O “futebol-mulato” e o Estado Novo

Publicado em 5 de outubro de 2016 por - artigos

          A popularidade do futebol cresceria rapidamente no país. De Belém do Pará ao Rio Grande, no Rio Grande do Sul, a bola rolaria nos capinzais desertos do litoral, os primeiros chutes desferidos por marinheiros de navios mercantes ingleses. A seguir, certos mister John ou mister Hugh teriam juntado operários brasileiros e funcionários em gramados improvisados. O football já reinava nas escolas de elite onde estudavam os filhos dos barões de café. Mas a difusão do esporte foi desconexa em diferentes lugares.  O fato é que Charles Muller, em São Paulo, Oscar Cox, na capital, Zuza Ferreira, em Salvador, ou Guilherme de Aquino Fonseca, em Recife, trouxeram, cada qual de suas experiências estudantis na Europa, uma bola, um par de chuteiras, o grito de “goal” e um livro de regras.  Que o diga Carolina Nabuco: o futebol já despertava entusiasmo, mas era ainda apenas de amadores, principalmente grã-finos. Foi só quando veio o profissionalismo que o jogo nacional captou o interesse absorvente do povo e que as figuras dos grandes jogadores assumiram as atuais proporções gigantescas.
”
E logo nos seus primórdios, segundo Laura Rodrigo Octávio, em São Paulo:
“A certa altura dessas performances surgiram no campo uns ingleses jogando uma bola, o que parecia mera brincadeira. Explicaram então ser aquele um jogo inglês, muito interessante que queriam introduzir no país. A coisa tomou impulso, fundaram-se uns clubes: São Paulo Athletic Club, o Club Germania, o Club Internacional, o Club Mackenzie e ali, no Velódromo, o Club Athlético Paulistano. Os teams se compunham de elementos das melhores famílias. O Paulistano jogava lindamente, mas, durante três anos, o campeonato ia até o empate com o São Paulo Athletic e nos desempates, os ingleses ganhavam a taça. Que desespero!…As arquibancadas do Velódromo, então, ostentavam nas paredes dos fundos o escudo do Paulistano, C.A.P vermelho sobre branco. Na extrema direita havia uma parte reservada à família Prado, proprietária do recinto, e cada fila tinha uma portinha interceptando a entrada. As mulheres da família eram elegantes, viajadas, trazendo sempre as últimas novidades de Paris, e eu achava tudo aquilo uma beleza. A saída depois do jogo era longa, pois o campo era retirado da rua, no interior do terreno e nos vínhamos a pé por um caminho mais alto, o pessoal rico, em suas carruagens, com lindos cavalos, na parte mais baixa e baixa que conduzia à rua”.

No Rio de Janeiro, clubes originalmente dedicados às regatas, viam crescer a hegemonia do futebol, caso do Clube de Regatas Vasco da Gama ou Clube de Regatas do Flamengo. Ao mesmo tempo, a bola rolava em outros gramados, esses na periferia, em Cascadura ou Aldeia Campista. O historiador Leonardo Pereira contou mais de trinta clubes, em 1906. Em São Paulo, longe dos “footballers” do Mackenzie ou do Paulistano, operários se reuniam no final da linha do tramway da Cantareira para jogar. Era a Várzea do Carmo que deu origem ao sinônimo de futebol humilde: “o de várzea”, feito de pegas, corridas loucas atrás da bola, fintas e seguidos pelos gritos e pelo entusiasmo das torcidas. Equipes se organizavam e clubes populares, também. Zélia Gattai frequentou um deles:
“Instalada ao lado de casa, funcionava a sede de “Esporte Clube Palmeiras” – que nada tinha a ver com o Palmeiras de hoje, naquele tempo “Palestra Itália”. Clube modesto, o “Palmeiras” meu vizinho realizava todos os domingos, depois do jogo – quando havia jogo – uma vesperal dançante, animada por um conjunto de jazz-band: “Os Batuta Godói”, de seu Godói e quatro filhos moradores do bairro […] Difícil era penetrar no salão. Havia uma ordem da diretoria do clube: “Proibida a entrada de crianças no recinto – para evitar bagunça”.

E Pedro Calmon, os meninos-jogadores em Salvador:
“De começo, ensaiávamos o esporte debaixo das mangueiras. Foi um período futebolístico, de que deu ele – o primo Inácio – conta ao pai então em viagem ao estrangeiro, numa carta de 1916, que José Calasans descobriu no seu arquivo. “Domingo teve uma partida de football aqui em casa entre o Independência. F. C que se compunha de Pedrinho, Fernando eu e Achico e o S.C. Globo que se compunha dos três filhos do Terto e Jerônimo, saindo vencedores nós. Da bola passávamos aos gatos. Ao anoitecer, munidos de vassouras, perseguíamos estrondosamente os bichanos que miavam, acuados e sovados nos altos dos muros.”.

No Sul, na cidade portuária de Rio Grande, o alemão Johannes Christian Moritz Minnemnn resolveu criar um clube de futebol congregando compatriotas, mas, também outros estrangeiros e brasileiros. Nascia o supranacional Sport Club Rio Grande.  Aproveitando-se das conexões entre o porto e as ferrovias, ele se tornou um semeador de bolas pelos pampas, como bem sintetizou o historiador Fábio Franzini. E o estado foi pioneiro tem integrar jogadores de cor aos seus quadros. Enquanto em São Paulo, comunicados circulavam – como o a Liga Metropolitana dos Sports Atléticos – interditando “como amadores nesta liga as pessoas de cor”, em Pelotas, acontecia o oposto: o Esporte Clube Brasil, primeiro campeão gaúcho, contava com negros entre seus atletas. Multiplicaram-se clubes e ligas, Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense à Liga dos Canelas Pretas, embora em ritmo mais lento do que Rio e São Paulo.  Houve clubes mais lentos e jogadores. idem. Que o diga Érico Veríssimo:

“Devo dizer francamente que não sei como, fui classificado no primeiro time de futebol do ginásio, na posição de extrema-direita. Diga-se a bem da verdade que eu era um jogador entre medíocre e mau. Tinha pouca mobilidade, não sabia driblar e principalmente faltava-me agressividade. Naqueles tempos as regras de futebol eram mais “liberais” que as de hoje. Se, por exemplo, o goleiro agarrava a bola, os atacantes contrários podiam empurrá-lo legalmente para dentro do gol a “pancadas, empurrões e pontapés”.

Em 1910, explica Franzini, o futebol institucionalizado ou não, fazia-se presente em quase todo o país. Gente rica ou gente pobre, todos jogavam. Faltava um ponto de convergência que congregasse ligas e federações e que representasse o Brasil junto à Federação Internacional de Football Association, a FIFA, fundada em 1904. Problema resolvido com a fundação na capital, em 1915, da Confederação Brasileira de Desportos. E depois, havia a conversa sobre futebol que dominava:

– “Queres descer no Largo do Machado/ É melhor. Tomamos um café no Lamas. O Lamas é o ultimo refúgio da madrugada…No café, ao redor das mesas, rapazes discutem esporte.
– O Carlos é fundo!
-Vocês estão mostrando que não conhecem o Carlos. Quando o Flamengo jogou contra o Botafogo…

As discussões prolongam-se. São todas as noites são as mesmas, pelos mesmos rapazes. A clientela é habitual. Atrás da caixa registradora, o dono do café contempla, com olhos sonolentos, o entra-e-sai da freguesia e os seus ouvidos são insensíveis ao barulho” – Ribeiro Couto gravou.

Na primeira Copa do Mundo, realizada em Montevidéu, em julho de 1930, a atuação da primeira seleção foi pífia: sexto lugar. Na Itália, em 1934, e depois de uma longa discussão sobre a profissionalização ou o amadorismo dos jogadores – havia quem achasse que o dinheiro deturpava o ideal do esporte – a equipe foi eliminada no único jogo que fez contra a Espanha: 3 a 1. Em 1937, na terceira Copa e com o apoio do Estado Novo, a “pátria, enfim, calçou as chuteiras para não tirá-las nunca mais” como diz Franzini. Mediado por jornais e pela rádio, a popularidade do futebol contagiava a todos. Os jogadores eram considerados os embaixadores na Europa representando a coragem, a disciplina e o patriotismo dos brasileiros. O embarque no cais Mauá foi acompanhando por milhões de pessoas.

E graças ao gingado dos jogadores, Gilberto Freyre pode cunhar o que mais tarde ficaria conhecido como “futebol-arte”: o “football mulato”. Enquanto dizia, ele, o “futebol europeu é uma expressão apolínea de método científico e de esporte socialista em que a ação pessoal resulta mecanizada e subordinada a do todo, o brasileiro é uma forma de dança, em que a pessoa se destaca e brilha”. Nosso time “afro-brasileiro” expressava não só o abrasileiramento do esporte inventado pelos britânicos, mas nossa singularidade: a mestiçagem.  O resultado era nosso maior ídolo, Leônidas da Silva, um craque apelidado de Diamante Negro. Diamante que, segundo a revista francesa Paris- Match, tinha “cabelos esticados, pele escura como um grão de café torrado, pequeno de corpo. Mas sua velocidade é verdadeiramente desconcertante, sua velocidade insuperável […] Quando Leonidas faz um gol, pensa-se estar sonhando, esfregam-se os olhos”. Nessa Copa, o país ficou em terceiro lugar. Em 1938, “O Pai dos Pobres” – como se auto-intitulava Getúlio, concedeu alta subvenção para que a delegação fosse à França. Depois de recebida e cumprimentadas pelo presidente, a equipe seguiu viagem como retrato de nossa democracia racial, ideal propagandeado pelo Estado Novo. Com Leônidas machucado, o Brasil ficou em terceiro lugar: “Desgraça nacional”, segundo o próprio Getúlio, mas a equipe foi recebida, no retorno, como campeã moral. E os jogadores, em desfile em carro aberto, saudados como heróis!

A popularidade de esportes como o futebol crescia, e junto com ela, o controle do Estado. O projeto era consolidar a “raça brasileira” e fazer do esporte o contato entre povo e dirigentes. Em 1938, o decreto-lei 526 criou o Ministério da Educação e Saúde. O órgão visava tanto a “propaganda e campanha em favor das causas patrióticas e humanitárias” quanto à “educação física”. Foi instituída a Comissão Nacional de Desportos, composta de cinco membros indicados pelo Presidente para estudar os problemas do esporte no país e em 1941, nasceu o Conselho Nacional de Desportes encarregado de “orientar, fiscalizar e orientar a prática de desportos em todo o país”.  Ele passaria a submeter clubes e federações, controlando desportistas, esportes e entidades esportivas.

Tanto o esporte quanto as festas cívicas, criadas durante o Estado Novo serviram como ferramenta a ser utilizada pelo Estado – como demonstrou o historiador Maurício Drummond. Teatralizavam a imagem da “nação feliz e longeva”. Comemoravam o “novo”: novo governo, novo regime, nova raça. Enterravam o passado arcaico e saudavam o futuro promissor. Nos estádios de futebol desfilavam crianças uniformizadas, bandeiras à mão, em coreografias que homenageavam a pátria. Retratos de Getúlio eram distribuídos. Os estádios de futebol serviram às inúmeras destas comemorações. Aos desportistas, se juntavam, além de escolares, trabalhadores, representantes de sindicatos e da política. O Dia do Trabalho tantas vezes foi comemorado em estádios: Pacaembu, em São Paulo, ou São Januário, na capital. Sem dúvida, Vargas aproximou o esporte de aspirações que circulavam nos meios populares.
– Texto de Mary del Priore.
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Leônidas da Silva e Getúlio Vargas, no embarque da seleção.

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