O mistério e a vergonha da “mulher mais velha”

Publicado em 30 de junho de 2015 por - História do Brasil

Apesar de os casamentos entre homens mais velhos e meninas mal saídas da infância ter sido prática comum no Brasil desde os tempos da Colônia, as uniões entre mulheres maduras e homens mais jovens eram vistas como indecentes. A mulher com mais de trinta estava “passada”. Não tinha mais o frescor da mocidade, mas exercia um grande fascínio sobre os rapazes, por presumirem que ela conhecia algo a mais sobre sexo. A mulher mais velha era vista como mais experiente que as mocinhas casadoiras, geralmente ignorantes a respeito dos prazeres da alcova. Para um adolescente, era a possibilidade de aprender muito sobre o assunto…

As mulheres que se aventuravam nesse tipo de relacionamento, porém, eram severamente julgadas pela sociedade. No passado, segundo Mary del Priore, havia maneiras de punir publicamente mulheres que rompiam com o critério de igualha na idade entre cônjuges: puxavam carroças com o lixo da cidade ou eram fustigadas pelos vizinhos, montadas de costas num burro. Autores como Balzac tinham tratado do assunto. Graças a um personagem do romance A duquesa de Langeais, Henri de Marsay, o escritor francês deu vida a um romance entre um rapaz e uma viúva sem filhos.

E se a mulher fosse casada, então, as consequências poderiam ser gravíssimas. A tese da legítima defesa da honra, e a reação do marido traído, com o apoio da sociedade, era uma das regras. “A privação dos sentidos e da inteligência”, que um jurista chamou de “passionalismo sanguinário”, autorizava que a adúltera fosse morta, “pelo bem do Estado”. Nos tribunais, a conduta do homem nunca era julgada. Já a mulher era sempre uma “desavergonhada”: para o juiz, para a família e para o mundo. Na jurisprudência, o nome que se dava para o marido que matasse a mulher era uxoricida. Nos tribunais, ele levava sempre a melhor.

Em “Matar para não morrer”, a historiadora nos conta a história do amor proibido de Dilermando e Dona Ana, que era então casada com o escritor Euclides da Cunha. O final trágico desse triângulo amoroso todos nós conhecemos. Vejamos um trecho que nos mostra como um romance com uma mulher mais velha afetava de maneira diferente os homens:

Dilermando, na flor da mocidade, cumpria dois papéis. O que fora preparado pela família e pela sociedade. No primeiro caso, sentia-se ‘responsável’ por Dona Saninha e seu filho, como o seria pela mãe e o mano. ‘Responsabilidade e trabalho’: não fora educado assim? Cuidar, zelar, amparar eram verbos que a mentalidade conservadora estimulava. A mulher, ser frágil, carecia de proteção. O jovem metido na farda militar não podia ter outro objetivo se não dar assistência à pequena família que ele entendia, fora deixada à própria sorte. A mesma mentalidade que fazia do jovem o futuro provedor, valorizava sua virilidade de predador”.

       Para o jovem amante, o relacionamento, apesar de ser motivo de censura pública, era também um atestado de sua virilidade. Na época, causava espanto que um rapaz de 17 anos estivesse se relacionando com uma mulher de mais de 30, que, sobretudo, se mostrava apaixonada. “Isto significava que ele era um amante fenomenal. Com poucas mulheres para tantos homens, ele fora escolhido. Podia gozar dos atributos dela sem cansaço”, diz Mary.

Enquanto havia certa ambiguidade em relação aos homens jovens, que podiam exibir tais relações como importantes conquistas no campo amoroso, o romance era uma verdadeira mancha para a mulher, que era vista como desavergonhada por procurar os prazeres do sexo nos braços de um rapaz mais novo. E hoje, será que ainda existe tanto preconceito em relação a uniões entre mulheres maduras e rapazes mais jovens?

Texto de Márcia Pinna Raspanti.

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“La Maja Desnuda”, de Goya.

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2 Comentários

  1. Osmar Castagnawww disse:

    Adorei os “mistérios e as vergonhas das mulheres mais velhas”. Tenho 59 anos e ainda pertenço a uma geração onde as mulheres ainda sofriam determinadas consequências na pele; o casamento era mantido, por vezes, em função de um falso moralismo e de uma hipocrisia sem tamanho – afinal de contas, “o que Deus uniu, o homem não poderia separar”, e era muito comum ouvir comentários sobre “aquela separada”…
    Parabéns, e quero receber novas publicações,
    um abraço cordial…

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