O sequestro do embaixador norte-americano em 1969

Publicado em 9 de julho de 2014 por - História do Brasil

O texto a seguir faz parte do livro “História do Crime no Brasil”, que será lançado em 2015. A obra, organizada pelos historiadores Mary del Priore e Gian Carlo, contará com a participação de diferentes autores. Confira um trecho do artigo de Cristina Luna sobre os raptos de embaixadores durante a ditadura civil-militar.

Era uma tarde de quinta-feira, 4 de setembro de 1969, quando o Cadillac preto do embaixador Charles Burke Elbrick ao sair de sua residência rumo à embaixada dos Estados Unidos e passar pela rua Marques em Botafogo, bairro da zona sul do Rio de Janeiro, foi interceptado por um grupo de  guerrilheiros. Na ação, estavam envolvidos os membros da Ação Libertadora Nacional (ALN) Virgílio Gomes (comandante da operação sob o codinome Jonas), Manoel Cyrillo de Oliveira e Paulo de Tarso Venceslau, além dos membros do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8): Cláudio Torres, Cid Benjamin, João Lopes Salgado, Sérgio Torres, Sebastião Rios, Vera Silva Magalhães e Franklin Martins, que idealizara o sequestro, ainda como membro da Dissidência da Guanabara (DI-GB), surgida a partir da ruptura definitiva de um grupo, na sua maioria jovem, com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1966.

De acordo com Vera Silva Magalhães, única mulher a participar do sequestro do embaixador norte-americano, responsável por ter levantado informações a respeito da sua segurança, a DI-GB contava com cerca de 40 militantes e uns 30 simpatizantes. Por se considerarem despreparados para uma ação desse porte, chamaram a ALN, que era uma organização mais militarizada.  Quanto à mudança de nome, o historiador Daniel Aarão Reis Filho, que era membro de ambas, destaca que a DI-GB passou a se chamar MR-8 como uma espécie de “contrapropaganda” do regime, que meses antes alardeara o desbaratamento da dissidência comunista do estado do Rio de Janeiro. Todavia, como o governo não podia anunciar a destruição de uma organização anônima, tratou de batizá-la de Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) em alusão ao  jornal publicado pela dissidência, cujo título era Oito de Outubro (data da morte de Che Guevara na Bolívia, em 1967).

Lograda a captura, o embaixador foi levado para uma casa na rua Barão de Petrópolis, em Santa Tereza, também na zona sul da cidade, que fora anteriormente alugada para funcionar como sede da imprensa clandestina do grupo pelo jornalista Fernando Gabeira, que lá se encontrava juntamente com Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, alto dirigente da ALN, depois de Carlos Marighella, que não teve conhecimento da ação. Quanto à participação de Gabeira, que, no filme O que é isso companheiro aparece como sendo fundamental, vale notar que o mesmo só soube do sequestro no dia em que ocorreu, quando foi prevenido pelos seus companheiros para que ficasse na casa, pois uma “grande ação” iria acontecer.Ademais, ao contrário do que é mostrado na película, Gabeira não foi o autor do manifesto, inverdade que pode ter sido intencional por parte do seu diretor ou ter redundado de falta de pesquisa e confusão, possivelmente alimentada pelo fato do jornalista em seu livro de memórias não identificar a autoria do documento, o que foi corrigido somente quando o relançou, devido à repercussão gerada pelo filme, que aumentou em muito a sua procura.

No mesmo dia, o manifesto dos raptores redigido por Franklin Martins, que fora deixado no carro do embaixador, foi divulgado pela mídia. Em seu texto, os guerrilheiros impunham duas exigências: a libertação de quinze prisioneiros políticos e o seu envio para a Argélia, Chile ou México, onde receberiam asilo político; além da publicação e leitura da sua mensagem, na íntegra, nos principais veículos de comunicação de todo o país.

Rapidamente, o manifesto foi transmitido pelo rádio, televisão e publicado nos principais jornais e revistas, rompendo a barreira de censura imposta pelo regime e garantindo ampla divulgação ao acontecido, o que ia de encontro a um dos objetivos primordiais do MR-8 e da ALN, que era o de propagandear a luta armada, destacando que não se tratava de coisa de criminosos comuns ou terroristas, como vinha sendo veiculado, mas de uma ação armada voltada para o combate contra a exploração capitalista e a ditadura, que prendia, torturava e matava seus opositores. De forma contundente, os membros do MR-8 e da ALN concluíam o manifesto com uma ameaça, anunciando que aquela era uma ação entre tantas outras e que as organizações armadas se preparavam para iniciar a etapa da guerrilha rural e que dali em diante os torturadores da ditadura deveriam colocar “suas barbas de molho”, pois seria “olho por olho, dente por dente”.

Evitando utilizar a palavra sequestro, possivelmente entendida como um crime, os guerrilheiros preferiam o termo rapto, por entenderem que eram executores de uma ação revolucionária. Preocupados em divulgá-la, escolheram o momento mais propício: a Semana da Pátria, quando se comemora a independência do Brasil. Os guerrilheiros desejavam desestabilizar ainda mais o governo, que se encontrava em um momento complicado, haja vista a doença do general-presidente Artur da Costa e Silva em agosto de 1969 e a crise desencadeada em torno de sua sucessão, que resultou no afastamento do vice-presidente civil Pedro Aleixo e na posse anticonstitucional de uma junta provisória formada pelos três ministros militares em exercício: Lyra Tavares (da Guerra), Augusto Rademacker Grünewald (Marinha) e Márcio de Souza Mello (Aeronáutica).

Assim, no quesito propaganda, a ação do sequestro foi extremamente bem-sucedida, pois ganhou veiculação nacional e internacional, sendo, inclusive, divulgada no New York Times com o mesmo destaque que a morte do líder vietnamita Ho Chi Minh, o que acabaria por inspirar outros três sequestros de embaixadores, que seriam executados no ano seguinte. Também no que concerne à libertação dos presos, os raptores tiveram êxito, na medida em que os militares concordaram no dia 06 de setembro, portanto dentro do prazo de 48 horas estabelecido pelo manifesto, em libertar os quinze prisioneiros requisitados, entre eles Luís Travassos, José Dirceu, José Ibrahim, Onofre Pinto, Ricardo Vilas Boas, Maria Augusta Carneiro Ribeiro, Ricardo Zarattini, Rolando Frati, João Leonardo Silva Rocha, Agonalto Pacheco da Silva, Vladimir Palmeira, Ivens Marchetti, Flávio Tavares, Mário Roberto Galhardo Zanconato e Gregório Bezerra, que foram embarcados no avião Hércules 56 da Força Aérea Brasileira com destino ao México.

O “ecumenismo” da lista de presos a serem libertados revelava a intenção dos agentes do sequestro em contemplar diferentes tendências políticas, como as ligadas ao burocratismo  pacifista de tendência soviética, presente no Partido Comunista Brasileiro (PCB); ao movimento estudantil e operário, além das tendências ligadas a correntes políticas que viam a luta armada não só como um meio de derrubar a ditadura, mas também de ensejar a evolução socialista.

O embarque, contudo, não foi fácil, já que correntes mais radicais dentro das forças armadas desejavam evitá-lo, não cedendo à “chantagem” dos guerrilheiros. Aliás, desde a descoberta do sequestro, membros da junta militar divergiam quanto a acatar as exigências, bem como uma facção na Vila Militar, que não desejava nem sequer permitir a leitura do manifesto na mídia. Contudo, em parte devido à pressão norte-americana, vozes moderadas dentro do governo prevaleceram. Em depoimento concedido ao filme Hércules 56, estrelado em 2006, José Imbrahim – operário e membro da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), preso em julho de 1968 na greve de Osasco (SP) -, recorda que os prisioneiros políticos ficaram horas amarrados ao sol no aeroporto do Galeão no Rio, sem ter nenhuma notícia do que estava acontecendo. Muito provavelmente, alguns militares desejavam ganhar tempo, esperando pela queda dos sequestradores e pela libertação do embaixador mediante uma ação policial. Ademais, os funcionários da base aérea do Galeão temiam um ataque de fuzileiros navais da Marinha e paraquedistas do Exército, como relata Flávio Tavares, militante do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) e do Movimento de Ação Revolucionária (MAR) preso em agosto de 1969, em depoimento presente na mesma película. Tavares conta que, depois, tomaria conhecimento de que os paraquedistas ocuparam a torre de controle do aeroporto, o que aconteceu logo após a decolagem do Hércules, além dos transmissores da Rádio Nacional, divulgando um comunicado contra a Junta Militar, que “tinha se dobrado às imposições dos terroristas e do departamento de estado americano”.

Em 7 de setembro, quando no Brasil se comemorava o dia da independência em meio aos tradicionais desfiles militares, os quinze prisioneiros políticos pousavam na cidade do México, sendo recebidos por um mar de jornalistas, aos quais concederam entrevistas. No fim do mês, temendo uma represália por parte dos militares brasileiros, todos os prisioneiros, com exceção de Flávio Tavares, que era jornalista e arrumara emprego no país, rumariam para a Cuba, onde receberiam asilo político e realizariam, a maioria, treinamento militar com o intuito de retornar ao país a fim de dar continuidade à ação revolucionária.

Enquanto isso, em terras brasileiras, o sequestro do embaixador norte-americano suscitou um fechamento ainda maior do regime.

sequestradoresburcke

Os 13 presos políticos trocados pelo embaixador Elbrick – os últimos dois subiriam a bordo do Hércules C-56 no meio da viagem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Comentários

Deixe o seu comentário!