O Terremoto de Lisboa (1755)

Publicado em 24 de junho de 2014 por - História

O sismo: um arrepio que percorrera a terra. Eis o que viveram os observadores estrangeiros entre tantos habitantes de Lisboa. Os suaves tremores que “aumentavam gradativamente”, na descrição do britânico, correspondiam às vibrações que se propagavam pelo solo tal como uma pedra que jogada á água dá origem às vagas que se distanciam do ponto de impacto. O furor da terra se originara de um deslocamento brusco entre dois blocos rochosos adjacentes gerando ruptura e um emissor de ondas. O caráter rigoroso e implacável das fúrias do dragão gerara “uma horrível catástrofe” revirando toda a costa marítima e reduzindo a opulenta cidade a um monte de destroços.

A geografia local amplificava o desastre. As faldas rochosas sobre as quais repousava o casario da cidade, os meandros estreitos a recortar aqui e lá, as colinas, em cujas dobras e cimos intercalavam-se igrejas e conventos, aguçavam a vulnerabilidade sísmica de Lisboa. Não foi só a energia do cataclismo que se abateu sobre a cidade. As estruturas sísmicas somadas àquelas arquitetônicas permitiram com que telhados e paredes ondulassem como um trigal ao vento. O pavor do primeiro choque do terremoto marcava as lembranças. Nos documentos da memória de vários sobreviventes se lê física e moralmente como se sentiram as pessoas. Leem-se as etapas de seus sentimentos: primeiro, o diagnóstico da situação, a seguir, uma tentativa de autocontrole, depois o pânico animal, com sua coorte de odores e gritos empurrando-os para “os movimentos cegos do medo e de seu horror” , fazendo-os “temer a morte, desejando a morte” .

O gentil homem francês, certo G. Rapin, dizia não ter perdido nenhum segundo em detectar o terremoto ao ver sua xícara de chá elevar-se, junto com o conteúdo dourado, a alguns centímetros da mesa onde o serviço de louça fora colocado. Seu único pensamento: a mulher, grávida de sete meses, que encontrou, desmaiada, a algumas quadras na rua.

As casas derrubadas, os muros amputados, as ruas interrompidas, os buracos e valas profundas escavadas no chão por mão demoníaca, montes de poeira, lama e terra acumuladas, prédios abalados escorados, como equilibristas, em vigas de madeiras, fragmentos de parede e arcos inacabados; as línguas de fogo, contudo, ainda não rugiam. O céu antes azul e sem nuvens, fechara-se em negrume: “estava mais escuro do que a noite mais escura que jamais vi e assim continuou por cerca de um minuto, devido às nuvens de pó provocadas pela queda de casas de todos os lados”. Havia, como disse o poeta, som e fúria: “um estranho e terrível ruído subterrâneo, semelhante a um estrondo profundo e distante de trovoada”  ou ”lembrei-me instintivamente que o ruído poderia ser precursor de um tremor de terra…”.

Aos que escaparam do primeiro abalo, muito mais estava reservado. O tremor de terra provocara um maremoto de grandes proporções. O momento mais terrível, em que tudo se julgou perdido, foi, segundo observadores, aquele em que as águas saindo de seus limites naturais investiram, gorgolejando, em vertiginoso turbilhão contra a terra, querendo submergi-la. Muitos morreram arrastados e afogados na ressaca. Um grande número de embarcações afundou ou se estraçalhou e do formoso cais da Pedra que ia do terreiro do Paço, desde os armazéns da alfândega até quase o forte da Vedoria, nada restou. Nos ouvidos de outra testemunha ainda ecoavam os gritos de “O mar está a subir, vamos todos morrer”. E o povo entalado entre os cimos, por entre paredes que tombavam em tumulto, em desordem, caindo aqui, espezinhado pelo que vinha atrás, ficara a beira mar, fascinado, estúpido, a gritar e a chorar, a pedir socorro aos navios do largo de mastros partidos, agitados e arremessados uns contra os outros, erguendo-se ao alto, afogando-os e atirando-os contra a praia onde morava a desolação.

Depois da água, o fogo contra o qual as escadas ferradas e calões importados da Holanda, pouco sucesso tiveram. Um dos narradores da cena descreve a reação apavorada dos lisboetas aos gritos de  “Oh! O que será de nós! Nem água nem terra nos protegerão e o terceiro elemento, fogo, aprece agora ameaçar a nossa destruição total! Como aconteceu com efeito” . O fogo foi avançando e consumindo tudo o que o terremoto tinha poupado; e as pessoas estavam tão desanimadas e aterrorizadas que poucas ou nenhumas se aventuraram a descer para salvar ao menos parte de seus haveres. Todos tinham os olhos postos nas chamas, em silêncio doido que só era interrompido pelos choros e gritos das mulheres e crianças pedindo socorro aos santos e anjos sempre que a terra começava a tremer… Sendo o 1º de novembro, o dia de Todos os Santos, uma festa importante para os portugueses, como de costume, todos os altares de todas as igrejas e capelas (algumas das quais tem mais de vinte) estavam iluminados com velas e lamparinas, e estas por sua vez pegaram fogo às cortinas e madeiras que caíram com o sismo e o incêndio alastrou-se em pouco tempo às casas vizinhas. Uma vez aí se juntou aos fogos das chaminés das cozinhas e aumentou de tal maneira que seria o suficiente para destruir toda a cidade, mesmo que não tivesse havido qualquer outra causa interveniente, e principalmente porque não encontrou qualquer obstáculo”. Com o forte vento, as fagulhas propagavam-se de uma rua à outra, lavrando, lambendo e devorando as partes mais densas da cidade.

Tendo as pessoas fugido para os campos meio despidas, o incêndio consumiu todos os tipos de mercadorias, artigos domésticos e vestuário, de forma que mal sobrou alguma coisa para lhes cobrir a nudez, restando-lhes viver em tendas nos campos. Se o incêndio não tivesse ocorrido, as pessoas teriam recuperado seus bens das ruínas, mas este deixou um cenário de desolação e miséria indescritível por palavras. Os palácios do rei, na cidade, estão totalmente destruídos. O armazém de tabaco e outros, com as cargas das três frotas do Brasil, partilharam o mesmo destino; em resumo poucas mercadorias sobraram em toda a cidade.

No cenário da cidade outrora risonha, as marcas do horror estavam em toda a parte. Queimou a Igreja de São Domingos, ou da Inquisição, onde se julgavam judeus, hereges e bruxas, cujos retratos pendiam da nave, no seu lado oeste. Queimou o convento de frades dominicanos junto a ela. Ardeu o convento da Boa Hora situado na extremidade inferior da rua Nova da Almada, relativamente perto do Paço da Ribeira. O incêndio consumiu o Rocio e, desde aí, até as margens do rio, alargando a este e a oeste, para as galés e para baixo até a igreja de São Paulo, em que jaziam, soterrados pelo terremoto 60 pessoas, incluindo dois padres. O convento irlandês do Corpo Santo desmoronou, enterrando e queimando um grande número de pessoas, entre elas alguns frades que estavam a ouvir missa. – Mary del Priore.

pic_01_earthquake20at20lisbon_17551

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 Comentário

  1. betty klein disse:

    Muito bom! Conhecer historias!! Imagina o que deve ter sido essa catastrofe!!! Obrigada pela informaçao.

Deixe o seu comentário!