O pecado dos padres: fornicação, homossexualidade e maledicência

Publicado em 27 de julho de 2014 por - História do Brasil

A leitura de inúmeros depoimentos relativos à sociedade colonial vem reforçar a imagem de total desregramento moral já arraigada na mentalidade brasileira. Muitos destes observadores, comprometidos de alguma forma com a Igreja ou o Estado, mostraram-se escandalizados com o comportamento nos trópicos. Nem mesmo os clérigos eram poupados em relação à moral. O jesuíta português Antônio Viera, zeloso com a postura que o pregador deve assumir perante os fiéis, faz uma referência indignada a desvios de atitude de alguns padres:

Na comédia o rei veste como rei e fala como rei, o lacaio, o rústico veste como rústico e fala como rústico, mas, um pregador, veste como religioso e fala como…não quero dizer por reverência ao lugar”.

Emanuel Araújo (“Teatro dos Vícios”) ressalta que padres e freiras, em geral, não procuravam nem mesmo manter as aparência de recato e pureza que se esperava deles. Segundo o autor, eram comuns entre os membros da Igreja casos de “homossexualismo, excessos no trajar-se, de sedução de mulheres, afora o mais frequente em que se envolviam os padres: o concubinato”.

As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia os religiosos eram admoestados a viver “virtuosa e exemplarmente”. Na sátira atribuída a Gregório de Matos, padres e freiras são duramente desqualificados por seus amores ilícitos:

“Mas o frade malcriado,

o vilão, o malhadeiro

nos modos mui grosseiro,

nos gostos mui depravado (…)”

Outro jesuíta famoso, João Antônio Andreoni, também falava das transgressões do clero e da sua falta de condições para aconselhar os fiéis: “uma vez que não são poucos os sacerdotes na cidade, pouco iniciados, que carecem de conhecimento de teologia moral para assumir para assumir a cura das almas”.

Vieira, 40 anos antes, afligia-se com a “necessidade espiritual pouco menos que extrema” dos portugueses residentes no Brasil. A causa deste mal seria a escassez de curas e párocos, e a péssima situação dos poucos que existiam: “porque o que tem feito grande mal a este estado são homens de vida e doutrina pouco são homens de vida e doutrina pouco ajustada”. O despreparo dos religiosos e a soltura de seus costumes foram preocupações centrais na política contrarreformista. No Brasil, a ideia de um clero “profissional” encontrou dificuldades maiores, que comprometeram a propagação das das decisões tridentinas na América Portuguesa.

As acusações trocadas entre os próprios religiosos eram comuns. Em 1692, Andreoni, em defesa ao P. Alexandre Perrier, ataca o comportamento do seu acusador, P. Almeida: “o irmão João Álvares confirmou que, quase por três meses, foi provocado pelo P. Almeida para fins desonestos e uma vez para apetite da carne, e, com dificuldade ter-se escapado pela força de pedidos inoportunos, e ousadia pior e mais nefanda (…) E ainda era sabido que possuía torpe familiaridade com mulheres desonestas”.

Já com o Padre Rodrigues, Andreoni foi mais complacente, pedindo segredo quanto ao seu delito e suplicando absolvição da pena de cárcere. Rodrigues era acusado de ter enviado “remédios” para uma escrava provocar o aborto, com a qual teria admitido ter cometido adultério.

A imagem dos sacerdotes era bastante negativa nos tempos coloniais. É preciso levar em conta também que divergências internas às ordens religiosas podem causado algumas acusações injustas. Por outro lado, a falta de “decoro” dos representantes da Igreja poderia comprometer a harmonia idealizada da sociedade colonial, e por isso, deveria ser fortemente combatida. – Márcia Pinna Raspanti.

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Antônio Vieira: combate à falta de decoro de seus companheiros.

 

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4 Comentários

  1. Marcos disse:

    Não é tão usual uma historiadora de largo conhecimento ainda usar os termos pejorativos como homossexualismo num texto que se pretende acadêmico…

    • marcia disse:

      Marcos, o termo homossexualismo não foi usado de forma pejorativa. É necessário compreender que no período tratado no texto – século XVII e início do XVIII – as relações entre pessoas do mesmo sexo eram consideradas desvios de comportamento. O artigo – que não tem pretensão de ser acadêmico, pois trata-se de um blog para troca de ideias e reflexões sobre História do Brasil – tenta mostrar um pouco do ambiente do Brasil Colônia, e de como padres e religiosos estavam inseridos nesta sociedade. Márcia Pinna Raspanti.

      • Matheus disse:

        Mesmo assim está incorreto. O termo “homossexualismo” foi cunhado somente na segunda metade do século XIX.

        Para o contexto do Brasil colonial, a palavra correta seria “sodomia” ou algum termo correlato.

        De todo modo, a palavra “homossexualismo” aparece no texto referenciando um outro trabalho e não algum documento primário.

        • marcia disse:

          Matheus, em nenhum momento foi dito que “homossexualismo” era uma palavra usada no período a que se refere o texto. O termo aparece no título e na citação de uma obra de Emanoel Araújo. Na época, como você lembrou, utilizava-se com frequência “sodomia” para se referir a um relacionamento sexual entre dois homens. Discordo que seja incorreto utilizar a palavra “homossexualismo” no contexto em que foi empregada. Sei que algumas pessoas preferem “homossexualidade”, por enxergar que o sufixo “ismo” possui carga negativa, mas não há nenhum componente pejorativo no artigo, apenas uma abordagem histórica. A intensão do texto, repito, é mostrar como alguns comportamentos – principalmente do clero – eram encarados naquela época.

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