O “Rio Nu”: pornografia no início do século XX

Publicado em 13 de agosto de 2014 por - História do Brasil

Se uma publicação reuniu a “pornografia” das primeiras décadas do século XX, foi o “Rio Nu”. Repleto de piadas maliciosas, canções e poemas de duplo sentido, o jornal foi fundado em 1900 e durou até 1916, circulando na capital da República. Nele, charges misturavam-se a folhetins com histórias “apimentadas” e uma grande participação dos leitores que, no lugar de jornalistas, abasteciam a revista de “causos” recheados de passagens provocantes e títulos idem: “A mulher de fogo”, “Faz tudo…”, “A pulga”, “Roçando”,” O consolador”, etc. Segundo o redator, os contos eram escritos em “linguagem ultra livre, contendo uma gravura cada um, narram as mais pitorescas cenas de amor para todos os paladares”. Caricaturas não faltavam.

A publicação trazia uma seção chamada “Nas zonas” que tratava apenas de histórias passadas nas zonas de prostituição, não se sabe se reais ou fictícias, mas sempre contadas pela clientela. Jornalistas? Nunca, por isso mesmo o editor anunciava: “O “Rio Nu” não tem repórter algum nas zonas para dar ou não dar notas nesta secção; todo aquele que se apresentar como tal é um intrujão e deve ser tratado como merece”. A revista era a coqueluche dos homens, então. Sua periodicidade era alimentada por concursos como “Concurso das zonas” que buscava eleger qual a mais bela prostituta. As vencedoras eram eleitas pelo voto dos leitores que deveriam recortar o cupom impresso no jornal, preenchendo-o e enviando-o à redação.

O “Rio Nu” difundia, também, muitas propagandas de remédios contra doenças sexualmente transmissíveis em especial gonorreia e sífilis. Ou aqueles que garantiriam infatigáveis ereções como “A saúde do homem – o único que cura a impotência”. Entre as novidades encontravam-se as seções “Pelos Teatros” e “Crônica teatral”, dedicadas ao mundo e aos protagonistas do palco, além do disputado suplemento “O Bichinho”, dedicado ao jogo do bicho, dando dicas e apresentando estatísticas  dos últimos resultados.

O sucesso do “Rio Nu” era garantido por imagens de nudez feminina. Nudez não mais sinônimo de pobreza, mas de lubricidade, insistentemente sugerida em fotos e palavras. A partir de 1910, tais imagens se multiplicam e revelavam o que até então não se via. Logo na capa da primeira edição do ano, um cartum enorme, reproduzia uma mulher totalmente nua, de costas, levemente inclinada e olhando para trás sorrindo para um jovem que a observa. O título convidava: “Boas entradas”.

Apareciam também quadrinhos – antes mesmo dos dirty comics americanos e cerca de 40 anos antes de Carlos Zéfiro. Em seis imagens, contavam histórias cheias de insinuações sexuais e vivacidade: “Esperteza de marido”, “Um interview complicado”, “As toaletes de Nelita”, etc. Não só os quadrinhos acendiam a imaginação masculina, mas suas páginas ofereciam um variado número de propagandas de livros com temas “sugestivos”. A própria publicação vendia em seu escritório muitas obras que integravam a “Bibliotheca d’O Rio Nu”:

“Acham-se à venda em nosso escritório os seguintes romances:

Uma vida amorosa – História de uma mulher de sangue quente, em que são descritas cenas da mais requintada luxuria, acompanhadas de sugestivas gravuras. Preço 1$000. Pelo correio 1$500.” Em “Uma noite dos diabos”, a cobertura trazia uma mulher se despindo sendo observada por um homem deitado na cama. Mas se a imagem levava a melhor, o conteúdo apenas, sugeria. As capas tendiam a ser provocantes. O recheio, contudo, hoje, seria considerado inocente. Nele, até a prostituta é casta.

O “Rio Nu” pagou um alto preço pela ousadia. No dia 30 de março de 1910, saiu matéria intitulada “O Rio Nu e o Correio Nacional”. Nele, escandalizados, os redatores se posicionavam contra a decisão do diretor geral dos Correios, Sr. Joaquim Ignácio Tosta, que proibiu o trânsito do “Rio Nu” e outras “publicações obscenas” na repartição. Nada de atentar contra os bons costumes. Essa medida não enfureceu apenas o pessoal da revista, mas também, outros jornalistas. A matéria trazia a transcrição de artigos publicados pelo Correio da Manhã e da Gazeta de Notícias, solidários contra a medida, chamada de “censura postal”. Era um atentado a liberdade da imprensa! Tachado de carola, religioso militante e de pertencer ao “Circulo Católico” o diretor dos Correios era atacado por tentar abafar a circulação do jornal que fazia as delícias masculinas.

Iniciava-se aí uma campanha que seguiria pelos meses seguintes. Os leitores seguiam ávidos todos os lances: ora mais nus, ora menos. Uma charge publicada em outubro do mesmo ano ilustrava bem a questão. Ela mostrava um nu frontal. Só que nada se via: seios, coxas e etc. O título em letras garrafais explicava: “Perseguição ao nu”.

A partir de novembro de 1910, a batalha parecia ganha para os leitores. Em vez de charges, publicavam-se fotografias e cartões-postais de mulheres despidas. Retiradas da revista francesa “En costume d’Eve” e da coleção francesa “La Venus Moderne”, vinham acompanhadas de versos que as descreviam poeticamente. Tais fotografias continuaram, agora sob o nome de “Galeria Artística”, eram numeradas e colecionáveis. Um anúncio advertia também que, apesar do sucesso, “o preço não subia”. E o “Rio Nu” não oferecia só fotos isoladas. Havia as coleções de cartões postais:

“Temos à venda uma interessante coleção de cartões postais alegres, nitidamente impressos, representando cenas admiraveis de gosto e variedade. Custa cada coleção, que se compõe de 10 postais, apenas 2$000, pelo correio 2$500”.

O “Rio Nu” garantiu aos nossos avós o acesso às imagens e textos pornográficos, acompanhando a tendência em curso na Europa. E os fotógrafos das primeiras décadas do século XX davam conta da vida íntima, inspirados nos nus clássicos ou mitológicos. Para capturar imagens, tinham um estilo alegre e bonachão que desapareceu, mais tarde. Fotos ditas “licenciosas” demonstram uma liberdade de expressão e comportamento, de maneira direta e sem artifícios estéticos. Era olhar do fotógrafo e não o mercado que definia o desejo. E esse olhar só via a carne, nada mais do que a carne. E carne de mulheres “in natura”: gordas, suculentas, peitudas, magrelas, era o “vale tudo”, contanto que houvesse nudez.

O sucessor desta literatura foi Carlos Zéfiro, nom de plume do pacato funcionário público, Alcides Caminha. Conhecidos por “catecismos”, pois cabiam no bolso da calça, comprados às escondidas ou disputados à tapa, tais quadrinhos feitos a bico de pena continham todo o universo erótico masculino. Os títulos ambíguos só faziam aumentar a curiosidade: “Aventuras de João Cavalo”, “A pagadora de promessas”, entre outras. Nas posições mais escabrosas, “boazudas” com o corpo de violão se responsabilizavam pelos prazeres solitários de adolescentes.

– Mary del Priore.

706736(1)nu perante a câmera Julien Vallou de Villeneuve (French, 1795–1866)

 

O jornal “Rio Nu” e os postais de mulheres nuas que circulavam discretamente.

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4 Comentários

  1. Yu disse:

    Olá, sou estudante de jornalismo e estou desenvolvendo um trabalho sobre o Rio Nu, gostaria de conversar com você (autor desse post), por favor, entre em contato comigo através do meu e-mail!
    Grata!
    Yu ^^

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