O dia a dia nos engenhos

Publicado em 14 de março de 2014 por - História do Brasil

Desde cedo as vozes das crianças enchiam os terreiros. Eram meninos pendurados pela mesa do carro de boi, pedindo ao condutor a macaca para tanger os animais de coice. O ranger das rodas indicava a partida para a plantação ou para a cidade, vender algum produto excedente. Na estrada, cruzavam cargueiros com sacos de farinha de mandioca e caçuás cheios de loucas de barro. De manhãzinha, pelo curral, se começava a tirar o leite e ouviam-se as vozes de escravos ou moleques, atarefados nas manjedouras. Nos galinheiros, empoleiradas em pés de pau, as galinhas recusavam a deixar seu sobrado de galhos. Por toda parte, crianças e escravos tomavam a bênção. Alguns escravos carregavam para os açudes baldes fétidos, cobertos de folhas de baronesa. Escravas, vestidas com chimangos carregavam cestas enormes, a arrebentar de roupas para lavar nos tanques ou no rio. Na cozinha, onde ardia lenha cheirosa, o angu dourava numa uma tripeça de ferro. E o feijão, em outra.

Visitas eram sempre esperadas. As dos mascates, aguardadas ansiosamente. Com seus armarinhos às costas, repletos de produtos comprados às embarcações atracadas no porto da Estrela, eles batiam em todas as portas. Organizados em pequenas tropas para se proteger de perigos, seguiam em burros cargueiros, esmagados sob o peso da mercadoria. No avarandado das casas desenrolavam tecidos diversos, exibiam fitas e rendas ou artigos de perfumaria como sabonetes de violeta, encantando as clientes com estórias da Corte ou notícias de outros engenhos. Além de mascates, as senhoras recebiam também a visita de mulheres de moradores da vizinhança, fossem elas lavradoras, rendeiras ou simples roceiras. As pobres, com vestido de chita novo e xale de ramagens dos grandes dias sentavam-se pelo chão à espera de remédios, conselhos ou sementes para plantar. Algumas traziam presentes: galinhas gordas, rendas, um mimo de ovos.

Nas conversas se costuravam alianças, se trocavam informações sobre pretendentes disponíveis, se comentavam casamentos, nascimentos e mortes. Mas, também, se intercambiavam remédios. Remédio para bicho do pé, roendo pés dos moleques de engenho e para os ainhuns, capazes de mutilar o dedo mínimo. Remédio para mordedura de cobra peçonhenta, que picou muito pé de escravo no avanço da cana. Unguentos para afugentar mosquitos e muriçocas, transmissores de impaludismo e febres. Mezinhas para descarrego dos vermes da terra e das águas do rio, notadamente do Paraíba com suas enchentes e “águas erradiças”, como diz Lamego, causadoras de febres podres. Rezas brabas contra moscas, conhecidas como mosquito de canavial, transmissoras prováveis de tracoma. Em terras de canaviais repetia-se a receita de muito remédio preparado à base de plantas como o poejo, hortelã, macela e camomila, levando mel ou açúcar. De lambedouros, feitos no fogo com água e açúcar, até tomar consistência vítrea, secados sobre folha ou casca medicinal e dados para a criança lamber. De cataplasmas feitas com farinha de mandioca misturada com raízes e cascas ou sementes moídas. A cachaça era santo remédio com aviamento discutido por escravas, senhoras e comadres: em curtimento com colocação de planta na garrafa; em mistura, feita com infusão de plantas, terra de cemitério, umbigo de criança, pitada de terra. Servia para massagem nos pulsos de quem sofresse dos nervos. Para inalação, misturada ao vinagre ou cânfora; servia para esquentar, para esfriar, enfim, para abrir apetite.

E o dia começava com a branquinha. Nos engenhos, adultos e hóspedes se dirigiam, cedo, à casa do estanque onde se guardavam pipas e barris de aguardente e tal como se fazia em Portugal com vinho tinto, matavam o bicho com um copinho de vidro colorido. Seguia-se o chá mate chamado de congonha, mas servido com açúcar e em xícaras. Gente rica o acompanhava de pão de ló e outros doces de forno. Ou tomava-se água de açúcar ou jacuba, água fria com farinha de milho e se almoçava as oito ou nove horas da manhã. Serra acima, o almoço era feito de feijão, farinha e carne de porco. Serra abaixo, o pouco cultivo do milho, fazia da farinha de mandioca o alimento mais comum. Ovos estrelados acompanhavam almoços e jantares. Na época das laranjas, elas também vinham à mesa como iguaria para acompanhar o virado de feijão. O jantar saía seis horas depois do almoço, às 13 ou 14 horas. Repetiam-se comidas do trivial cotidiano salvo em dias de festa, em que os pratos mais elaborados eram servidos.

Caindo à tarde, a família se reunia para observar o movimento da fazenda; a vinda do gado que, deixando as pastagens, se recolhia aos abrigos curraleiros; a chegada das últimas viagens de cana ou de mantimentos provindos da roça; a formatura, a contagem e a revista dos escravos; a chegada de tropas com seus cavalos e canastras. Nos arredores da casa grande, trabalhadores cruzavam mulheres carregando potes d’água na cabeça. Em casas de palha, roceiras sentadas no batente, catavam a cabeça de crianças, sobre esteiras de piripiri. Outras trabalhavam nos bordados, batendo bilros em suas almofadas.

Descia a noite “sob a melodia simples e monótona de versinhos…canto da gente do bangüê”. Ouviam-se, também, repetitivos acalantos. Na sala, jogavam-se prendas, o queijo do reino sobre a mesa. Nas conversas, os assuntos prediletos eram a lavoura – a cana, a mandioca –  as chuvas e a estiagem. A política era tema pouco tratado e, apenas, de tempos em tempos, um jornal trazia novidades da Corte. À luz de candeeiros, vozes murmuradas distribuíam predições de chuva, colhidas na experiência dos astros: “Choveu na primeira e oitava de santa Luzia. Fevereiro e março vão ter chuvas. Os porcos estão carregando mato, sinal de chuva”. Outro assunto de predileção eram as visagens, assombrações e estórias de gente que se “envultava”nas encruzilhadas dos caminhos ou perto dos cemitérios. No silêncio do sono, ouviam-se vozes de crianças que tinham morrido sem batismo a pedir o sacramento. Além do temor dos mortos, os vivos também faziam medo: quilombolas fugidos rios acima, aninhados pelos matos tiravam definitivamente o sono dos que moravam nos engenhos.

Nos oratórios dos engenhos, com suas grandes portas abertas e pintadas com santos, as mulheres se reuniam para rezar. Faziam preces para pedir chuva, nos tempos de seca, quando os crepúsculos parecem fornalhas e vigários exortavam às fiéis a repetir ladainhas à Virgem. Com as portas abertas para o terreiro, às suas vozes vinha se unir o coro de escravos, feitores e homens forros, de joelhos ao ar livre. As rogações anunciadas depois dos sermões dominicais, incentivavam que, como penitentes, algumas caminhassem descalças, cabelos soltos, levando andores leves pelas estradas vizinhas.

O jardim também era um espaço feminino dentro do engenho. Aí se colhiam esponginhas, cravos, independências, espirradeiras, bandeiras inglesas. Palmeiras, acácias, paus d’arco, somavam-se aos pés de vários frutos. Cigarras cantavam nas jaqueiras, touceiras de coentro, craveiros e pés de bogaris. Quando morria alguém, a dona da casa mandava flores do seu jardim para a casa do defunto. Em muitos tanques de azulejo, com seu clássico repuxo, nadavam peixinhos. Os pomares exibiam jaqueiras, laranjeiras, mangueiras, tamarindeiros, ingazeiros, pitangueiras, sapotizeiros e plantas de especiaria como a baunilha, a cânfora, o cravo da índia, a caneleira, a noz moscada. As frutas eram para o fabrico de doces. Para afugentar pragas, inseria-se casca de ovo entre os canteiros. Para afugentar doenças do galinheiro, uma bandeira em estaca, fazia às vezes, de sentinela. Nos roçados e plantações, o jeito era o chifre ou cabeça de boi, como guardiões da saúde da colheita.

A vida diária no campo era cheia de atividades. Cabia às roceiras e donas de partidos de cana a ordenha das vacas, dar milho aos porcos e galinhas. As que tinham escravos ou trabalhadores os mandavam cedinho para a roça. As canas de açúcar – na explicação de Maria Graham – eram plantadas aqui durante os meses de março, abril, maio e mesmo junho e julho. Nas filas entre elas, cresciam pés de milho e de feijão, cujo cultivo lhes era favorável. O açúcar, propriamente dito, requeria trabalho árduo. Três meses de espera para a produção medrar, depois de duro preparo da terra com a enxada. A produção começava com a trinca, plantar, colher e moer. Seguia-se, decantar, purificar e embalar. Sua manufatura e cozimento eram feitos em vários tachos de cobres, aquecidos por fogo a lenha, lenha só substituída, no século XIX, por bagaço de cana. Uma das fases mais importantes era a purga ou purificação. Consistia em acondicionar o caldo já cozido em recipientes em forma de cone que eram colocados invertidos em andaimes de madeira com orifícios próprios para acomodá-los. As formas de pães de açúcar eram fabricadas originalmente em barro, o que explica a presença de escravas oleiras e de olarias perto dos engenhos. Depois de separados os açúcares de cores e valores diferentes, eram secos ao sol e embalados para serem transportados e comercializados. – Mary del Priore

plantaçãocana

 

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1 Comentário

  1. regina volcato disse:

    muito bom…diante de um Brasil sem pátria…. de uma sociedade sem limites…. buscar nosso passado é como regar raizes pra que os galhos cresçam e folhas brotem…perfeito!

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