O corpo sedento. Bebidas na História do Brasil

Publicado em 8 de setembro de 2014 por - História do Brasil

Por Henrique Carneiro.

Na Europa, as bebidas mais valorizadas foram as fermentadas, consideradas desde a Antiguidade até a época moderna como superiores à água pura, uma vez que esta poderia estar contaminada, e os vinhos ou as cervejas tinham a capacidade de purificá-las, combatendo alguns dos micróbios transmissores de doenças. Além disso, a fermentação sempre foi vista como um processo mágico, um cozimento sem fogo, que produz calor, gases, efervescência, borbulhas. Por isso, certas civilizações, especialmente entre os ameríndios, relacionam-na ao sêmen humano e à formação da própria humanidade, constituindo, assim, o alimento cultural por excelência. (…)

No caso dos indígenas do Brasil, havia diversas substâncias essenciais, entre as quais o tabaco, os rapés alucinógenos (paricá e yopo), as bebidas enteogênicas, como a ayahuasca, mas, antes de tudo, por sua difusão extremamente ampla, os diversos líquidos fermentados (pouquíssimos foram os grupos indígenas amazônicos ou litorâneos que desconheceram-nas, diferentemente dos norte-americanos ou do extremo sul patagônico).

Um grande cientista brasileiro das drogas e bebidas, o pernambucano Oswaldo Gonçalves de Lima, cujo reconhecimento de suas contribuições originais ainda é insuficiente, estudou profundamente todos esses processos de fermentação tanto no Brasil como em outros países, especialmente o México. Escreveu, assim, os trabalhos pioneiros da etnozimologia (estudo das fermentações tradicionais), dando conta das formas antigas e contemporâneas de produção dessas bebidas como resultado da ação de bactérias e leveduras.

No nível mais simples, encontramos os bebedores de seivas de palmeiras, muitas vezes por meio de um buraco diretamente no tronco, em que, em poucas horas, o líquido leitoso e doce fermenta, podendo ser absorvido da própria planta (tal como faziam os guatós, do Pantanal). O mel também servia para essa finalidade, misturado com a cera em água, produzindo um hidromel de fraco teor alcoólico, especialmente utilizado pelos tapuias do sertão, assim como por outros hábeis colhedores de colmeias, como os kaingang do sul.

A fermentação por “salivação e esputo”, ou seja, por mascagem da mandioca, feita em geral por mulheres, é um dos métodos mais conhecidos, mas também se produzem bebidas alcoólicas por meio da fermentação de beijus, como é o caso do pajauaru, especialmente na região do Rio Negro. Nessa técnica, a mandioca é mergulhada por alguns dias na água e lama de um riacho e se torna “puba”, um pouco apodrecida, tornando assim mais fácil a amilase, ou seja, a quebra dos amidos.

Entre os índios brasileiros, o principal fermentado era o cauim. Assim eram chamados nas regiões litorâneas habitadas pelos tupinambás todos os sucos da mandioca e das frutas doces e generosas, como o ananás e o caju, mas também o cacau, a mangaba, a jabuticaba, entre tantas outras. Outro método era de frutas liquefeitas e trituradas com água que fermentavam e precisavam ser rapidamente consumidas antes de se estragar. Fossem fabricadas com mandioca, milho ou frutas, alcançavam um teor alcoólico máximo de 7%, no caso do abacaxi (o mais rico em açúcares), variando de acordo com o teor de açúcares do produto usado, o que é a característica geral de todos os fermentados.

Outros métodos também desenvolvidos, além da insalivação, eram o da fabricação de beijus, que, deixados embolorar, ficavam sacarificados pela ação do mofo e depois, misturados à água, fermentavam, constituindo o caxiri (especialmente nas regiões do Rio Negro, influenciadas pela cultura aruaque), o mucururú, a caiçuma e o pajauaru, ou então a massa da farinha de mandioca ou milho era envolta em folhas de bananeira (a técnica da moqueca ou da pamonha brasileira ou, ainda, da huminta andina) e também deixada embolorar para depois ser transformada em uma bebida fermentada, tal como o masato amazônico.

Essa busca, em todos os produtos da natureza, de matérias-primas transformáveis em bebidas fermentadas, foi uma das características mais amplamente difundida entre os indígenas americanos que, com exceção daqueles dos extremos sul e norte, fabricaram em quase todas as regiões licores alcoólicos, cuja denominação mais geral, além de cauim, foi, a partir das regiões da colonização espanhola, chicha. O mais provável é que o termo seja caribenho, como registrou no século XVI o cronista Gonzalo Fernandez Oviedo. Passou a designar os diversos fermentados americanos, o mais comum sendo o de milho germinado (maltado), mas podendo ser feito também de mandioca, batatas, pinhões, cogumelos e todos os tipos de frutas. Essa propensão a também fazer de todos os produtos comestíveis fontes para a fabricação de bebidas não escapou aos olhos dos primeiros europeus. O próprio Colombo, ao chegar na Ilha de La Hispaniola (atual República Dominicana e Haiti), registrou que “do que fazem pão, fazem vinho”.

No processo de colonização ocorreu uma contaminação dos brancos, africanos e mestiços pelos rituais idolátricos indígenas, em que o consumo sagrado do cauim, do pulque ou da chicha muitas vezes é acompanhado de outras substâncias psicoativas ainda mais fortes, mais desconhecidas e mais inquietantes. Isso tornou-se um pesadelo para as autoridades eclesiásticas, que desencadearam, com seus aparelhos policiais inquisitoriais, inúmeras campanhas de “extirpação de idolatrias” em que o alvo era sempre a embriaguez, especialmente no Peru no século XVII, quando as festas (taquis) e bebidas (chicha) dos índios eram perseguidas como depositárias de antigas tradições sobreviventes que deveriam, para a boa cristianização, ser completamente extintas.

Sempre há embriaguez em seus pecados, diziam dos indígenas as autoridades eclesiásticas. Por isso, buscavam proibir suas festas, rituais e cerimônias em geral e, especialmente, as que eram alimentadas pelo calor dessas poções de ebriedade. A embriaguez indígena passou a ser vista por quase todos os cronistas europeus como a causa principal da idolatria. O padre jesuíta José de Acosta, por exemplo, afirmará, em relação ao Peru, que tal não só é um pecado, como também é a causa principal de todos os outros.

Essa embriaguez descontrolada que atingiu os indígenas americanos, livres dos antigos controles tradicionais, abrangeu ainda os colonizadores europeus, assim como os escravos trazidos da África, que já possuíam o domínio das técnicas da fermentação, produzindo o pombe, cerveja de sorgo, assim como os diversos vinhos da seiva de palmeira, chamados de malafo, mas só tomaram contato com o vinho de uvas e sobretudo com os destilados, a partir do contato com os europeus.

O colapso das grandes civilizações ameríndias se deveu, em grande parte, ao choque biológico com as novas doenças europeias, além da desarticulação dos sistemas sociais existentes. No entanto, contemporâneos dessa que talvez tenha sido a mais grave hecatombe demográfica conhecida (morte de cerca de 90% da população original), buscaram outras explicações para o enorme despovoamento. Generalizada em toda a América pelos colonizadores europeus, uma delas culpava os supostos maus hábitos indígenas por essa catástrofe. No Peru, o padre Lizárraga afirmava que o alcoolismo e a sodomia foram as causas da despovoação das Índias. O demônio teria estabelecido seu império sobre aquela gente e todas as suas crenças e devoções foram identificadas a ele pelos missionários. O próprio conhecimento das plantas inebriantes teria sido transmitido pelo demônio aos povos originários, enquanto as consideradas puramente medicinais teriam outra fonte de saber.

Os usos de bebidas fermentadas e outras drogas foram objeto de grandes discussões teológicas entre vários autores durante o século XVI, com o dominicano Bartolomé de Las Casas defendendo os indígenas e sendo tolerante com suas formas de embriaguez e até com suas “superstições”, enquanto outros teólogos, que predominariam, viam em suas festas, bebedeiras, adivinhações e cultos de lugares, plantas, animais e coisas manifestações demoníacas que deveriam ser extirpadas. (…)

O uso em si das bebidas não era condenado, pois os europeus também o faziam, mas sim a busca deliberada dos “transtornos que afetam a mente”, dos efeitos psicoativos das diversas manifestações e formas das ebriedades, consideradas todas, fossem de bebidas fermentadas, fossem de tabaco, de coca ou de ololiuqui como “borrachez”, sendo assim censuradas como embriaguez no sentido geral de alteração voluntária do estado mental, que era exatamente a marca mais característica das formas de beber indígenas, intensas e extremadas. A perseguição à embriaguez buscada de forma deliberada e sistemática, em rituais de convívio, com significados de devoção e hospitalidade, foi uma das grandes obsessões dos colonizadores das Américas.

No âmbito do mundo luso-brasileiro, João Azevedo Fernandes reuniu boa parte das evidências existentes nas fontes primárias a respeito da perseguição implacável dos colonizadores, especialmente os clérigos, para com os ritos da cauinagem, vistos como a verdadeira religião sem templo dos aborígenes. O antigo “regime etílico” indígena, regrado, ritualizado e servindo de elemento central das culturas nativas, foi praticamente destruído, interditado e substituído pelos derivados da cana-de-açúcar, sobretudo a cachaça.

Trecho extraído do capítulo 5 “O Corpo Sedento. Bebidas na História do Brasil”, de Henrique Carneiro, em “História do Corpo no Brasil”, organização Mary del Priore e Márcia Amantino. (Editora Unesp, 2011).

dica2

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Comentários

Deixe o seu comentário!