O supercasamento e a descoberta do prazer a dois

Publicado em 6 de agosto de 2014 por - História

Nas primeiras décadas do século XX, enquanto uma parte da sexologia classificava patologias e o lado obscuro da sexualidade, uma segunda onda proclamava aos aspectos positivos do sexo dentro do casamento. Entre alguns poucos, sexo não era visto apenas como instinto de reprodução, mas como reflexo do sentimento entre esposos. Sexólogos dos mais reputados como o australiano Havellock Ellis, intérpretes do autoerotismo e críticos da repressão, eram traduzidos no mundo inteiro. Tais obras científicas inspiraram manuais de sexologia para um público “não científico”, muitas delas inspiradas em cartas endereçadas por homens e mulheres aos especialistas.

Porém, a problemática desses pioneiros continuava presa aos modelos do século anterior. Tudo os fazia raciocinar em termos de binômios: feminino/masculino, ativo/passivo, iniciada/iniciador, conquistada/conquistador. A sexualidade feminina era a principal vítima desse tipo de leitura. O clitóris, percebido como uma anomalia “viril” via-se, assim, desvalorizado, sobretudo entre os adeptos da psicanálise. Sigmund Freud, seu fundador, definia a libido como masculina e concluiu que moças e rapazes deviam organizar sua sexualidade em torno do pênis. A princípio, na ausência do pênis, a menina, pela masturbação clitoridiana, adotava o mesmo comportamento do que o garoto. Na idade adulta, contudo, a mulher devia recusar esse prazer infantil, interpretado por muitos como sinal de frigidez, optando pelo coito vaginal. Com linguagem renovada, a psicanálise acabava por justificar os papéis prescritos pela sociedade para as mulheres. Só Willem Reich rompeu com este esquema e foi pioneiro em apontar a força da “potência orgástica”. Mas sua pesquisa, realizada entre 1927 e 1935, A revolução sexual, seguiu como assunto confidencial e só foi traduzida para o português nos anos 40.

Se não se conhece os efeitos dos primeiros discursos sexológicos, sabe-se, porém, que eles contribuíram para tirar o assunto do silêncio e da vergonha. Compartilhado por uma pequena minoria, educada e moradora dos grandes centros, o tema da sexualidade incentivou as primeiras questões sobre o prazer feminino e as técnicas para incrementá-lo antes, durante e depois do coito por meio de beijos, gestos, carícias e palavras.

O campeão de vendas na época foi um ginecologista holandês: o doutor Theodore Van den Velde, publicado em 1925, na Europa, e traduzido para o português no mesmo ano. Escrito com linguagem acessível e rico em detalhes espalhados por suas 800 páginas, o livro ensinava aos casais a atingir o orgasmo juntos, pelo coito vaginal. Mas, atenção: o marido era o responsável direto pelo o gozo da esposa. Ele, o professor sabe-tudo. E ela, a aluna aplicada. Apesar da relação assimétrica, característica da época, o importante era “chegar junto”:

“Nas uniões ideais participariam de modo igual o homem e a mulher. Nestas uniões, as mais íntimas que podem existir, se transformam ambos em um só ser, física e animicamente. Não obstante seja o homem o dispensador e a mulher a receptora, sendo como é o marido a parte ativa, de modo algum o papel da esposa é unicamente passivo. A conjugação sexual, em realidade, não segue as leis fisiológicas, não tem verdadeiramente seu profundo sentido, não alcança inteiramente seu objeto, senão quando ambos participam dela plenamente, quando gozam conscientemente, sem restrições, toda a alegria, toda a satisfação da união sexual. Se existe um postulado de igualdade dos direitos e dos deveres de dois seres, ele é, sobretudo, verdadeiro e irrefutável na copulação. Assim, pois no super-matrimonio não é o marido que realiza o coito, mas ambos os cônjuges. O homem não possui a mulher, mas une-se a ela”.

Van de Velde levava a sério a questão da igualdade na cama e incentivava os homens – mais rápidos e mais “aptos” – a esperar por sua companheira. Quando a mulher não tinha suficiente experiência, e o médico lembrava que, entre elas, havia muitas que não se interessavam pelo assunto, “as pouco passionais”, o homem deveria dar-lhe algumas “vantagens”.

E insistia: “é absolutamente necessário que o orgasmo dos dois seja simultâneo”. Segundo o médico holandês, toda excitação sexual de certa importância, que na mulher não terminasse pelo orgasmo, representava uma lesão, um trauma. E a soma deles, podia conduzir a transtornos crônicos, físicos e psíquicos, dificilmente emendados.

A obra descreve com gráficos e curvas os processos, ou melhor, as categorias de atos sexuais, em que os cônjuges conseguiam chegar ao orgasmo juntos. O “coito ideal” era aquele onde havia a “existência de certa conformidade entre os órgãos sexuais de ambos os co-participes”. Ou seja, além de combinar em tamanho, o par tinha que combinar em grau de excitação. Seguia o “Coito de mulher experiente sem preparação”, isto é, “relações de um casal, em que a esposa, apesar da suficiente experiência amorosa, começava o coito sem preparação alguma”, ou seja, sem estar excitada. Depois, vinha o “Coito de mulher inexperiente, depois do prévio jogo de excitação”, ou seja, o homem concedera as “vantagens” à mulher “ao retardar a manifestação do reflexo de ejaculação, desviando-se desses pensamentos”. A penúltima curva apontava a falta de orgasmo simultâneo defendido pelo autor, devido “a conduta estúpida e egoísta, mas tão freqüente que alguns maridos observam, pensando apenas na própria satisfação”.

Para o autor, “semelhante coito, de modo algum pode chamar cópula” mais parecendo masturbação. A última e pior ficava por conta do “coito interrompido”, muito usado no controle da natalidade desde a noite dos tempos: “Para os seres humanos sexualmente perfeitos, o coitus interruptus significa o exercício sistemático de uma degeneração e, por sua vez, a morte do matrimonio. Constitui um perigo para a saúde do marido e um crime para a esposa”.

Sem igualdade no prazer, pregava Van de Velde, não havia super-matrimônio. Resta descobrir quem lia ou seguia as “curvas” do ginecologista holandês. Poucos, provavelmente. Afinal, tais avanços eram moderados por outros autores que também circulavam. É o caso do livro a “A esposa feliz no lar”, de Manuel Alves. Na direção oposta de Van de Velde, e com uma visão bastante religiosa do matrimônio, o autor recomendava que as esposas seguissem o exemplo da Virgem Maria, fossem diligentes e cuidadosas nos afazeres domésticos, obedientes e submissas aos maridos. Sobre sexo, pouco ou nada. E sobre adultério, encerrava com uma pérola:

“Não se pode, todavia, negar que existem, de fato, esposos adúlteros e esposas adúlteras. Existem-nos, sim, e infelizmente são bastante numerosos; porque a esses criminosos desavergonhados não lhes toca a pena que lhes cabia antigamente, de serem publicamente apedrejados”.

Esse foi o momento em que o comportamento sexual ligado à reprodução e a sexualidade começavam a separar-se. Até então, o que se conhecia como “sexualidade” não tinha existência própria. As relações sexuais dividiam-se entre as voltadas para a renovação das gerações e aquelas, mais erotizadas, voltadas para o prazer. E essa divisão coincidia matematicamente com aquela que separava as mulheres puras das impuras. Mas tal maneira de pensar era, sobretudo, um alívio para os homens. Ao colocar o orgasmo do casal e, em especial o da esposa, em primeiro plano, os médicos abriam o flanco para outro problema: seria o marido capaz de proporcionar prazer a sua mulher?

– Mary del Priore (baseado em “Histórias Íntimas’).

adam-eve_peter-paul-rubens

“Adão e Eva”, de Peter Paul Rubens.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Comentários

Deixe o seu comentário!