O sangue secreto e seus perigos

Publicado em 29 de maio de 2014 por - História

A fisiologia moral via com temor o papel do sangue secreto, o sangue menstrual. Dos excretos femininos era esse, certamente, o mais temido. Sua eficácia como poderoso veneno confirmava-se nos textos de medicina:

“O sangue mensal é o que mais das vezes costumam usar as mulheres depravadas para o benefício amatório e conciliar amor e afeição; sucede que tão longe está de assim ser, antes gera gravíssimos acidentes, como de veneno, e faz as pessoas doidas e furiosas como tem demonstrado a experiência”.

A crença na eficácia mortal deste sangue era tão forte que se encontra presente em processos criminais do século XVIII. Na São Paulo de 1780, Rita Antonia de Oliveira ameaçava tirar a vida de seu marido por artes diabólicas e chegou a confessar que lhe dera a beber “o seu próprio sangue mênstruo para enlouquecê-lo, e da mesma sorte vidro moído a fim de matá-lo”.

Incorporada à mentalidade popular que lhe tinha o maior temor, a crença no poder do sangue catamenial como instrumento de dominação sexual e morte revelava o mal estar de uma sociedade paternalista frente aquela que se tornava uma feiticeira com capacidade para adoecer os homens usando seu próprio corpo. As funções mágicas dos excretos femininos pareciam tão verossímeis que mesmo os médicos incorporavam a visão tradicional sobre o sangue mensal. Eis porque recomendavam o “uso de vomitórios e laxativos que encaminhem para fora este veneno”, seguido de “emulsões de barba-de-bode” e um xarope feito com “bem-me-queres e açúcar”, remédios cujo poder analógico é evidente e que tinham o objetivo de “adoçar” ou funcionar como antídotos contra a peçonha.

A medicina espelhava a mentalidade europeia tradicional, dominada pela misoginia e totalmente impregnada de desconfiança pelo corpo feminino. O útero gerava, além de desconfiança, medo pela possibilidade de vinganças mágicas. Esse temor fazia Alberto Magno afirmar que a mulher menstruada carregava consigo um veneno capaz de matar uma criança no berço, e apesar de ter emitido tal opinião no século XIII ela, ainda repercutia no século XVIII. O medo da mulher, embutido na cultura cristã ajudava a consolidar essas crenças cujo conteúdo se mantinha.

João Curvo Semedo era um exemplo da longevidade dessa visão sobre o corpo feminino, porquanto advertia “às mulheres depravadas” que ao contrário de “granjear amor e afeição aos homens”, a ingestão do dito sangue os fazia louco ou os matava:

“Porque é tal a maldade do dito sangue que até nos casos insensíveis faz efeitos e danos lamentáveis. Se chega à qualquer árvore, planta, erva ou flor a murcha e seca; se chega ao leite, o corrompe, se chega no vinho, o perde, se chega no ferro, o embota e enche de ferrugem; até a vista das mulheres que estão no atual fluxo mensal é tão venenosa que embota a gala e resplendor dos espelhos das mulheres que neste tempo se enfeitam a eles; é tão notório este dano, que era proibido no Levítico que os homens tivessem ajuntamento com suas mulheres em dias de menstruação ”

As afirmativas de homens como Semedo, vêm ao encontro aos fenômenos estudados por vários historiadores para as mulheres do Antigo Regime, comprovando que estas certamente aceitavam a ideia de que suas regras fossem de fato venenosas. A purificação de judias ortodoxas e as proposições de santa Hildegarda sobre a menstruação como um castigo do pecado original subscreviam o discurso masculino sobre a imundície feminina. A medicina, por sua vez, endossava o poder “enlouquecedor” do dito sangue ao diagnosticar em suas vítimas, “endemoninhadas”, por ingestão, “Visagens de fantasmas ou figuras de cavalos, elefantes, perus ou serpentes, fúrias, taciturnidades , medos e lágrimas”.

Não apenas os diagnósticos, mas os processos de recuperação das vítimas sugeriam a aura de fantasia que envolvia o sangue menstrual. Semedo sugeria trazer aos pulsos e pescoços “alhambres brancos”, uma resina vegetal que se acreditava curar venenos. Pereira, por sua vez, preferia poções à base de “pós de secundinas”, placentas que envolviam recém-nascidos, misturadas a “águas de nastúrcios aquáticos”, os prosaicos agriões. Sugeria ainda um remédio feito de “sementes e flores de sabugueiro ou de figueira do inferno bem cozidas e transformadas em óleo”. Lembrava, no entanto, que para a eficácia da receita era preciso realizá-la à distância de qualquer mulher menstruada, caso contrário não se faria “óleo”.

O tempo do sangue secreto era, pois, um tempo perigoso, um tempo de morte simbólica no qual a mulher deveria afastar-se de tudo que era produzido ou do que se reproduzia. Suas propriedades malfeitoras possuíam o poder degenerativo de arruinar, deteriorar e também de contaminar a sua portadora através de seus muitos eflúvios. Como bem demonstra Semedo, o olhar, o contato e o hálito feminino, passam, nessa lógica, a ter poder mortal. Pelo excesso de odores, a mulher se isolava. Seus cheiros e secreções encarnadas funcionavam como uma espécie de cortina invisível entre ela e a vida quotidiana, contendo-a de estragar o leite, o vinho, a colheita ou os metais. O corpo feminino parecia, assim, o lugar de uma dupla propriedade. Ele mostrava-se ameaçador, mas ameaçava também a si próprio ao tornar-se vulnerável a elementos do universo exterior.

O corpo da mulher era ainda capaz de gerar coisas monstruosas, sublinhando na mentalidade do período uma imagem deformada da mulher ora como feiticeira, ora como possuidora de um útero mágico. Inspirado no livro de Ambroise Paré, De monstrorum naturae, caussis et diferentiis, certo doutor Nunes, pernambucano setecentista, registrou em suas anotações o nascimento de “um monstro que nasceu com cornos e dentes no rabo”, bem como de um outro que “nascera como um lagarto que repentinamente fugiu” e ainda uma mulher que dera à luz a um elefante e uma escrava que parira uma serpente”. Eis porque não parecia impossível a Bernardo Pereira narrar o caso de uma viúva capaz de lançar pela urina “semente de funcho” ou “glóbulos de cabelo que queimados lançavam o mesmo odor que costumam exalar os verdadeiros”. O douto médico que observara o fenômeno afirmava que este era resultado de uma astúcia do Demônio” .

-Mary del Priore

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“Adão e Eva”, de Peter Paul Rubens: pecado original.

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