O que causou o fim do Império?

Publicado em 16 de novembro de 2016 por - artigos

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A historiadora Mary del Priore, autora de O Castelo de Papel, sobre Isabel e seu marido, Gastão de Orléans, o Conde d’Eu, afirma que a erudição não deixou marcas na princesa Isabel. “Horas de aulas particulares massivas não significam a justa apreensão da matéria”, diz Mary. “Que o diga a cartinha enviada ao pai quando chegou ao Recife: ‘O que mesmo haviam feito por lá os holandeses?’ Ela não se lembrava mais.” A historiadora vai além: “Suas leituras eram censuradas pelo pai e pelo marido e seus melhores conhecimentos eram focados na vida doméstica”.

O casamento de Isabel, tal como o do pai, foi um grande arranjo. Gastão de Orléans, filho do Duque de Namours, chamava a futura esposa em correspondência com o pai de Negócio nº 1 (o Negócio nº 2, claro, era a princesa Leopoldina, que se casaria com seu primo). Tal como Pedro, Gastão não gostou da prometida. Em carta à irmã, descreveu a noiva em tom pouco lisonjeiro: “Para que não te surpreendas ao conhecer minha Isabel, aviso-te que ela nada tem de bonito; tem sobretudo uma característica que me chamou a atenção. É que lhe faltam completamente as sobrancelhas. Mas o conjunto de seu porte e de sua pessoa é gracioso”.

Mesmo assim, toda a correspondência e a pesquisa historiográfica posterior mostra que o casal era apaixonado e fiel. Havia apenas um problema – e gravíssimo. Isabel não engravidava. A primeira gestação da princesa ocorreu quase dez anos depois do casamento, e no lugar errado. O casal estava na Europa. O contrato pré-nupcial obrigava que o herdeiro do trono nascesse no Brasil. Atravessaram o Atlântico e no dia 25 de julho de 1874 Isabel teve as primeiras contrações. “Mãe e filho passaram 50 horas em dores e sofrimento”, relata Mary del Priore. A criança, uma menina, morreu no útero. Para retirá-la – e salvar a vida da princesa – os ossos da feto, inclusive os do crânio, foram quebrados. O episódio dá início a um triste distanciamento entre Isabel e o pai, a quem ela culpou pela viagem de volta ao Brasil. Isabel e o marido mudaram-se para Petrópolis. A perda do bebê radicalizou a carolice da princesa, que se ligou cada vez mais à família e à religião. O casal teve mais três filhos.

O imperador não gostava do genro, considerado liberal demais. Na Guerra do Paraguai, Gastão se ocupou de perseguir Solano Lopes depois que o futuro Duque de Caxias tomou Assunção. Uma de suas primeiras providências foi abolir a escravidão no país vizinho. A imprensa, a quem dom Pedro II permitia uma liberdade raramente vista no país, via em Gastão um estrangeiro que tinha os olhos grandes no império brasileiro e manipulava a mulher. Além disso, o culpava de ganhar dinheiro explorando pobres nos cortiços no centro do Rio de Janeiro, que alugava.

Falta de apoio

Nas narrativas tradicionais sobre o Segundo Reinado, cabe a Isabel papel preponderante. Ela era “A Redentora”, responsável pelo grande gesto do fim do século 19, a abolição da escravidão. A Lei Áurea, aliás, é um requinte de minimalismo com seus dois artigos curtos: abole-se a escravidão e revogam-se as disposições em contrário. Na prática, não foi bem assim. Em 13 de maio de 1888, Isabel perdeu o apoio do último grupo que sustentava a monarquia, os fazendeiros, ainda que, como um canto do cisne, seu gesto tenha levado a monarquia à sua fase mais popular no Brasil. “Vossa alteza redimiu uma raça mas perdeu seu trono”, anteviu o Barão de Cotegipe, um dos últimos chefes de governo do império. A propósito, é de Cotegipe uma das boas frases sobre os estertores da monarquia brasileira: “Não precisamos ir para a República; ela vem para nós”.

Na prática, Isabel estava isolada. Os jornais a tratavam por carola. O fato de Gastão de Orléans ser francês ajudava os propagandistas do temor de que o Brasil poderia ser governado por um estrangeiro – e a princesa submissa ao marido ajudava na avaliação. Gastão, em sua correspondência com o pai, atestava essa visão: “Ela estava habituada a nunca ter vontade”, escreveu. “O campo estava livre para exercer todas as audácias de seu caráter.” O próprio dom Pedro II não via na filha a melhor pessoa para assumir o papel de imperatriz. Deixava-a à margem das decisões da política. “A impressão que se tem, ao estudar a história do Segundo Reinado, é que dom Pedro nunca acreditou de fato que a filha pudesse assumir o trono”, afirma Laurentino Gomes. Quando o imperador se mostrou preocupado com o futuro da monarquia brasileira e perguntou ao seu ministro José Antonio Saraiva o que seria o reino de Isabel, ouviu como resposta: “O reinado de vossa filha não é deste mundo”. Uma óbvia indicação de que a carolice da sucessora não encontrava eco no Brasil do fim do século 19.

De acordo com Mary del Priore, não há nada que indique que dom Pedro tenha intencionalmente alijado Isabel do poder. “Mas não há dúvidas, comprovadas pela correspondência do Conde d’Eu com a França, que ele nunca incentivou o casal a ter envolvimento político maior, quer participando das reuniões ou das entrevistas com o ministério, quer circulando pela cidade para angariar simpatias.” Ao contrário, diz Mary, dom Pedro não se importou quando o casal se afastou da corte para morar em Petrópolis. “Onde cultivaram poucas amizades e contatos, que lhes faltaram no momento do golpe.” Em defesa do imperador, diga-se que Isabel tinha ojeriza à política.

Em carta ao pai, como regente em uma das viagens de dom Pedro ao exterior, Isabel contou como organizara a agenda: “Já marcamos as audiências para as quintas-feiras seguida de despacho; as recepções para as segundas e o corpo diplomático para as primeiras terças dos meses”, registrou. “Por ora, eis meus únicos atos oficiais. Quem me dera não ter nenhum a fazer!!!” Durante suas viagens pelo país, as anotações em seu diário têm pouco espaço para discussões políticas, mas brotam comentários sobre jardins, concertos e jantares.

Contra o Terceiro Reinado nas mãos de Isabel também pesava uma questão pessoal. Desde a regência que substituiu dom Pedro I, havia alternância de poder, ainda que as eleições fossem viciadas. Mas nenhuma mulher podia votar no século 19. Mesmo que Portugal, de onde o Brasil herdou o ordenamento legal da monarquia, permitisse que mulheres assumissem a coroa, uma presença feminina no trono incomodava. “No Brasil, conservador e patriarcal, dom Pedro sabia que o exercício político de Isabel era tarefa difícil”, afirma Laurentino Gomes. “Uma mulher no trono seria um desafio enorme. O imperador manteve a princesa próxima do trono apenas dentro dos limites do protocolo.”

Dom Pedro tinha clareza de que emplacar a filha como sucessora era uma tarefa complicada. E a história mostra que ele não se empenhou muito em mudar esse destino. “Nunca pareceu interessado em preparar um terceiro reinado, para a filha ou para dom Pedro Augusto (veja quadro na página 35), o filho mais velho de Leopoldina”, anota José Murilo de Carvalho na biografia do imperador. “Educou Isabel como tinha sido educado, mas não lhe entregou o governo nem mesmo quando já não tinha condições de governar.” Para a historiadora Mary del Priore, o empenho de dom Pedro na sucessão simplesmente não existiu. “Sem agenda definida para o império, acho difícil imaginar que, tal como outros imperantes, dom Pedro tivesse interesse em organizar a transição. Em coroas europeias, essa era uma preocupação permanente”, afirma Mary. “Mas não consegui identificar, na relação de dom Pedro com o casal D’Eu, nenhum impulso de ajuda ou incentivo nesse sentido.”

Leia o artigo completo na revista “Aventuras na História”:

Por que a monarquia caiu?

 

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D. Pedro II e Isabel (revista Aventuras na História).

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