O triângulo amoroso mais famoso da História do Brasil: o imperador, Leopoldina e Domitila

Publicado em 4 de maio de 2017 por - artigos

      Os temas e personagens com os quais trabalho têm mais a ver com o acaso do que com a predestinação. Não os escolho. Tenho a impressão que eles me escolhem. E isso, porque trabalho essencialmente dentro de arquivos em busca de histórias para contar. É fundamental ter documentos inéditos que revelem aspectos desconhecidos de atores conhecidos. Foi o que aconteceu com o triângulo amoroso formado por D. Pedro I, Leopoldina, e Domitila. Acabei trombando com cartas inéditas escritas por Leopoldina e Domitila. Festejei a descoberta, pois é sabido que, na época, as mulheres escreviam pouco e mal. Resolvi então entrelaçar as biografias. Criar um diálogo de diferentes vozes, por meio da correspondência delas com seu círculo mais próximo e com o jovem Imperador. Ao fazê-lo, consegui trazer esses personagens para muito perto do leitor. Temos a impressão de ouvi-los falar. E mais. De ouvi-los falar de coisas que nos interessam ontem ou hoje: amor, abandono, dor e poder.

      Confirmei algo que já tinha estudado em meu Histórias Íntimas: a dupla moralidade dos brasileiros. O próprio título A carne e o sangue remete a um diálogo que D. Pedro tem com Domitila e que reproduzo. Ele lhe diz que fazia “amor de matrimônio” com a esposa – a quem chamava de “proprietária”. E “amor de devoção” com ela. Ou seja, havia uma maneira de fazer sexo em casa, voltada para a reprodução, portanto para os filhos e o sangue. E outra maneira, na rua: apaixonada, sensual, sem limites, centrada no prazer e no gozo. Jamais vi declarações de amor derramado e ardume como encontrei nos bilhetes de D. Pedro. Ele era louco por Domitila e não escondia seus sentimentos. A leitura desse material provoca um grande encantamento. É como se víssemos o Imperador descer do cavalo, guardar a espada da Independência e despir-se, exibindo, sem peias, suas emoções mais íntimas.

      O que demonstro no livro – e isso é relativamente novo – é que a exibição da vida privada prejudicou muito a vida pública do Imperador. Junto com o fim da Guerra Cisplatina, a dissolução da Constituinte e o mal estar crescente das ruas, a vida íntima de D. Pedro acabou acelerando a Abdicação. Diferentemente dos reis europeus nos quais ele se inspirava notadamente Luís XIV, reis que faziam de suas favoritas e bastardos um signo de poder e virilidade, no império brasileiro a tática não deu certo. As revoluções liberais já tinham varrido a Europa, enterrando esse modelo. Lembram-se da Revolução Francesa em que se expôs a vida sexual de Maria Antonieta, para guilhotiná-la? Pois desde então, a vida desregrada de um monarca passou a ser símbolo de fraqueza, demonstrando que as paixões podiam dominá-lo. Na Corte já existia uma “opinião pública” que criticava o monarca por meio de versos, folhetos colados aos muros e panfletos. Neles, D. Pedro aparecia montado por Domitila ou joguete em suas mãos. A “rua” mandava um recado para a “casa”: não queriam um rei desregrado. E mandaram-no embora assim que puderam!

      Historiadores conjugam verbos no gerúndio: estamos “fazendo” história. Não há história definitiva, como se sonhava no século XIX. Fazemos sim, uma história. Não a história. Volta e meia, os arquivos nos permitem descobrir novas versões de velhos assuntos. A família imperial é um deles. Ao fazer a história do trio, por exemplo, encontrei documentação inédita sobre D. Pedro e seus filhos legítimos e bastardos. Trata-se de uma coleção de cartas tocante, em que mesmo a alteração da letra dos filhos, para melhor ou pior, é observada pelo pai. Nelas, D. Pedro revela-se um pai extremoso, cuidadoso, preocupado com o destino dos seus. Esse, por exemplo, é um aspecto de sua personalidade que está por ser estudado.

      O livro também desconstrói o mito da imperatriz participativa no processo da Independência. Ao contrário. Leopoldina tinha verdadeiro horror ao fim dos impérios, era uma representante fiel dos ideais do absolutismo e do Antigo Regime europeu, do qual seu pai – com quem se correspondia – era o melhor exemplo. Só cede ao final, para não perder o trono dos filhos. Sim, conhecia botânica, mineralogia e zoologia, mas não soube navegar na cultura de um país em construção. Isolou-se. Detestava os portugueses que a detestavam, também. Preferiam que D. Pedro tivesse se casado com uma espanhola. Sua solidão, que em muito colaborou para a posterior depressão e morte, foi em parte cavada por ela mesma. Quanto aos seus conhecimentos, o próprio pai dizia que eles não eram grande coisa. Ela foi um transplante que não funcionou, mas deu ao Brasil, herdeiros para a coroa. Esteve casada nove anos e nove filhos teve.

      Quanto à Domitila, depois conhecida como marquesa de Santos, foi preciso voltar à história de São Paulo e entender que as condições econômicas daquela província eram capazes de criar muitas Domitilas. A cidade, na transição do século XVIII para o XIX, era um cidade de mulheres. E mulheres empreendedoras, que andavam com as próprias pernas e capazes de manter suas famílias. Longe da Corte, São Paulo oferecia uma vida de prazeres ligeiros e diversão menos atrelada à etiqueta (pouca, aliás) que se vivia no Rio de Janeiro. Debruçar-me sobre Domitila foi também entender o poder do prazer e do sexo numa época de restrições e em que tudo era pecado. Mas, pecado para mulheres como Leopoldina. Ela, ao contrário, pecava com gosto e prazer. E prazer que vinha junto com o poder. Corria que na Corte só existiam dois tipos de pessoas: os que gostavam dela e os que não a suportavam. Quanto ao favorecimento financeiro e político, isso era tradição no trato com as favoritas. Todo o monarca que as teve, delas cuidou. D. Pedro seguiu a cartilha. Não fez nada demais, nem ela recebeu o que não lhe era devido.

  • Texto de Mary del Priore (edição Márcia Pinna Raspanti).

D. Leopoldina, o imperador D. Pedro I e Domitila: triângulo amoroso.

 

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