O que os jovens esperam encontrar em um museu?

Publicado em 4 de janeiro de 2016 por - Educação

Por Natania Nogueira.

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Crianças em visita escolar a um museu. Imagem disponível em: http://zip.net/bvsDhq, acesso em 29 dez. 2015.

 

Como formador de identidade, um museu deve ter em vista atender à comunidade dentro daquilo que se propõe: espaço de preservação e construção da memória. Museus são importantes para que eu, cidadão, conheça melhor minha História e aprenda a enxergar a realidade não com os olhos do passado, mas com a criticidade do presente.  Logo, quando uma pessoa vai a um museu está sendo introduzida em um espaço de aprendizagem, onde o indivíduo pode complementar o conhecimento adquirido na escola  e até produzir um novo conhecimento.   Neste sentido, é importante estimular visitas escolares sempre que possível. Estas visitas podem envolver professores de várias disciplinas, uma vez que existem museus que abordam as mais diversas temáticas.

Mas museus também são espaços de lazer. Eles são divertidos e podem trazer uma série de opções para pessoas de todas as idades. Cada um deles, na sua singularidade, pode despertar emoções, lembranças, sentimentos relacionados simplesmente ao prazer de se estar num espaço diferente. Conheço pessoas que sentem um grande satisfação, por exemplo, em passear por jardins de museus, em sentar e ficar simplesmente observado os detalhes de um quadro ou da composição de um cômodo.

Mas o que os nossos jovens pensam sobre os museus?

Lendo um livro que comprei recentemente sobre patrimônio cultural (ver sugestões de leitura), eu me questionei a este respeito e senti o impulso de perguntar a alunos e ex-alunos. Elaborei três questões básicas e postei na minha rede social:

– Você já foi a algum museu?

– O que você espera encontrar em um museu?

– Qual a impressão que o museu deixou em você?

Recebi, em menos de 12 horas, 36 respostas. Uma amostragem, pequena, em termos globais, mas bem significativa em escala local. Com idades médias entre 13 e 19 anos, garotos e garotas satisfizeram minha curiosidade e ajudaram a aprofundar minha reflexão.

Todos os 36 colaboradores afirmaram já terem visitado pelo menos um museu, mas poucos realmente possuem o hábito de fazê-lo. Em geral as visitas ocorreram sob supervisão escolar, com o acompanhamento de um professor. Apenas 15% declararam procurar visitar museus fora da agenda escolar.

No Brasil a visitação a museus ainda é muito pequena. De acordo com a pesquisa Frequência de práticas culturais, do Sistema de Indicadores de Percepção Social – SIPS, realizada em 2013, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), apenas 14,9 % das pessoas vão aos museus ou centros culturais.  Este número, apesar de pequeno, reflete um avanço com relação a pesquisas realizadas em anos anteriores. Em 2010, esse público representava apenas 7,4%. Avanços a parte, o número ainda é irrelevante se comparado a outras nações. Países como o México, por exemplo, promovem programas de inventivo á visitação turística de museus. O mesmo acontece na França, na Espanha e em outros países europeus.

Quanto à segunda pergunta, a grande maioria respondeu que esperava encontrar nos museus coisas antigas e preciosas que contam uma história. A ideia de museu para eles está, portanto, ligada como uma “casa do passado”, onde serão contadas histórias que vão, de alguma forma, levar seu usuário ampliar seu conhecimento. Veja alguns exemplos:

“Objetos e imagens que contem a história de alguém ou algum lugar de uma maneira mais interativa.” M. F. G., 17 anos.

“Eu espero encontrar relíquias importantes da história tanto do meu país quando das pessoas que nele viveram. Coisas que marcaram a história da nação preservada para as próximas gerações”. F.B.N., 14 anos.

“Toda vez que eu vou a um museu, principalmente os de história natural, eu espero encontrar artefatos antigos, aqueles bem antigos mesmo. Mas independente de qual museu for, toda a história que o lugar conta através das peças é como o que eu mais me importo”. P.N.B.C., 18 anos.

Cerca de 40% não responderam a esta questão. Ou seja, não possuem uma expectativa acerca do que o museu pode lhes oferecer. Não compreendem sua natureza, não possuem uma opinião formada sobre o museu enquanto espaço cultural e educativo.

Por fim, quanto às impressões deixadas pelo museu, muitos compararam uma visita ao museu como uma viagem no tempo. Alguns consideram o museu uma extensão da escola. A maioria não consegue dissociar o tipo de conhecimento oferecido pelo museu do conhecimento escolar.

Alguns depoimentos chegam a ser apaixonados. Notadamente daqueles que cultivam o hábito de ir a museus. São justamente eles destacam as “sensações” e não apenas o caráter educativo do espaço.

“Ao entrar, analisar, interagir, você pode viver hoje, uma coisa que se passou há muito tempo, conhecer objetos, saber como eram atendidas as necessidades dos antigos povos, conhecer locais, despertar e acabar com algumas curiosidades. Enfim, ao entrar em um museu eu espero voltar ao tempo, rodar o mundo, com apenas alguns passos”. G. M. M., 15 anos.

“Todo cuidado e preocupação com suas heranças me deixaram fascinado. Foi como se eu estivesse viajando no tempo ao apreciar os detalhes! Acho que não basta somente uma ida, pra eu apreciar tudo que ele me oferece”. B.V.I., 15 anos.

“Achei muito fascinante poder andar pelos corredores e cômodos de um “palácio” é praticamente reviver um estilo de época. Eu espero encontrar em museus pinturas famosas, coisas antigas como carros e carruagens, fósseis, arte moderna, história sobre algo, álbum objeto ou alguma pessoa, história sobre uma época é um episódio mundial específico como o museu do holocausto, entre outros”. L. F. P., 18 anos.

“A impressão que tive foi de ficar maravilhado com tudo. Eu fazia questão de ler tudo o que estava escrito e de saber mais sobre o que eu estava vendo. Sem dúvida é algo extremamente mágico. Acho que poucas experiências na vida são tão encantadoras quanto visitar um museu, seja ele qual for.” D. N. C., 14 anos.

A visita a museus ainda está muito relacionada ao seu potencial educativo, a uma atividade escolar, esquecendo-se que um museu também é um espaço de lazer. Muitas pessoas não entendem que ir ao museu pode ser divertido. Muitas famílias que vão passar as férias no litoral, por exemplo, não programam uma tarde ao museu com seus filhos por estão “descansando da escola”.  Embora a função pedagógica do museu lhe seja inerente, ele não deve ser apenas reduzido a ela.

Da mesma forma o conceito de passado/história é apresentado como algo estático e definitivo. Tais concepções há muito foram superadas pela historiografia, mas continuam sendo reproduzidas na sala de aula.  Jacques Le Goff classifica a história como a ciência da mutação e da explicação da mudança. Segundo François Hartog, é preciso ter em mente que como passado e futuro se entrelaçam com o presente. Museus não podem continuar serem reduzidos a “casas do passado” nem o passado histórico pode ser compreendido sem que esteja relacionado ao presente e ao futuro, afinal tanto a construção da memória a da história são processos dinâmicos e interruptos.

No que diz respeito a esta pequena atividade, eu enxergo nas opiniões que me foram expostas uma riqueza muito grande de informações. Não se trata aqui de separar o “saber” do “não saber”, mas, justamente, entender como nossos jovens classificam suas experiências nos espaços de memória. Este conhecimento pode me ajudar, no futuro, a utilizar mais racionalmente o espaço do museu. É, principalmente, um exercício de ouvir o outro, algo que precisamos praticar muito mais na sala de aula.

 

SUGESTÕES DE LEITURA:

LEAL, Fernanda de Moura. Educação Histórica e as contribuições de Jörn Rüsen. Disponível em: http://zip.net/bgsC7D, acesso em 02 jan. 2016.

GIL, Carmem Zeli de Vargas, TRINDADE, Rhuan Zaleski. Patrimônio Cultural e Ensino de História. Porto Alegre: EDELBRA, 2014.

OLIVEIRA, Genoveva. O museu como um instrumento de reflexão social. Disponível em: http://midas.revues.org/222, acesso em 29 dez. 2015.

 

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