O imperador, a amante francesa e o bastardo natimorto

Publicado em 11 de junho de 2017 por - artigos

D. Pedro apreciava “dançarinas e coristas, em detrimento de damas de alto coturno”, segundo o naturalista francês Victor Jacquemont. Na época, amantes e concubinas eram o avesso das esposas. Estas cuidando da linhagem e dos filhos, portanto do sangue. Aquelas, do prazer, logo, da carne. Ambas completavam o homem. As vagabundagens amorosas do príncipe eram largamente conhecidas e D. Pedro, apesar do matrimônio, não parecia inclinado a recusar nenhum deleite nascido dos sentidos.

A moça chamava-se Noémie Thierry. Filha de um artista francês, era dançarina de teatro. O príncipe encontrara-a num espetáculo no qual se exibia com a irmã, encantando-se com sua beleza e sensualidade. À mãe da jovem foi dada uma quantia vultosa para que ele pudesse gozar do privilégio de visitá-la secretamente. Posteriormente, Noémie foi alojada nas dependências do Palácio de São Cristóvão. Incapaz de dominar sua paixão, D. Pedro queria desposá-la secretamente. Segundo alguns contemporâneos, a moça era educada e empreendeu a instrução de seu real apaixonado.

Às vésperas da chegada de Leopoldina, a notícia dos amores do príncipe propagou-se pela cidade. Aliás, o assédio que fazia às mulheres era assunto corrente. Andava pelas ruas à cata de presas. Não poucas vezes, apeara do cavalo para levantar a cortina de uma cadeirinha que passava carregada no ombro de escravos. Ele não conhecia limites nem diante da família nem diante do marido da mulher desejada. Pais honrados trancavam suas filhas para protegê-las. Explicou um deles: “para que a língua do povo não rumorejasse.”

O gosto pela informação e a curiosidade pública desenvolviam-se na pequena cidade e deixavam os indivíduos em condições de “saber sobre os outros”. O povo adorava conhecer os boatos que varriam a corte. À boca pequena, murmurava-se sobre a rainha com o comandante das tropas navais britânicas, Sy dney Smith. A este, Carlota Joaquina deu de presente uma espada e um anel de brilhantes. Ou o assassinato com um tiro de bacamarte – a mando da própria rainha – da mulher de um funcionário do Banco do Brasil, sua rival. Enquanto isso, comentava-se a solidão de D. João VI, atenuada – dizia-se – pelos cuidados de seu valete de quarto.  

O caso do príncipe assumiu ares de gravidade quando se soube que a dançarina estava grávida. Daí nasceria um bastardo, antes mesmo de o consórcio realizar-se. A corte inquietou-se, pois o contrato de matrimônio já fora assinado e a ligação com a dançarina se tornara pública. O príncipe enfureceu-se e protestou quando lhe comunicaram que sua noiva austríaca já estava a caminho. Teve vertigens, passou mal. Recusou desfazer-se de sua “mulher”, como teimava em chamá-la. Rejeitava despedi-la, apesar das ordens, das ameaças feitas por seus pais, toda a corte e o ministério de ser deserdado. Falava-se que alguns cortesãos incentivavam o caso, na esperança de preservar suas próprias filhas. O certo é que D. Carlota Joaquina teve papel relevante nas negociações para afastar a bailarina de São Cristóvão. Sobre tais amores, costumava dizer a rainha: “Se os pais não fossem alcoviteiros, as filhas não seriam putas.”

Curiosa e inquieta, a cidade aguardou o desfecho do caso. Noémie cedeu, apesar de se confessar apaixonada e relutante em afastar-se de D. Pedro. Recusou-se, porém, a voltar para a Europa. Queria ficar no Brasil. Quem sabe um dia os amantes pudessem se reencontrar. Foi bem indenizada: amparada com um dote de cinco contos de réis, enxoval para o filho e, de quebra, ganhou um marido. Este, um oficial português que, por sua condescendência, foi dotado de seis contos de réis em dinheiro e um ofício que montava a 800 contos de réis por ano. Em Recife, Noémie deu à luz um prematuro natimorto. Dizia-se que o corpo embalsamado da criança foi guardado numa caixa e entregue a D. Pedro, que a mantinha no próprio gabinete.

  • “A Carne e o Sangue”, de Mary del Priore. Editora Rocco, 2012.

A cidade avida pelas fofocas da corte. (Imagem: Debret).

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