O jeans e outras “modernidades”

Publicado em 14 de janeiro de 2018 por - artigos

            Contra a calça comprida e o paletó escuro, a mudança chegou nos anos 40 quando o jeans desembarcou. Conhecido como calça “rancheira” ou “faroeste”, o jeans podia ser usado com a barra dobrada ou não. Outro item, made in USA, era a camiseta branca usada por baixo da camisa social. O cinema americano impulsionava os modelos masculinos de beleza e virilidade, e os heróis, notadamente os soldados que haviam lutado na guerra, assim vestidos, faziam suspirar as moças da plateia. Do cinema far-west, veio junto com o jeans, a camisa quadriculada e os chapéus de aba larga. “Trouxera eu um chapéu texano de abas largas, e exibia-me, ao fim da tarde, pela rua principal”, confessou vaidoso, Pedro Calmon.

            Também na época, surgiram os zoots: rapazes que resgatavam o figurino de cantores de swing, um tipo de jazz dançante, assinala Marco Sabino. Terno branco ou quadriculado, composto por amplo paletó acinturado com ombreiras, calças justas e sapatos de verniz, além de relógios com corrente, gravata e lenço de cor viva no bolso. Era look transgressor e foi adotado por Veríssimo quando trabalhou em Porto Alegre:

“A maneira como nos trajávamos então me faz rir agora: chapéus pretos e peludos, metidos na cabeça e quase tocando as sobrancelhas; camisas de tricoline nas cores mais espalhafatosas, com gravatas de tope, estreitas como cordões de sapato; casacos cintados de um botão só; calças afuniladas que nos davam um trabalho danado para vestir; sapatos de bico pontiagudo”.

Mas isso tudo era para os que tinham informação, dinheiro e acesso ao comércio. A diferença entre os “smarts” e a “gente encarangada”, viu-a de perto Veríssimo, na elegância do jornalista e escritor Manoelito de Ornellas: “A primeira vez em que vi Manoelito de Ornellas foi numa tarde de inverno em 1928. Atravessava ele a praça principal de Cruz Alta, envergando um sobretudo preto transpassado, de corte elegante, com gola de veludo, a bela cabeça coberta por um chapéu gelo claro. Caminhava teso, com passadas firmes e cadenciadas, o queixo erguido. Via-se logo que não era uma pessoa qualquer, mas uma personalidade. Parecia um diplomata, um ministro plenipotenciário que por engano tivesse desembaraçado naquela cidade serrana…onde o inverno trouxera para as ruas velhos ponchos, palas e casacões veteranos, bem como a gente encarangada e pitadores de palheiros com barbas de dois dias”.

Outro estilo, mais “moderno”, foi o de Mário de Andrade que deixou para seu biógrafo, Moacir Werneck de Castro, um retrato colorido de quando morou no Catete, Rio de Janeiro, em 1938: “Se vestia a capricho com audácias estudadas”. Tinha um suéter bariolado. Usava meias de losangos coloridos – arlequinal – e gravatas que inspiravam protestos, especialmente uma em amarelo-canário. Usava pijama roxo e ternos de tecido inglês, casimira ou linho branco S.120; para noites de gala, smoking. O chapéu de feltro marca Ramenzoni acabou abandonando por conta da “bagunça carioca”. Trazia no bolso uma folha de papel de seda com pó de arroz, que passava no rosto para atenuar o tom ocre da pele. Não dispensava água de colônia nem perfume francês. Como se vê, a moda, – como bem resume Márcia Raspanti – era instrumento masculino para definir a posição do homem perante os outros e si mesmo.

  • “Histórias da Gente Brasileira: República 1889-1950 (vol.3), de Mary del Priore. Editora LeYa, 2017.

 

 

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Cena de “Assim caminha a humanidade”, de 1956, com James Dean e Elizabeth Taylor. (Reprodução)

 

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