O dever de ser frígida

Publicado em 2 de maio de 2014 por - História do Brasil

As mulheres deveriam ser recatadas e sisudas. No casamento e na família, tinham função específica: a de “servir e obedecer como fazem as boas, virtuosas e bem procedidas mulheres”, como explicou uma delas, ao responder, em 1761, a um processo de divórcio. O companheirismo, baseado na concórdia mútua, era o sentimento aconselhado aos esposos. O amor e a paixão dentro do casamento deviam ser minimizados, pois o amor-paixão era sempre visto como algo irracional. Segundo os pregadores, era “o oceano em que naufragam as más paixões”, arriscando levar, nesse naufrágio, os bens, a honra e o patrimônio familiar.

Antigos provérbios populares mostram, no entanto, como era difícil, já naquela época, a realização do casamento ideal: Casa de pombos, casa de tombos; Casados, separados.

E o sexo dentro do casamento? Vejamos o que dizia a Igreja sobre o assunto: “A luxúria é vício da lama que inclina a querer deleite desordenado de cópula carnal…”. A luxúria é o mesmo que sensualidade. Inclinar é predispor. Deleite é prazer. Desordenado, aqui, significa desmedido, incontrolável. Cópula carnal é cópula mesmo! Agora, já não fica tão difícil entender esse preceito moral estabelecido pelas autoridades da Igreja católica.

Poucos sabem que, sob influência do cristianismo, uma nova ética sexual se impôs dentro do sacramento. A regra era recusar o prazer. Só o espírito tinha valor. A “carne”, como dizia são João, “não servia para nada”; e o desejo e a luxúria eram coisas de Satã, que, aliás, já havia enganado Eva no paraíso. A saída era fazer do sexo um remédio contra a concupiscência, voltado exclusivamente para a procriação. “Crescei e multiplicai-vos”, eis a ordem – que deveria ser executada com muita decência.

Além disso, os casais tinham de seguir o calendário religioso para fazer amor: não era permitido em domingos e dias santos, nos dias dos santos padroeiros e durante a Quaresma. Proibia-se também sexo às mulheres grávidas, pois se temiam os abortos; às mulheres menstruadas, pois se acreditava que elas, nesses dias, geravam filhos leprosos; e às mulheres que estivessem amamentando, por medo de contaminar o leite com esperma!

A hostilidade da Igreja ao sexo transparecia também na perseguição aos chamados “tocamentos torpes”, toques ou beijos, que visavam apenas o gozo, sem a finalidade de procriação. Gestos de afeto, como o beijo por “deleitação carnal e sensitiva”, eram considerados “indecentes e perigosos”. Além disso, as esposas deviam estar em guarda contra os chamados “tatos venéreos sensuais e carnais”, ou seja, todo toque sobre parte do corpo tida por macia e aveludada… Ainda segundo um sisudo padre confessor do século XVIII, seriam também pecados graves “apertar a mão de uma mulher, beliscá-la, pisar-lhe o pé”.

Os casais eram severamente perseguidos quando tentavam evitar filhos. Na época, vale lembrar, não existia nem “camisinha”, nem pílula anticoncepcional. Na maior parte das vezes, usava-se uma técnica bastante difundida na Europa: o coito interrompido, que a Igreja católica condenava, como revela o trecho de um diálogo entre um confessor e o padre no confessionário: “Padre, várias vezes retraí-me, impedindo a concepção”. E a resposta ríspida do padre: “Pois saiba Vossa Mercê que peca mortalmente cada vez que fizer isto; e, se sua mulher consentiu nisto, fez o mesmo e é ré do mesmo pecado!”.

Além do cerceamento do sexo dentro do casamento, a Igreja reduzia ao mínimo o lazer erótico e qualquer situação de prazer. Um manual de confissão do século XVII, por exemplo, dizia ser “muito sujo e perigoso o passatempo de porem-se as mulheres a ver nadar os homens… e mui dignos de repressão os que sendo de um sexo se põem a ver os do outro quando se banham, quando se desnudam ou quando dormem”.

A vida sexual dos casais era bastante reprimida pela Igreja, o que não significava, entretanto, que todos seguiam essas regras. Documentos existentes nos arquivos luso-brasileiros mostram que os casais tinham uma vida sexual livre e que várias pessoas, sobretudo os homossexuais, buscavam viver o prazer como bem quisessem. A Igreja, porém, esteve sempre por perto, ameaçando, punindo e chegando mesmo a queimar em fogueiras os que insistissem em pecar.

Vários historiadores comprovaram a valorização do casamento desde os primeiros séculos da colonização. Ele era indício de respeitabilidade, ascensão social e segurança. “Mulheres que não tinham marido”, como as designam documentos antigos, viviam à deriva, nos limites da desclassificação social, almejando uma vida minimamente alicerçada segundo os costumes sociais e a ética oficial. Na sociedade tradicional, a mulher não possuía estatuto fora do casamento; ele era a única instituição que lhe permitia se realizar como ser social. Tornar-se uma “santa esposa e mãe” – como queria a Igreja católica – davam o respeito, a mobilidade social e a segurança tão almejadas pelas populações femininas. – Mary del Priore

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“Santa Cecília”, de Jacques Blanchard (1600-1638): modelos femininos.

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