O Rio de Janeiro à época da chegada da Família Real

Publicado em 8 de abril de 2014 por - História do Brasil

Nas primeiras décadas do século XIX, as transformações começaram a surgir no cotidiano da população do Rio de Janeiro. Os jornais publicados na Corte passaram a trazer, então, os primeiros anúncios capazes de indicar a probabilidade de mudanças. Na cozinha, com os artigos de cutelaria inglesa: facas diversas e tesouras para o jardim. Mudanças nos serviços de mesa, com a venda de aparelhos de jantar, oferecidos de porta em porta, por viajantes recém-chegados da Europa e transportados na cabeça dos escravos sobre amplas bandejas. No uso de talheres, que foram lentamente substituindo o uso das mãos e, consequentemente, das bacias e jarras com as quais eram lavadas antes e depois das refeições. Dos guardanapos, que faziam presença mais constante nas mesas (antes, só nas festas), alguns já feitos de algodão baiano. Mudanças no mobiliário com a importação de camas, canapés, cadeiras de mogno ou ordinárias, secretárias, aparadores e mesas de todas as qualidades.

Sobre tais peças, dispunham-se louças azuis, vindas da China, peças de charão, inclusive jogos; mangas de cristal, por vezes com as iniciais da família, a fim de abrigar as velas de cera, relógios de parede ou de mesa, com sons de música e tocatas diversas. Nas paredes, espelhos e quadros, gravuras sacras e paisagens. Mudanças nos objetos práticos, como “lavatórios e seus pertences”, ou seja, jarra, bacia e saboneteira, fogões – antes eram de lenha, e “bancas de lavar”.

Os interiores também perderam sua sisudez. À porta do sobrado, agora batiam os estucadores, douradores e pintores, italianos e espanhóis oferecendo serviços de decoração. Os ornamentos de parede, sobretudo os “trompe-l´oeil”, entraram na moda. As visitas de caixeiros foram substituídas por idas à Rua do Ouvidor, verdadeira “Rue Vivienne” parisiense, onde pouco a pouco, modistas, peruqueiros, cabeleireiros e joalheiros estrangeiros, notadamente franceses vão se estabelecer, mudando hábitos de consumo da discreta mulher brasileira. A higiene feminina ganhou talcos e pós perfumados, vinagres aromatizados, “Eau de Cologne”, pentes chineses ou “mãozinhas de coçar as costas” e outros auxiliares. A mesa, por sua vez, deixou para trás o cardápio singelo e engordou com manteigas e queijos importados, frutas secas, chocolate da Espanha, presuntos de York, bebidas finas e farinhas de trigo. O italiano Barbon, por exemplo, vendia na Rua dos Latoeiros, embutidos segundo o “uso da Itália”, ou seja, salames e codeguinos.

Em muitas casas “finas”, negras cozinheiras e quituteiras foram substituídas por cozinheiros  e confeiteiros “brancos”. As casas de pasto começavam a atrair a clientela masculina concorrendo com as negras de tabuleiro ou a cozinha caseira. Elas se multiplicavam perto do porto, e nelas, – veja-se o exemplo do Hotel Royaume du Brésil – era possível comer um “beefsteack e tomar um copo de vinho” a 160 réis.

No privado ou no público, o cotidiano mudou depois da chegada da família real ao Brasil. A cidade ficou mais cosmopolita, o número de seus habitantes cresceu, as formas de trabalho se sofisticaram, os encontros culturais se multiplicaram, os grupos de estrangeiros mesclaram-se aos naturais, a língua falada e escrita ganhou palavras novas, enfim, o dia a dia se modificou. Tornou-se o ponto de encontro entre arcaísmo, tradição e regularidade e ruptura, aburguesamento e modernidade.

Há muito que estudar sobre o cotidiano de camadas médias, feitas de homens e mulheres anônimos, cujas vidas eram ritmadas pelo trabalho e a repetição. É preciso, contudo, decifrar as linguagens, visuais ou gestuais, pelas quais se exprimiam; é preciso analisar as desigualdades de classe, de idade, de sexo, de condição; é preciso unir o vivido individual com as manifestações de existência que vigiam em determinada época. A lente de aproximação deixava aparecer a densidade das situações de vida e os contextos de ação de anônimos da história. Mas, também, as rupturas, os meios-tons,  as intenções escondidas que seus percursos revelavam. – Mary del Priore

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Cenas do Rio de Janeiro, Debret.

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