim como as máquinas exigiam a limpeza frequente de suas engrenagens e a eliminação das escórias, também o corpo humano, uma máquina tão delicada, carecia da expulsão regular de dejetos. A sujeira entre outros.

Os banhos: a água escorrendo sobre a pele, o sabão de Houbigant misturando seu odor ao dos cremes e talcos: uma sensação. Gestos simples e íntimos repetidos no cenário anônimo, copiado das duchas populares em uso em Paris. O chão liso de cimento e zinco, o jato de água dirigido sobre o corpo. Nada de banheiras ou alongamento dentro da água. Era uma ducha sanitária como tantas que se multiplicaram na França, durante o mesmo século. Nus, os homens passavam em fila. Era o chamado banho de chuva, absolutamente funcional. Lá ou cá na serra, se homenageava a Louis Pasteur, sob os jatos e chicotes d´água, assim como à sua teoria germinal das doenças infecciosas. Pasteur, seu amigo a quem visitara em Paris e que mantinha um busto dele, o imperador, no escritório.

Limpo e fortalecido ele deixava os banhos. No caminho feito a pé, o velho senhor cumprimentava os passantes com um gesto cortes. As crianças o rodeavam. Ganhavam moedinhas com a sua efígie. No dia anterior estivera na Corte, para assistir ao concurso da cadeira de inglês no Colégio Pedro II. Assistir a concursos era um dos seus hábitos. Será que dormitara, mais uma vez? Sentia tanta e tão incômoda sonolência. “Andar assim caindo de sono e dormindo em pé cansa o cérebro e V. deve cuidar mais na sua saúde”, dizia-lhe sua amada amiga, a condessa de Barral. Cansado ou não, não vira qualquer sinal de tumulto. À noite se debruçara sobre estudos da língua tupi, que julgava, – segundo escreveu a Teresa da Baviera, sua prima – ter relações com as línguas asiáticas. Tudo calmo. Por isto mesmo, ignorou o telegrama que lhe foi entregue por seu criado particular, ao se levantar. Nele, Ouro Preto o tranquilizava. Sim, algo estava acontecendo de anormal, mas, o presidente do conselho de ministros ia tomar providências para conter os insubordinados e fazer respeitar a lei.

D. Pedro II refletiu: não seria a insubordinação de uns poucos que o faria descer a serra. Mas intuição ou não, na saída da Casa de Banhos, o Imperador andou até a estação onde perguntou se poderia obter um trem em caráter emergencial. “- Sim, Vossa Majestade”, respondeu-lhe o funcionário. Ás onze horas, chega-lhe outro telegrama. O segundo. Ouro Preto lhe participava a destituição do ministério pela tropa revoltada. Alarme. “ –Vim ao Rio para que se resolvesse o que fosse aconselhado” – diria D. Pedro, mais tarde. Tomou, então, o trem com a imperatriz, serra abaixo.

Já dentro do vagão, da ampla janela de vidro, o imperador descortinava os tons cor de rosa do fundo da baía de Guanabara. A Coroa do Frade e o Escalavrado, longa aresta livre de vegetação tal como o dorso de um animal pré-histórico, deslizava para trás na paisagem. O resfolegar da locomotiva Baldwin embalava seus pensamentos pelos 15,9 quilômetros de estrada, construída pelo barão de Mauá, que o levaria rapidamente até a Guia de Pacobaíba e de lá, em ferry, até a Corte.  Ao ritmo da moderna estrada de ferro, tentava ordenar os pensamentos. “Nós dormimos sobre um vulcão…os senhores não percebem que a terra treme mais uma vez? Sopra o vento das revoluções, a tempestade está no horizonte”. De quem eram estas palavras? Ah, sim… De léxis de Tocqueville, anunciando as revoluções republicanas na Europa. Mas elas teriam, finalmente, atravessado para estes lados do Atlântico?  A melancolia descia sobre o seu semblante, enquanto a neblina subia dos grotões verdes, sugada a esta hora do dia, em direção ao céu. Com a larga testa encostada no vidro ia pensando: “Pedro Banana”, “Pedro Bobeche”, “Pedro Caju”, “o César caricato”. “Aquele que era senhor de um império e que hoje não é nem senhor de si”, acusou alguém num discurso na Câmara. A imprensa andava impossível. As caricaturas eram implacáveis. Circulavam na Corte cerca de meia dúzia de jornais satíricos, semanais, que vendiam até 10.000 exemplares. Revistas, então? Mais de vinte. A Ilustrada vivia até de assinaturas! As sátiras eram um ultraje que suas ideias liberais tinham que suportar.  Não se reconhecia nas imagens do velho dorminhoco, do barbudo a olhar as nuvens por uma luneta, distante da realidade. Mesmo seu interesse pelas línguas mortas, a arqueologia, a astronomia, a literatura comparada, ciências que o colocavam entre os grandes do Velho Continente eram motivo de riso junto com suas pernas finas e voz estridente. Bem que a Barral o prevenira. “Quanto aos escandalosos folhetins, isso deveria levar a chicote e se um dia não se punir severamente libelistas, não sei onde irá parar a realeza”? Houve ainda um mau presságio, um aviso: ao abrir este ano o parlamento, ao se sentar no trono o cetro lhe caiu das mãos. Ele ouviu alguém dizer, “Foi a primeira vez que isto aconteceu”. Mas ouviu também a resposta: “Será também a última que lhe acontecerá”.

E para aonde iria a realeza? Teria ele errado? Fizera mal em voltar à Europa pela terceira vez, deixando Isabel como Regente? E o detestado genro, o “corticeiro”, “o agiota sem berço”, dono de casas de pensão, segundo acusavam os boatos? Ora bolas, ele, o Imperador do Brasil, estava anêmico. Queria tratar-se com Charcot. E por falar no sábio francês, o quê fazer com o neto Pedro Augusto? Ele o preocupava tanto. Daria ele um sucessor à altura? E as vezes que o encorajara a se tornar Pedro III, o que fazer com tais promessas? Mas, e os sintomas que presenciara, seriam sinais da terrível maldição dos Bragança?

Ao se dirigir para a estação, arrancada do cotidiano modorrento da cidade serrana, sua esposa Teresa Cristina repetia, entre desconsolada e patética, que estava tudo perdido. Por isto mesmo, trouxera suas joias consigo. Lembrava-se, com certeza, do triste fim dos Bourbon-Sicília e de seu irmão, Ferdinando II, de alcunha, “o Bomba”, – bomba por tudo o que destruiu na cidade de Messina quando Garibaldi a invadiu, atrelando o pequeno reino à recém nascida Itália. O som das metralhadoras, as camisas vermelhas, a longa guerrilha, os fogos acesos pelos rebeldes nas colinas, enfim, todas as lembranças e informações vindas por cartas e jornais estrangeiros alimentavam seu medo. O marido tentou acalmá-la: “ –Qual, senhora, chegando lá isso acaba”.

E o que era “isso” que tinha que acabar? Os dois últimos decênios tinham fervido de acontecimentos. Por um movimento subterrâneo que vinha de longe, a instabilidade de todas as coisas se mostrou. A guerra do Paraguai multiplicara os imensos defeitos da organização militar. E tornara visível que os progressos sociais não se tinham consolidado. Graças a Deus, a repugnante chaga da escravidão começava, lentamente, mas muito lentamente, a se apagar. E onde andaria o velho Deodoro? Haveria de ter uma explicação para tudo, não?

– Trecho de “O Príncipe Maldito”, de Mary del Priore. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2007.

nº2

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2 Comentários

  1. José Ventura disse:

    Excelente texto, Pena que quem redigiu este trecho do ótimo “O Príncipe Maldito”, tenha feito tão mau uso da pontuação e da acentuação (“ideias” com acento grave, uso do trema que foi banido definitivamente da lingua brasileira desde 31/21/2012, etc)…

    Ajudar a manter um blogue com o volume de importância como este, implica em maior responsabilidade na redação e, especialmente, em uma revisão mais cuidadosa dos textos a serem publicados.

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