O jovem conde D’Eu

Publicado em 12 de março de 2014 por - História do Brasil

Da família Orléans, veio para o Brasil o filho do duque de Nemours: Gastão, Conde D´Eu. Sua mãe, Vitória de Kohary, chamada de “botão de rosa” por Leopoldo da Bélgica, sofria de uma timidez doentia que a impedia de brilhar nos salões. Nascida em 1822 e educada na capital do império austríaco, no palácio de Kohary, Vitória não se parecia em nada com o retrato que se fazia de uma vienense, no início do século XIX. Era antes de tudo, uma mulher apaixonada por seu marido. Sua correspondência revela sentimentos recíprocos, tão intensos em um quanto em outro dos cônjuges. Nas cartas, despediam-se: “sempre seu /sua do fundo da alma”. Eram extremamente unidos e felizes e tinham três filhos: Gastão – o conde D´Eu, Ferdinando, duque de Alençon e uma filha, Margarida.

O duque de Nemours, logo depois da morte do pai, no exílio, em Claremond, assumiu o lugar de conselheiro e “confessor civil” da rainha Maria Amélia. Embora tivesse direito ao título de regente, ele nunca o reclamou. Era homem de lealdade e firmeza irreprocháveis. “Homem de dever”, dele diria Hervé Bazin. E sobre seus filhos não seria diferente. Educou-os com extrema severidade, “sem fraqueza e sem excesso de preocupação”.

O programa de estudos de Gastão e Ferdinando era carregado. Todos os dias, salvo aos domingos, tinham aulas das 7 às 8 e das 9 horas ao meio-dia. Depois, das 14 às 16. Aos dez anos conheciam os clássicos em francês e latim, gramáticas, prosa e poesia. História e Geografia com ênfase em Antiguidade greco-romana, muito estudadas. A isso vinha se juntar uma educação física que não os poupava. Em todas as estações levantavam-se cedo para submeter-se ao “regime da esponja gelada”, um banho de água fria. Movimentos de ginástica nos jardins, seguidos de aula de equitação, sem estribo ou sela, eram diários. Para tornar os meninos mais aguerridos “ágeis e mestres de seu próprio medo e instinto”, Nemours instituiu a “defenestração”. Ambos eram amarrados por uma corda na cintura e desciam, das altas janelas do palácio até o chão. A vertigem não resistia a este tratamento. No verão, eram jogados no meio de rios gelados – no caso o Tamisa, onde se encontravam exilados – e tinham que alcançar suas margens, como pudessem. Nos Arquivos da Casa de França – Archives de la Maison de France – encontra-se a correspondência do pai, sobre a evolução dos filhos. Gastão e Ferdinando temiam e adoravam o pai ao mesmo tempo.

Segundo seus biógrafos, Nemours era o mais pobre dos filhos do Rei de França. Com a família, tinha uma vida severa e sem luxo. Nada de recepções ou bailes importantes. As viaturas eram alugadas e o pessimismo do pai sobre a situação financeira da família, sobretudo, durante o exílio da família real, na Inglaterra, pairava como uma nuvem. Os meninos eram adolescentes quando a mãe, que adoravam, morreu. Depois, Gastão e Ferdinand fariam o High-School em Edimburgo, na Escócia e o aprendizado militar no exército espanhol. À sombra do pai que ficou morando com a avó, Maria Amélia, tiveram uma juventude menos brilhante do que a dos primos.

Depois de ter casado sua filha Chiquita com o primo-irmão, o duque de Chartres e ver seu filho, o duque de Penthiévre entrar na carreira da marinha americana, Joinville se interessou pelo destino matrimonial das sobrinhas nos Trópicos. E, a pedido do cunhado D. Pedro II, consultou Nemours sobre a possibilidade de um de seus filhos se casar com uma herdeira brasileira.

A rainha Maria Amélia desencorajava essa união e o próprio Nemours mostrava-se consternado diante desta possibilidade. A obrigação de fixar residência no Brasil e renunciar a qualquer posição que não fosse brasileira, exigência de D. Pedro II, incomodava a Casa de França.  Em carta  ao irmão mais jovem, o duque de Alençon, a avó e rainha irá se referir de forma crítica “à profundidade do sacrifício para seu pai […] o fato que nos priva de Gastão,  e impõe novos deveres”, demonstrando que o neto mais velho contrariava as decisões familiares ao esposar a filha do Imperador brasileiro.

Tudo indica que há correspondência do duque de Nemours contra as exigências de D. Pedro II. Gastão, por seu lado, já decidido tentava conciliar as preocupações de seu pai e as do futuro sogro. Nemours estava particularmente preocupado com os problemas de sucessão. Em carta de 7 de setembro de 1864, o jovem conde D´Eu lhe diz que não seria o caso de voltar atrás sobre um ato consentido, lembrando ao genitor as regras estipuladas: viuvez, sem filhos, lhe garantiria liberdade completa. Com filhos, só poderia deixar o Brasil após a maioridade dos mesmos. Sobre a possibilidade da Imperatriz Teresa Cristina engravidar ainda mais uma vez, ele dizia:

Não creio que o Imperador admita jamais que sua filha primogênita possa ocupar um trono estrangeiro, basta ver a sujeição a que quer submeter a segunda” – tratava-se da princesa Leopoldina casada com Gusty de Saxe e Coburgo.

Mais adiante, Gastão precisava: “[…] jamais antevi a possibilidade de portar a coroa de meus ancestrais e é com todo o coração que renuncio à remota chance de obter algo que me é devido pelo nascimento”.

O jovem conde D´Eu era descrito, na correspondência como “bom, amigável e inteligente”. Apenas, um pouco surdo.  O biógrafo da família, René Bazin, explica sua decisão como fruto da “aspiração a um papel importante no campo militar” e pelas “eminentes qualidades da princesa imperial”, Isabel,  então com 18 anos. Ninguém sabe ao certo como dois primos irmãos vindos da Europa, Gusty de Saxe e Coburgo, filho de Clementine e Gastão de Orléans, escolheram suas companheiras; mas “petites histoires”, não faltam.

Más línguas dizem que no vapor Paraná que os trouxe ao Rio de Janeiro, os primos as teriam disputado nas cartas e dados.  Mas é mais provável que Gastão, com 22 anos, se sentisse mais apto a esposar a herdeira do trono, do que Gusty que só tinha 19 anos e não parecia disposto a assumir tantas responsabilidades. Depois que desembarcaram, os príncipes compreenderam a importância de uma tal decisão. Se Nemours, pai de Gastão, não desejava para seu filho uma posição de tanto destaque – como fica claro na correspondência que trocam – é porque conhecia bem as exigências do cargo. Para D. Pedro II era impensável que o marido da princesa herdeira, chamado a compartilhar o trono, viesse jamais “a ocupar outro”.

A dois de setembro de 1864 chegavam ao Rio o Conde D´Eu e o Duque de Saxe. Pensava-se no Conde d´Eu para minha irmã e no Duque de Saxe para mim. Deus e nossos corações decidiram diferentemente”, escreveu a princesa Isabel em seu diário. Enquanto isso, Gastão se correspondia com a irmã, preparando-a para conhecer a noiva: “Nada tem de bonito no rosto, mas, o conjunto é gracioso”, informava.  Segundo ele, Isabel, mais do que Leopoldina estaria apta a assegurar-lhe “a felicidade doméstica”. A 15 de outubro de 1864, Isabel casava-se com o Conde d´Eu elevado a marechal do Exército brasileiro. – Mary del Priore

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Os noivos: Isabel e Gastón

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